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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada
da frescura que vem depois do Sol
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente
e é ternura também que vou vestindo
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

[David Mourão-Ferreira]

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CAPITAL

Casas, carros, casas, casos.
Capital
encarcerada.

Colos, calos, cuspo, caspa.
Cautos, castas. Calvos, cabras.
Casos, casos... Carros, casas...
Capital
acumulado.

E capuzes. E capotas.
E que pêsames! Que passos!
Em que pensas? Como passas?
Capitães. E capatazes.
E cartazes. Que patadas!
E que chaves! Cofres, caixas...
Capital
acautelado.

Cascos, coxas, queixos, cornos.
Os capazes. Os capados.
Corpos. Corvos. Copos, copos.
Capital
oh! capital
capital
decapitada!

[David Mourão-Ferreira]

sábado, 11 de junho de 2011

P R E S Í D I O

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore
às vezes linho, lago, tronco de árvore
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida
onda de pedra em cada reencontro
no parque da memória o fugídio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio
pois no teu corpo existe o mundo todo!

[David Mourão-Ferreira]

sábado, 4 de junho de 2011

Irrompe do teu corpo iluminado

Irrompe do teu corpo iluminado
toda a luz, de que o mundo sente a falta
Não a que mais reluz, só a mais alta
Só a que nos faz ver o outro lado

do bosque onde o Futuro e o Passado
defrontam o Presente que os assalta
num combate indeciso a que nem falta
o sabor de saber-se ilimitado

Irrompe assim a luz, entre os extremos
da mesma renovada madrugada
E vibra a cada instante um novo grito

Com essa luz do grito, é que nós vemos
que Passado e Futuro não são nada
apenas o Presente é infinito!

[David Mourão-Ferreira]


domingo, 22 de maio de 2011

Sala de Espera

Quem foi
antes de mim não demorou
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..

Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
Mas enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....

Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, na sala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)

Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
E  arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.

[David Mourão-Ferreira]

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Amália " Nome De Rua "



Nome de Rua

Deste-me um nome de rua
de uma rua de Lisboa.
Muito mais nome de rua
do que nome de pessoa.
Um desses nomes de rua
que são nomes de canoa.

Nome de rua quieta
onde à noite ninguém passa.
Onde o ciúme é uma seta
onde o amor é uma taça.
Nome de rua secreta
onde à noite ninguém passa.
Onde a sombra de um poeta
de repente nos abraça.

Com um pouco de amargura
Com muito de Madragoa
e a ruga de quem procura
e o riso de quem perdoa
deste-me um nome de rua
de uma rua de Lisboa.

[David Mourão-Ferreira / Alain Oulman]

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Alvorada

E de súbito um corpo.
Alvorada sombria, alvorada nefasta
envolta nuns cabelos.....
eram negros e vivos.
Quem sofria, só de vê-los?
Eram negros e vivos como chamas.
Brilhavam azulados sob a chuva.
Brilhavam azulados como escamas
de sereia sombria sob a chuva...
Veio cedo de mais a trovoada.
O vento lembrou-me quem eu sou:
Alvorada suspensa, contemplada por alguém
que chegou a uma sacada
e à beira da varanda vacilou.

[David Mourão-Ferreira]