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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Vulcões

Vulcão em Saturno

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

[Florbela Espanca]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ao Vento

Ao Vento

O vento passa a rir, torna a passar
Em gargalhadas ásperas de demente
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente
Vento que ris de mim sempre a troçar
Vento que ris do mundo e do amor
A tua voz tortura toda a gente!...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo
E não rias assim!... Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário
e a gente andar a rir p’la vida fora!!...

[Florbela Espanca]

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Em busca do Amor

Em busca do Amor

O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando
E aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar
As contas do meu sonho desfilando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu... olhou... e riu...

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás, desanimados...
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!...”

[Florbela Espanca]

sábado, 11 de dezembro de 2010


Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!...

As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas

Só a triste, coitadinha...
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha ...

Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua...
E fico a chorar com ela! ...

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

À vida

À vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo "Pedro Sem"
Uma alegria é feita dum tormento
Um riso é sempre o eco dum lamento
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento, é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia
A gente esquece sempre o bom de um dia.
Que queres meu Amor… se é isto a vida!

[Florbela Espanca]

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Amor que morre

Impression: Sunrise [1873], Claude Monet


Amor que morre

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos pra partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!

[Florbela Espanca]

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Vozes do Mar

Vozes do Mar

Quando o sol vai caindo sob as águas,
Num nervoso delíquio d´ouro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, oh mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d´epopeias? Tens anseios
D´amarguras? Tu tens também receios,
Oh mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, oh mar amigo?…
…Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

[Florbela Espanca]

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Versos de orgulho

Versos de orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
tem asas como eu tenho ! Porque Deus
me fez nascer Princesa entre plebeus
numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além ...
porque trago no olhar os vastos céus
e os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
O jardim dos meus versos todo em flor ...
a seara dos teus beijos, pão bendito ...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ...
são os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

[Florbela Espanca]

sábado, 3 de julho de 2010

Se tu viesses ver-me...



Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

[Florbela Espanca]

terça-feira, 6 de abril de 2010

Noite de saudade



A Noite vem poisando devagar
sobre a Terra, que inunda de amargura...
e nem sequer a benção do luar
a quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
a sua dor que é cheia de tortura...
e eu oiço a noite imensa soluçar!
e eu oiço soluçar a noite escura!

Porque és assim tão escura, assim tão triste?
é que talvez oh Noite, em ti existe
uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
talvez de ti, oh Noite!... Ou de ninguém!...
que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

[Florbela Espanca]

segunda-feira, 8 de março de 2010

Horas Rubras



Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca misteriosa...
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

[Florbela Espanca]

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Desejos vãos



Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte! 
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

[Florbela Espanca]



terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior



Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

[Florbela Espanca]