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domingo, 4 de abril de 2010

Esta manhã encontrei o teu nome



Esta manhã encontrei o teu nome

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele.
E o corpo doeu-me onde antes os teus dedos, foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida, como um peixe respira
na rede mais exausta.

Nem mesmo à despedida foram os gestos contundentes:
tudo o que vem de ti é um poema.
Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem.

Sentei-me na cama e repeti devagar o teu nome,
o nome dos meus sonhos, mas as sílabas caíam
no fim das palavras, a dor esgota as forças,
são frios os batentes nas portas da manhã.

[Maria do Rosário Pedreira]

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Dorme, meu amor




Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo e o vento amaciou e a minha mão desvia os passos do medo.
 Dorme, meu amor, a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres.
 Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me , eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega , a porta está trancada e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho.
 Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos, a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

[Maria do Rosário Pedreira]

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Diz-me o teu Nome


Diz-me o teu Nome

Diz-me o teu nome , agora, que perdi quase tudo,
um nome pode ser o princípio de alguma coisa.
Escreve-o na minha mão com os teus dedos,
como as poeiras se escrevem, irrequietas nos caminhos
e os lobos mancham o lençol da neve com os sinais da sua fome.
Sopra-mo no ouvido, como a levares as palavras
de um livro para dentro de outro, assim conquista o vento,
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão na casa fria.
E antes de partires, pousa-o nos meus lábios devagar:
É um poema açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.
Ninguém esquece um corpo que teve nos braços um segundo…
Um nome sim!

[Maria do Rosário Pedreira]

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sede e Morte (Carlos Paredes)


Deixei de ouvir-te


Deixei de ouvir-te. E sei que sou

mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste;

mas,se encostar ao teu pulso o meu ouvido

não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei.

E não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

[Maria do Rosário Pedreira]

sábado, 3 de outubro de 2009

Quando eu morrer


Quando eu morrer

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra.

Deixa que nos meus braços pousem então as aves
(que, como eu, trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões) e planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti).

Quando eu morrer, deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo
e não chores, nem toques com os teus lábios a minha boca fria.
Promete-me que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos,
como pequenos foram sempre os meus ódios
e que depois os lanças na solidão de um arquipélago
e partes sem olhar para trás nenhuma vez.
Se alguém os vir de longe brilhando na poeira,
cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas,
pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

[Maria do Rosário Pedreira]