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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Alma Perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente
Tu és talvez, alguém que se finou!

Tu és  talvez, um sonho que passou
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque  ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…

[Florbela Espanca]

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Minha culpa


Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados
Num mundo de maldades e pecados
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

                         [ Florbela Espanca]

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A nossa casa


A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onte está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, oh meu Amor, dentro de mim...

                         [ Florbela Espanca]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Tarde de mais...


Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E  há cem anos que eu era nova e linda!...
E  a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, oh meu Amor?!...

[Florbela Espanca]

sábado, 22 de outubro de 2011

NOSTALGIA

Nesse país de lenda, que me encanta
Ficaram meus brocados, que despi
E as jóias que p´las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-me esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o reino de que eu sou infanta!

Ó meu país de sonho e de ansiedade
Não sei se esta quimera que me assombra
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim... Ah!
Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

[Florbela Espanca]

sábado, 24 de setembro de 2011

Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

[Florbela Espanca]