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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Retrato de Mulher Triste

 Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram
embala-se em valsas que não dançou
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha
levantará com desdém o arco das sobrancelhas
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

[Cecília Meireles]

Cecília nasceu há 110 anos – 7 de Novembro de 1901 / 9 de Novembro de 1964

terça-feira, 1 de novembro de 2011

CÂNTICO IV

Adormece o teu corpo
com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quer  ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês  então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?

[Cecília Meireles]

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Mulher ao espelho

Hoje que seja esta ou aquela
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo  e do meu rosto
se tudo é tinta: o mundo, a vida
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes
outros, buscando-se no espelho.

[Cecília Meireles]

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Canção a caminho do Céu


Foram montanhas? foram mares?
foram os números? Não sei.
Por muitas coisas singulares
não te encontrei

E te esperava e te chamava
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? Maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sózinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido
e o encantamento arrependido
do meu amor.

[Cecília Meireles]

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Menino Azul

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso
que não corra nem pule
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios
das montanhas, das flores
de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

Quem souber de um burrinho desses
pode escrever
para a Ruas das Casas
Número das Portas
ao Menino Azul que não sabe ler.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 14 de junho de 2011

Os gatos da tinturaria

Os gatos brancos, descoloridos

passeiam pela tinturaria

miram policromos vestidos.

Com soberana melancolia

brota nos seus olhos erguidos

o arco-íris, resumo do dia

ressuscitando dos seus olvidos

onde apagado cada um jazia

abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria

xadrez sem fim, por onde os ruídos

atropelam a geometria

os grandes gatos abrem compridos

bocejos, na dispersão vazia

da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia

da renúncia e tranquilos, vencidos

dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos

mas baixam a pálpebra fria


[Cecília Meireles]