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sábado, 28 de janeiro de 2012

O poema

O poema levar-me-á no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sózinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá às searas
A sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
As suas sílabas redondas
(Oh antigas oh longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

[Sophia de Mello Breyner Andresen ]   

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

P Á T R I A

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Oh minha pátria e meu centro

Dói –me a lua e soluça-me o mar
E o exílio inscreve-se em pleno tempo.



[Sophia de Mello Breyner Andresen]

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Paisagem


Passavam pelo ar aves repentinas
O cheiro da terra era fundo e amargo
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura
Era a carne das árvores elástica e dura
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa
Era o peso e era a cor de cada coisa
A sua quietude, secretamente viva
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo
Cuja voz, quando se quebra, sobe
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.


[Sophia de Mello Breyner Andresen]

sábado, 27 de agosto de 2011

JARDIM PERDIDO

Jardim perdido, a grande maravilha
Pela qual eternamente em mim
A tua face se ergue e brilha
Foi esse teu poder de não ter fim
Nem tempo, nem lugar e não ter nome.

Sempre me abandonaste à beira duma fome.
As coisas nas tuas linhas oferecidas
Sempre ao meu encontro vieram já perdidas

Em cada um dos teus gestos sonhava
Um caminho de estranhas perspectivas
E cada flor no vento desdobrava
Um tumulto de danças fugitivas.

Os sons, os gestos, os motivos humanos
Passaram em redor sem te tocar
E só os deuses vieram habitar
No vazio infinito dos teus planos

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

domingo, 14 de agosto de 2011

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS

Entre a guerra e a paz - Aguarela acrílica de Dina de Souza

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

terça-feira, 19 de julho de 2011

Às vezes


Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma
vaga e incerta, como a água.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


quinta-feira, 16 de junho de 2011

LUSITÂNIA

Os que avançam de frente para o mar
e nele enterram como uma aguda faca
a proa negra dos seus barcos
vivem de pouco pão e de luar




[Sophia de Mello Breyner Andresen]