sábado, 10 de outubro de 2009

História do Santíssimo Milagre de Santarém






Fui lá hoje (10 de Outubro de 2009) esperavam uma excursão de Singapura, é um dos Roteiros da Fé no mundo, a maior parte dos Scalabitanos desconhecem a importância deste Santuário

História do Santíssimo Milagre de Santarém

Corria o ano de 1247, ou o de 1266, em Santarém, então vila de Portugal, vivia uma pobre mulher, a quem o marido muito maltratava, andando desencaminhado com outra.
Cansada de sofrer, foi pedir a uma bruxa judia que, com os seus feitiços, desse fim à sua triste sorte. Prometeu-lhe esta remédio eficaz, mas necessitaria de uma Hóstia Consagrada.
Depois de naturais hesitações, a pobre mulher foi à Igreja de Santo Estêvão, confessou-se e, recebida a Sagrada Partícula, com suma cautela a tirou da boca, embrulhando-a no véu.
Saiu prestes da Igreja, e encaminhou-se para a casa da feiticeira.Mas então sem que ela o notasse, do véu começou a escorrer Sangue, que visto por várias pessoas, as levou a perguntar à infeliz que ferimentos tinha. Confusa em extremo, corre para casa, e encerra a Hóstia miraculosa numa arca.
Passou o dia, entretanto e à tarde, voltou o marido. Alta noite, acordam os dois e vêem toda a casa resplandecente, da arca saíam misteriosos raios de luz. Inteirado o homem do acto pecaminoso da mulher, de joelhos, passaram o resto da noite, em adoração.
Mal rompeu o dia, foi o pároco informado do prodígio sobrenatural. Espalhado o sucesso, meia Santarém acorreu pressurosa a contemplar o Milagre. A Sagrada Partícula foi então levada processionalmente para a Igreja de Santo Estêvão, onde ficou conservada dentro de uma espécie de custódia feita de cera.
Mas passado tempo, ao abrir-se o sacrário para expor à adoração dos fiéis, como era costume, o Santo Milagre, encontrou-se a cera feita em pedaços e com espanto, se viu estar a Sagrada Partícula encerrada numa âmbula de cristal, miraculosamente aparecida.

Esta pequena âmbula foi colocada numa custódia de prata dourada onde ainda hoje se encontra.
Santo Estêvão é o Santuário do Santíssimo Milagre

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Amigo




Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra: - Amigo.
Amigo…
é um sorriso
De boca em boca
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo…
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo
é a solidão derrotada!
Amigo
é uma grande tarefa
Um trabalho sem fim
Um espaço útil, um tempo fértil
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

[Alexandre O'Neill]

terça-feira, 6 de outubro de 2009

P R I M A V E R A



Primavera

Todo o amor que nos
prendera
como se fora de cêra
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver

Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

[David Mourão-Ferreira]

Amália deixou-nos, faz 10 anos

sábado, 3 de outubro de 2009

Quando eu morrer


Quando eu morrer

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra.

Deixa que nos meus braços pousem então as aves
(que, como eu, trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões) e planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti).

Quando eu morrer, deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo
e não chores, nem toques com os teus lábios a minha boca fria.
Promete-me que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos,
como pequenos foram sempre os meus ódios
e que depois os lanças na solidão de um arquipélago
e partes sem olhar para trás nenhuma vez.
Se alguém os vir de longe brilhando na poeira,
cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas,
pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

[Maria do Rosário Pedreira]

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Hora Íntima



Hora Íntima

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: - Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: - Rei morto, rei posto. . .
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: - Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cais
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: - Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores ?

[Vinicius de Moraes]

terça-feira, 18 de agosto de 2009

MUITOS PARABÉNS, MINHA QUERIDA MÃE!

Idalina do Nascimento Moreira da Silva
18/08/1929 - 30/01/2009


O dia 18 de Agosto, sempre foi dia de festa lá em casa, quase feriado nacional.
Não se podia dizer que fosse um dia calmo, tantos eram os amigos, as flores, a confusão...eu reclamava porque sentia que os de fora, me queriam disputar-te, também te queriam para Mãe deles...e eu não entendia, que a tua missão era aquela...
Hoje é o primeiro 18 de Agosto, que passo sem ti Mãe, sem a tua gargalhada espontânea...como tu sabias fruir o que a vida te dava, mesmo que aos nossos olhos, nos parecesse pouco.
Sim, eu achava que merecias sempre mais , mas Tu, com a tua sabedoria infindável, demonstravas-me, tal como S. Francisco de Assis, que é dando que se recebe, que é perdoando que se é perdoado, que é amando que se é amado.
Saudades de ti Mãe, tanta coisa que me ficou por te dizer...
Hoje farias 80 anos, eu continuo por aqui na esperança que um dia nos possamos reencontrar e eu possa voltar para o teu colo...afinal, foste a única Pessoa que me deu Amor e Carinho, sem nunca pedir nada em troca.
Muitos Parabéns Querida Mãe, Grande Amor da minha Vida!

Do Teu filho que te amará para além do Sempre

António

Santarém, 18 de Agosto de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Poema de me chamar António






Hoje, ao nascer do sol, de manhãzinha,
ouvi cantar um galo no quintal
quando eu tinha seis anos
e fui passar as férias do Natal
com a minha madrinha.
Na cama improvisada no corredor
sábiamente fingia que dormia
muito embrulhado num cobertor,
enquanto numa luz melada e quase fria,
o mundo, sabiamente,
fingia que nascia.
E então apeteceu-me também nascer,
nascer por mim, por minha expressa vontade,
sem pai nem mãe,
sem preparação de amor,
sem beijos nem carícias de ninguém,
só, só e só por minha livre vontade.
Dobrado em círculo no ventre do meu cobertor
enrugado como um feto à espera de liberdade
(viva a liberdade!)
cerrava e descerrava as pálbebras, sábiamente,
como se as não movesse,
como se não sentisse nem soubesse,
abrindo-as numa fenda dissimulada e estreita,
insensível às coisas quotidianas,
mas hábil para aquela alvorada púrissima e escorreita
que me inundava o sangue através das pestanas.
Fremiam-se-me as pálpebras sacudindo na luz um
pó de borbletas, um explodir de missangas furta-cores,
bacilos e vapores,rendas brancas e pretas.
Cada vez mais feto, mais redondo, mais bicho-de-conta,
mais balão, mais planeta, bola pronta
a meter-se no forno, mais eterno retorno,
mais sem fim nem princípio, sem ponta nem aresta,
excremento de escaravelho aberto numa fresta.
Foi então que o galo cantou.
Looooooonge...
Muito Looooooonge...
no quintal da vizinha,
lá para o fim do mundo mesmo ao lado da casa
da minha madrinha.
Era uma voz, redonda, débil, inexperiente,
bruxuleante como a chama
que está mesmo a apagar-se e esperta de repente
e novamente morre e de novo se inflama.
Uma voz sub-reptícia, anódina, irresponsável,
fugaz e insinuante,
um canto sem contornos, aéreo , imponderável.
tudo isto e muito mais, mas principalmente distante.
Foi assim que a voz do galo na capoeira
do quintal da vizinha
que tinha plantado ao centro, uma nespereira
mesmo junto da casa da minha madrinha,
penetrou no ventre macio do meu cobertor.
Era uma frente de onda, compacta e envolvente,
pura já na garganta e agora mais que pura,
filtrada e destilada
nos poros ávidos da minha cobertura.
Chegou e fulminou o meu ser indigente,
exposto e carecido,
naquele gesto mole e distraído
do Deus Omnipotente da Capela Sistina
quando ergue a mão terrível e fulmina
o coração de Adão.
E pronto. Eis-me nascido. Cheio de sede e fome.
António é o meu nome.

[António Gedeão]

sábado, 27 de junho de 2009

Hora


Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta….por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera o peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Devia morrer-se de outra maneira...



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

[José Gomes Ferreira]

terça-feira, 26 de maio de 2009

À minha Querida Mãe

(a última foto, em 8 de Novembro de 2008)

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

[Miguel Torga]

terça-feira, 5 de maio de 2009

Tiro ao Alvaro (Elis Regina no Youtube)


Tiro ao Alvaro
Elis Regina

Composição: Adoniran Barbosa


De tanto levar "frechada" do teu olhar
Meu peito até, parece sabe o quê?
"Táubua" de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furar

Teu olhar mata mais do que bala de carabina,
Que veneno estriquinina.
Que peixeira de baiano,
Teu olhar mata mais que atropelamento de "automóver"
Mata mais, que bala de "revórver"

terça-feira, 28 de abril de 2009

Quando se Gosta de Alguém

Monet


Quando se Gosta de Alguém


Quando se gosta d'alguém
Sente-se por dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo o que é que se sente

Quando alguém gosta d'álguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amor andamos

Quando alguém gosta d'alguém
Anda assim como ando eu
Que não ando nada bem
Com este mal que me deu

Quando se gosta d'alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior a gente se sente

Quando se gosta d'alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto
Quando se gosta d'alguém
Como eu gosto de quem gosto!


[Amália Rodrigues]

quinta-feira, 26 de março de 2009

El-Rei


EL-REI

Longe da luz
A que sonhou na infância
Em vez de predomínio e de conquista
Sonhos de amor
Entre visões de artista
Morreu de desconsolo e de distância.

Caminho aberto
À morte por essa ânsia
Que mais se exalta
Quanto mais contrista
De quem recorda o lar que nunca avista
E se consome em lúcida constância.

Porque acima do trono e da realeza
Havia o céu azul, a claridade
Da sua amada Terra Portuguesa
Havia a Pátria, e dizem, que impiedade
Dizem que não se morre de tristeza
Dizem que não se morre de saudade.



[Branca Gonta Colaço]


quarta-feira, 4 de março de 2009

Adivinha o Quanto Gosto De Ti!....(Youtube)


Adivinha o Quanto Gosto De Ti!

Já pensei dar-te uma flor, com um bilhete, mas nem sei o que escrever.
Sinto as pernas a tremer, quando sorris p'ra mim, quando deixo de te ver.
Vem jogar comigo um jogo, eu por ti e tu por mim.
Fecha os olhos e adivinha, quanto é que eu gosto de ti.


Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

Ando a ver se me decido, como te vou dizer, como hei-de te contar.
Até já fiz um avião, com um papel azul, mas voou da minha mão.
Vem jogar comigo um jogo, eu por ti e tu por mim.
Fecha os olhos e adivinha, quanto é que eu gosto de ti.


Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

Quantas vezes eu parei à tua porta.
Quantas vezes nem olhaste para mim.
Quantas vezes eu pedi que adivinhasses.
Quanto é que eu gosto de ti.

(André Sardet)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Pequeno Poema

Homenagem à minha Querida e Santa Mãe(Santa sim!), que partiu no dia 30 de janeiro de 2009

Pequeno poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

[Sebastião da Gama]

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Estrela da Tarde


Estrela da Tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!


[José Carlos Ary dos Santos ]

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior



Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

[Florbela Espanca]

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Alfredo Marceneiro - O Marceneiro (youtube)


O Marceneiro


Com lídima expressão e voz sentida
Hei-de cumprir no Mundo a minha sorte
Alfredo Marceneiro, toda a vida
Para cantar o fado até à morte

Orgulho-me de ser em toda a parte
Português e fadista verdaddeiro
Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
Sou para toda a gente o Marceneiro

Este apelido em mim, que pouco valho
Da minha honestidade é forte indício
Sou marceneiro sim, porque trabalho
Marceneiro no Fado e no ofício

Ao Fado consagrei a vida inteira
E há muito por direito de conquista
Sou fadista mas à minha maneira
À maneira melhor de ser fadista

Se alguém duvidar, crave uma espada
Sem dó numa guitarra, para crer
A alma da guitarra mutilada
Dentro da minha alma há-de gemer


(Armando Neves)



sábado, 6 de dezembro de 2008

Tejo que levas as águas




Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores

Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas

Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro

Lava palácios vivendas
casebres bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata

Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar

Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais

Afoga empenhos favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder dos senhores
que compram corpos e almas

Leva nas águas as grades...
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas

Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos corpos destroçados
lava-os com sal e iodo

Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar


[Manuel da Fonseca]

A BELA DO BAIRRO




Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque
ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor

[Fernando Assis Pacheco]