sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Desespero da Piedade


O Desespero da Piedade

Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!

[Vinícius de Moraes]

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Permite-me



Abre as portas do teu mundo
Permite a minha entrada...
Dá-me aquele sorriso profundo
E abraça-me à chegada...
Permite-me amar-te sem medo,
Bailar no amor serenamente
Só tu e eu, o nosso segredo...
Sonhar,voar livremente!
Deixa minha alma enlaçar a tua!
Adorar-te na melodia do meu verso
Dar vida à imaginação que flutua
Permite-me do teu lado ficar
Ser parte do teu universo...
E no teu coração pra sempre morar!


[Graça Silva]

Planicie (Passaros do sul) [youtube]


Plenitude


Serenamente, tão serenamente
como a folha que cai da azinheira
no verão sem brisa, ao fim da tarde
ponho as mãos no teu rosto
chamas-me Plenitude!
não tenho mais que esse momento

(Maria Lascas)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Traz Outro Amigo Também....(link youtube)


Traz Outro Amigo Também

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também


(José Afonso)

domingo, 27 de julho de 2008

Porto Sentido...Link(youtube)


Porto Sentido

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende até ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
dirigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria,
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

Rui Veloso/Carlos Tê

terça-feira, 13 de maio de 2008

Saudades de Coimbra ...(link)

Saudades de Coimbra

Oh Coimbra do Mondego
E dos amores que eu lá tive,
Quem te não viu, anda cego,
Quem te não ama, não vive.

Do Choupal até à Lapa
Foi Coimbra os meus amores.
A sombra da minha capa
Deu no chão, abriu em flor

(Mário da Fonseca/Edmundo Bettencourt)

Voz:José Afonso

Balada do Outono ....(Link)


BALADA DO OUTONO

Águas passadas do rio,
Meu sono vazio
Não vão acordar;
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
Pràs bandas do mar;
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar.

(José Afonso)
Poema/Música e Voz

Almas Perfumadas


Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta
De sol quando acorda
De flor quando ri,
Ao lado delas,a gente se sente
comendo pipoca na praça.
Lambuzando o queixo de sorvete,
Melando os dedos com algodão doce
da cor mais doce que escolher.
O tempo é outro.

E a vida fica com a cara que ela tem de verdade,
Mas que a gente desaprende de ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus.
De banho de mar,quando a água é quente e o céu é azul.
Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis.
Ao lado delas a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo
Sonhando a maior tolice do mundo com gozo de quem não liga pra isso.
Ao lado delas,pode ser abril,mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o
presente de Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na
Terra,
Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível,a gente tem certeza.
Ao lado delas,saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra em nosso coração.
Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa,
Do brinquedo que a gente não largava,
Do acalanto que o silêncio canta.
Do passeio no jardim.
Ao lado delas,a gente percebe que
a sensualidade é um perfume
Que vem de dentro e que a atração
que realmente os move não passa
só pelo corpo.
Corre em outras veias,
Pulsa em outro lugar.
Ao lado delas, a gente lembra que
no instante em que rimos Deus está
connosco,
Juntinho ao nosso lado.
E a gente como você que nem percebe
Como tem a Alma Perfumada.
E que esse perfume é Dom de Deus."


[Ana Cláudia Saldanha Jácomo]

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Uma vez que seja


Tu, que navegas ao sabor do vento
sem outra rota que a que se deseja
Tu, que por mapa tens o firmamento
vem descobrir-me, uma vez que seja!

E diz-me das viagens que não faço
dos mundos cintilantes que antevejo
E traz-me mares de mel no teu abraço
poeira de ouro velho no teu beijo!

Ó navegante da minha fantasia
por quanto tempo mais te sonharei
até terem sentido, num só dia
todos os dias em que te esperei?

De ti não espero amarras nem promessas
É livre que te quero neste cais
Até que um dia em mim não amanheças
e te faças ao mar, uma vez mais...

É que, mesmo na hora de perder-te
sabendo que a magia se desfez
terá valido a pena conhecer-te
e deslumbrar-me, ao menos uma vez!

[Ana Vidal]

quinta-feira, 20 de março de 2008

Quase alegre..quase


(Óleo de José Bardasano Baos)
Quase Alegre…quase

Quase alegre quase
Quase triste quase
Não sei onde , algures
Em qualquer taberna
Qualquer simples terna
Banal concertina
Mói teimosamente
Sempre a mesma frase

Recomeça, insiste
Alegre ou triste..
Insiste!
Nunca mais termina

Pobre e cristalina
Popular, vulgar
Nada tem a frase de particular
Mas lançada a branda brisa vespertina
Que ma traz distante
Quase alegre quase
Quase triste quase
Não sei porque algures essa concertina
Resignadamente mói a mesma frase

Como uma saudade
Que nem é de nada
Mas é bem saudade
Seja do que for
Como uma chuvinha
Plácida obstinada
Que miudinha invada
Tudo de em redor

Renitente frase
Pobre e cristalina
Que na sombra algures
Qualquer concertina
Resignadamente
Diabólicamente
Mói e mói e mói
Quase alegre quase
Quase triste quase….

Recomeça, insiste!
Alegre ou triste..
Insiste!
Nunca mais termina…

[José Régio]

sexta-feira, 14 de março de 2008

Com que voz



Com que voz, chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que amor não seja a dor que me deixou
o tempo...de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado

aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,

ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé, que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,

devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

[Luiz de Camões / Alain Oulman
]

quarta-feira, 5 de março de 2008

O Teu Riso (Neruda)


O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

[Pablo Neruda]

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Quem És Tu de Novo...




Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?

Quando o teu cheiro me leva às esquinas do vislumbre
E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?

As redes são passageiras, as arquitecturas da fuga
De toda a água que corre, de todo o vento que passa
Quando uma teia se rasga, ergo à lua a minha taça
E vejo nascer no espelho mais uma ruga.

Quando o tecto se escancara e se confunde com a lua
A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela
Por favor, diz-me que és alguém, de novo?

Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?

[JORGE PALMA]

sábado, 27 de outubro de 2007

Carta de Amor



Para te dizer tão só que te queria
Como se o tempo fosse um sentimento
bastava o teu sorriso de um outro dia
nesse instante em que fomos um momento.
Dizer amor como se fosse proibido
entre os meus braços enlaçar-te mais
como um livro devorado e nunca lido.
Será pecado, amor, amar-te demais?
Esperar como se fosse (des)esperar-te,
essa certeza de te ter antes de ter.
Ensaiar sozinho a nossa arte
de fazer amor antes de ser.
Adivinhar nos olhos que não vejo
a sede dessa boca que não canta
e deitar-me ao teu lado como o Tejo
aos pés dessa Lisboa que ele encanta.
Sentir falta de ti por tu não estares
talvez por não saber se tu existes
(percorrendo em silêncio esses altares
em sacrifícios pagãos de olhos tristes).
Ausência, sim. Amor visto por dentro,
certezas ao contrário, por estar só.
Pesadelo no meu sonho noite adentro
quando, ao meu lado, dorme o que não sou.
E, afinal, depois o que ficou
das noites perdidas à procura
de um resto de virtude que passou
por nós em co(r)pos de loucura?
Apenas mais um corpo que marcou
a esperança disfarçada de aventura...
(Da estupidez dos dias já estou farto,
das noites repetidas já cansado.
Mas, afinal, meu Deus, quando é que parto
para começar, enfim, este meu fado?)
No fim deste caminho de pecados
feito de desencontros e de encantos,
de palavras e de corpos já usados
onde ficamos sós, sempre, entre tantos...
Que fique como um dedo a nossa marca
e do que foi um beijo o nosso cheiro:
Tesouro que não somos. Fique a arca
que guarde o que vivemos por inteiro.

[ Fernando Tavares Rodrigues (1954-2006) ]

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Carinhoso

  CARINHOSO

Meu coração, não sei porquê,
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim
Foges de mim.
Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim.
Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz.......
[Pixinguinha / João do Barro]





quarta-feira, 25 de julho de 2007

Soneto dos Olhos Azuis




São como dois azuis perdidos lagos
Teus lagos olhos, mansos olhos rasos
Puríssimos azuis, dos prantos vasos
Perdidos olhos claros como lagos.

Espelham os teus olhos mundos vagos
Lagos espelham sóis azuis, ocasos
Translúcidos azuis dos meus acasos
Teus raros olhos claros, olhos vagos.

Vagueiam sobre mim teus olhos caros
Claríssimos azuis teus olhos raros
Perdidos olhos calmos como lagos.

Espelhos que refletem mundos rasos
Espelham sentimentos que são vasos
Teus olhos tão azuis... azuis... e vagos.


[Aramis Ribeiro Costa]