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domingo, 29 de janeiro de 2012

A Sofreguidão de um Instante

Tudo renegarei menos o afecto
e trago um ceptro e uma coroa
o primeiro de ferro, a segunda de urze
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda
que seja em redor do teu sono
num êxtase de lábios sobre a relva
num delírio de beijos sobre o ventre
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.

[José Jorge Letria]

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Parabéns Querida Mãe


Quem diria que no dia de hoje não te fui ver á tua última morada.Era impensável, há um ano atrás isto acontecer … Maldito cancro que não me deixa respirar e que até as forças me tira, para nem sequer um ramo de flores colocar na campa da minha Mãe. Farias, hoje 82 anos, vivo da tua recordação, ouço quando me dizias “António deixa de fumar, porque um dia vais precisar tanto da saúde e não a vais ter e vais arrepender-te tanto e dizer “a Minha Mãe tinha tanta  razão”.  A minha família eras tu Mãe e peço a Deus que ao menos me dê um milésimo da tua força, para ver se consigo chegar ao fim.

“Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos o chamamento da água
o chamamento sibilino que se confunde com o ranger das portas das casas
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz de me resgatar e que dentro
dele se perfilem as sombras e os gestos, exército dos meus medos
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida das camas.(…)”

[José Jorge Letria]

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Outras tantas vezes morrerei no que não disse

Outras tantas vezes morrerei no que não disse.
Esta palavra morte teima em não me sair
da boca. É antiga e grave como
um pressentimento ou uma cicatriz.
Olho-me nos retratos da distância
e tenho um nome feito de algas.
Toda a minha vida é um círculo inquieto:
os filhos no meio a brincarem com a areia
a erguerem cidades no vento, e eu de pé
atordoado pelo medo, a interrogar-me
sobre o amanhã das falas que me tiram
de enganos e temores. Desenho uma planície
branca ou uma casa indefesa e tudo
o que sei é um motim de sombras
à ilharga dos olhos na véspera de outras águas.

[José Jorge Letria]

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio
porque queima os dedos
porque fere os lábios
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem
crianças a brincarem nos passeios
amantes ocultando-se nas sebes
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta  e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

[José Jorge Letria]

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mãe, eu estou tão Cansado

Mãe, eu estou tão Cansado

Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos
o chamamento da água, o chamamento sibilino
que se confunde com o ranger das portas das casas
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz
de me resgatar e que dentro dele se perfilem
as sombras e os gestos, exército dos meus medos
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida
das camas.
Mãe, a luz não se demora no meu quarto
morre nas corolas das flores que trouxeste
para o riso não murchar e eu fico doente só de olhar
os muros onde a hera é espiral de espanto, raiz
de uma enfermidade latente.
Não voltarei
às actas do desespero, que são sombrias e magras
como os corpos dos amantes que definham sobre a areia
na fúria da maré, com uma gramática de murmúrios
escondida na solidão branca das dunas, mãe.

[José Jorge Letria]

Mãe, tu sabes que é verdade.