sábado, 14 de novembro de 2009

Não Comerei da Alface a Verde Pétala


Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati

E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
[Vinicius de Moraes]

Amostra sem valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.

Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:

com ele se entretém e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,

sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,

que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,

não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida

ignoram todo o homem, dissolvem-no e contudo,

nesta insignificância, gratuita e desvalida,

o universo sou eu, com nebulosas e tudo.


[António Gedeão]

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Original é o Poeta



Brasil
onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!
Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.
Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.
Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Ente o chão encontrado e o chão perdido.

[Miguel Torga]

Se Alguém bater um dia à tua Porta


Se Alguém bater um dia à tua Porta

Se alguém bater um dia à tua porta
Dizendo que é um emissário meu
Não acredites, nem que seja eu
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco.
Esse era meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

[Fernando Pessoa]

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sede e Morte (Carlos Paredes)


Deixei de ouvir-te


Deixei de ouvir-te. E sei que sou

mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste;

mas,se encostar ao teu pulso o meu ouvido

não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei.

E não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

[Maria do Rosário Pedreira]

sábado, 7 de novembro de 2009

A bunda que engraçada



A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai pela frente do corpo.
 A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se.
 Montanhas avolumam-se, descem.
Ondas batendo numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda.
 Vai feliz na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda, rebunda.

[Carlos  Drummond  De Andrade]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O PALÁCIO DA VENTURA


 Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor
Silêncio e escuridão e nada mais! 

 [Antero de Quental]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

♫ Epitáfio ♫‏ - Tim (Youtube)


Epitáfio

Devia ter, amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter, arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer...

Queria ter aceite
As pessoas como elas são
Cada um sabe alegria
E a dor que traz no coração...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter, complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter, me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor...

Queria ter aceite
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter, complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr...

[Sérgio Britto / Titãs]

Voz : Tim

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Há uma música do povo




Há uma musica do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado –
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado...

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração...

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

(Fernando Pessoa)



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Caminante, no hay camino




Todo pasa y todo queda
pero lo nuestro es pasar
pasar haciendo caminos
caminos sobre el mar.

Nunca persequí la gloria

ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción
yo amo los mundos sutiles
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse

de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse...

Nunca perseguí la gloria.


Caminante, son tus huellas

el camino y nada más
caminante, no hay camino
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino

y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino

sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar

donde hoy los bosques
se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
"Caminante no hay camino
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
"Caminante no hay camino
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino
cuando de nada nos sirve rezar.
"Caminante no hay camino
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

[Antonio Machado]

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Fausto no Youtube (Namoro)


Namoro em Poconé




Namoro

Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
dizia ela tinha
um sorriso luminoso
tão triste e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
na fímbria do mar

Sua pele macia
era suma-uma
sua pele macias
cheirando a rosas
seus seios laranja
laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não

Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
'por ti sofre o meu coração'
num canto 'sim'
noutro canto 'não'
e ela o canto do 'não'
dobrou

Mandei-lhe um recado
pela Zefa do sete
pedindo e rogando
de joelhos no chão
pela Sra do Cabo,
pela Sta Efigénia
me desse a ventura
do seu namoro
e ela disse que não

Mandei à Vó Xica,
quimbanda de fama
a areia da marca
que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
bem forte e seguro
e dele nascesse
um amor como o meu
e o feitiço falhou

Andei barbado,
sujo e descalço
como um monangamba
procuraram por mim
não viu ai não viu ai
não viu Benjamim
e perdido me deram
no morro da Samba

Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sr. Januário,
mas ela lá estava
num canto a rir,
contando o meu caso
às moças mais lindas
do bairro operário

Tocaram a rumba
e dancei com ela
e num passo maluco
voamos na sala
qual uma estrela
riscando o céu
e a malta gritou
'Aí Benjamim'

Olhei-a nos olhos
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo
"larialá larialá...."

E ela disse que sim

[Fausto /Viriato Cruz]

Se eu Fosse um Padre


Se eu Fosse um Padre

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

[Mário Quintana]

sábado, 10 de outubro de 2009

História do Santíssimo Milagre de Santarém






Fui lá hoje (10 de Outubro de 2009) esperavam uma excursão de Singapura, é um dos Roteiros da Fé no mundo, a maior parte dos Scalabitanos desconhecem a importância deste Santuário

História do Santíssimo Milagre de Santarém

Corria o ano de 1247, ou o de 1266, em Santarém, então vila de Portugal, vivia uma pobre mulher, a quem o marido muito maltratava, andando desencaminhado com outra.
Cansada de sofrer, foi pedir a uma bruxa judia que, com os seus feitiços, desse fim à sua triste sorte. Prometeu-lhe esta remédio eficaz, mas necessitaria de uma Hóstia Consagrada.
Depois de naturais hesitações, a pobre mulher foi à Igreja de Santo Estêvão, confessou-se e, recebida a Sagrada Partícula, com suma cautela a tirou da boca, embrulhando-a no véu.
Saiu prestes da Igreja, e encaminhou-se para a casa da feiticeira.Mas então sem que ela o notasse, do véu começou a escorrer Sangue, que visto por várias pessoas, as levou a perguntar à infeliz que ferimentos tinha. Confusa em extremo, corre para casa, e encerra a Hóstia miraculosa numa arca.
Passou o dia, entretanto e à tarde, voltou o marido. Alta noite, acordam os dois e vêem toda a casa resplandecente, da arca saíam misteriosos raios de luz. Inteirado o homem do acto pecaminoso da mulher, de joelhos, passaram o resto da noite, em adoração.
Mal rompeu o dia, foi o pároco informado do prodígio sobrenatural. Espalhado o sucesso, meia Santarém acorreu pressurosa a contemplar o Milagre. A Sagrada Partícula foi então levada processionalmente para a Igreja de Santo Estêvão, onde ficou conservada dentro de uma espécie de custódia feita de cera.
Mas passado tempo, ao abrir-se o sacrário para expor à adoração dos fiéis, como era costume, o Santo Milagre, encontrou-se a cera feita em pedaços e com espanto, se viu estar a Sagrada Partícula encerrada numa âmbula de cristal, miraculosamente aparecida.

Esta pequena âmbula foi colocada numa custódia de prata dourada onde ainda hoje se encontra.
Santo Estêvão é o Santuário do Santíssimo Milagre

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Amigo




Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra: - Amigo.
Amigo…
é um sorriso
De boca em boca
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo…
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo
é a solidão derrotada!
Amigo
é uma grande tarefa
Um trabalho sem fim
Um espaço útil, um tempo fértil
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

[Alexandre O'Neill]

terça-feira, 6 de outubro de 2009

P R I M A V E R A



Primavera

Todo o amor que nos
prendera
como se fora de cêra
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver

Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

[David Mourão-Ferreira]

Amália deixou-nos, faz 10 anos

sábado, 3 de outubro de 2009

Quando eu morrer


Quando eu morrer

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra.

Deixa que nos meus braços pousem então as aves
(que, como eu, trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões) e planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti).

Quando eu morrer, deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo
e não chores, nem toques com os teus lábios a minha boca fria.
Promete-me que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos,
como pequenos foram sempre os meus ódios
e que depois os lanças na solidão de um arquipélago
e partes sem olhar para trás nenhuma vez.
Se alguém os vir de longe brilhando na poeira,
cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas,
pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

[Maria do Rosário Pedreira]

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Hora Íntima



Hora Íntima

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: - Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: - Rei morto, rei posto. . .
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: - Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cais
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: - Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores ?

[Vinicius de Moraes]

terça-feira, 18 de agosto de 2009

MUITOS PARABÉNS, MINHA QUERIDA MÃE!

Idalina do Nascimento Moreira da Silva
18/08/1929 - 30/01/2009


O dia 18 de Agosto, sempre foi dia de festa lá em casa, quase feriado nacional.
Não se podia dizer que fosse um dia calmo, tantos eram os amigos, as flores, a confusão...eu reclamava porque sentia que os de fora, me queriam disputar-te, também te queriam para Mãe deles...e eu não entendia, que a tua missão era aquela...
Hoje é o primeiro 18 de Agosto, que passo sem ti Mãe, sem a tua gargalhada espontânea...como tu sabias fruir o que a vida te dava, mesmo que aos nossos olhos, nos parecesse pouco.
Sim, eu achava que merecias sempre mais , mas Tu, com a tua sabedoria infindável, demonstravas-me, tal como S. Francisco de Assis, que é dando que se recebe, que é perdoando que se é perdoado, que é amando que se é amado.
Saudades de ti Mãe, tanta coisa que me ficou por te dizer...
Hoje farias 80 anos, eu continuo por aqui na esperança que um dia nos possamos reencontrar e eu possa voltar para o teu colo...afinal, foste a única Pessoa que me deu Amor e Carinho, sem nunca pedir nada em troca.
Muitos Parabéns Querida Mãe, Grande Amor da minha Vida!

Do Teu filho que te amará para além do Sempre

António

Santarém, 18 de Agosto de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Poema de me chamar António






Hoje, ao nascer do sol, de manhãzinha,
ouvi cantar um galo no quintal
quando eu tinha seis anos
e fui passar as férias do Natal
com a minha madrinha.
Na cama improvisada no corredor
sábiamente fingia que dormia
muito embrulhado num cobertor,
enquanto numa luz melada e quase fria,
o mundo, sabiamente,
fingia que nascia.
E então apeteceu-me também nascer,
nascer por mim, por minha expressa vontade,
sem pai nem mãe,
sem preparação de amor,
sem beijos nem carícias de ninguém,
só, só e só por minha livre vontade.
Dobrado em círculo no ventre do meu cobertor
enrugado como um feto à espera de liberdade
(viva a liberdade!)
cerrava e descerrava as pálbebras, sábiamente,
como se as não movesse,
como se não sentisse nem soubesse,
abrindo-as numa fenda dissimulada e estreita,
insensível às coisas quotidianas,
mas hábil para aquela alvorada púrissima e escorreita
que me inundava o sangue através das pestanas.
Fremiam-se-me as pálpebras sacudindo na luz um
pó de borbletas, um explodir de missangas furta-cores,
bacilos e vapores,rendas brancas e pretas.
Cada vez mais feto, mais redondo, mais bicho-de-conta,
mais balão, mais planeta, bola pronta
a meter-se no forno, mais eterno retorno,
mais sem fim nem princípio, sem ponta nem aresta,
excremento de escaravelho aberto numa fresta.
Foi então que o galo cantou.
Looooooonge...
Muito Looooooonge...
no quintal da vizinha,
lá para o fim do mundo mesmo ao lado da casa
da minha madrinha.
Era uma voz, redonda, débil, inexperiente,
bruxuleante como a chama
que está mesmo a apagar-se e esperta de repente
e novamente morre e de novo se inflama.
Uma voz sub-reptícia, anódina, irresponsável,
fugaz e insinuante,
um canto sem contornos, aéreo , imponderável.
tudo isto e muito mais, mas principalmente distante.
Foi assim que a voz do galo na capoeira
do quintal da vizinha
que tinha plantado ao centro, uma nespereira
mesmo junto da casa da minha madrinha,
penetrou no ventre macio do meu cobertor.
Era uma frente de onda, compacta e envolvente,
pura já na garganta e agora mais que pura,
filtrada e destilada
nos poros ávidos da minha cobertura.
Chegou e fulminou o meu ser indigente,
exposto e carecido,
naquele gesto mole e distraído
do Deus Omnipotente da Capela Sistina
quando ergue a mão terrível e fulmina
o coração de Adão.
E pronto. Eis-me nascido. Cheio de sede e fome.
António é o meu nome.

[António Gedeão]

sábado, 27 de junho de 2009

Hora


Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta….por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera o peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Devia morrer-se de outra maneira...



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

[José Gomes Ferreira]

terça-feira, 26 de maio de 2009

À minha Querida Mãe

(a última foto, em 8 de Novembro de 2008)

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

[Miguel Torga]

terça-feira, 5 de maio de 2009

Tiro ao Alvaro (Elis Regina no Youtube)


Tiro ao Alvaro
Elis Regina

Composição: Adoniran Barbosa


De tanto levar "frechada" do teu olhar
Meu peito até, parece sabe o quê?
"Táubua" de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furar

Teu olhar mata mais do que bala de carabina,
Que veneno estriquinina.
Que peixeira de baiano,
Teu olhar mata mais que atropelamento de "automóver"
Mata mais, que bala de "revórver"

terça-feira, 28 de abril de 2009

Quando se Gosta de Alguém

Monet


Quando se Gosta de Alguém


Quando se gosta d'alguém
Sente-se por dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo o que é que se sente

Quando alguém gosta d'álguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amor andamos

Quando alguém gosta d'alguém
Anda assim como ando eu
Que não ando nada bem
Com este mal que me deu

Quando se gosta d'alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior a gente se sente

Quando se gosta d'alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto
Quando se gosta d'alguém
Como eu gosto de quem gosto!


[Amália Rodrigues]

quinta-feira, 26 de março de 2009

El-Rei


EL-REI

Longe da luz
A que sonhou na infância
Em vez de predomínio e de conquista
Sonhos de amor
Entre visões de artista
Morreu de desconsolo e de distância.

Caminho aberto
À morte por essa ânsia
Que mais se exalta
Quanto mais contrista
De quem recorda o lar que nunca avista
E se consome em lúcida constância.

Porque acima do trono e da realeza
Havia o céu azul, a claridade
Da sua amada Terra Portuguesa
Havia a Pátria, e dizem, que impiedade
Dizem que não se morre de tristeza
Dizem que não se morre de saudade.



[Branca Gonta Colaço]