terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Para o António, da Elly Ramos


[Para o António, da Elly, 30 de Janeiro de 2009, o dia em que a minha Querida Mãe partiu]

Por vezes, pensou que estavas protegido


Uma mão, um rosto, uma palavra.


Mais que isso...


O Conforto de encostar ao peito


A Liberdade de poder chorar


E mesmo sem emitir palavras


A certeza da compreensão


Deixou a saudade


Do barulho dos objectos da cozinha


Do cheiro dos legumes da sopa


Da cor da estampa do vestido...


De olhos turvos


As mãos molhadas


Deixa os dedos escorregarem


Delineando os fios brancos


Sufocando


Os sentidos


O grito


A dor.


(foi-se parte de mim, muito ficou de ti.)




[Elly Ramos]

sábado, 28 de novembro de 2009

Sei um ninho


Sei um ninho

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

[Miguel Torga]

Saudade é solidão acompanhada


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

[Pablo Neruda]

A MEU FAVOR




A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

[Alexandre O'Neill]

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

nua





nua

quero-te nua
nua como um gesto subtil
como um movimento curvilíneo
inacabado

nua
como um campo de lilases
numa noite sem estrelas

nua
corpo completo:

vertigem e abismo
sodoma e gomorra
princípio sem fim

nua eu te quero
com uma nudez mais nua
que a nudez mais completa
e pura

nua
por um momento quase nada
quase bruma
quase vazio
quase faúlha
quase fogo
quase fuga
quase inferno
quase loucura

nua
mais nua que a neve branda no deserto
quando o deserto floresce no inverno para lá do espelho
e tu ficas nua como uma miragem de esboços latentes
aguarela de desassossego
nua de todos os contrastes
vazia de todas as distâncias
maré ausente
maré vazante

nua assim eu te sonho
nua assim eu te quero
nua assim
eu te espero

[Jorge Casimiro]

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Dialética




É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
[Vinicius de Moraes]

Quase um poema de amor


Quase um poema de amor

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza Lusitana tem essa humana
Graça feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado o coração
Num íntimo pudor,
há muito tempo já,
que não escrevo
um poema de amor

[Miguel Torga]

No mistério do sem-fim

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim
e, no jardim, um canteiro
no canteiro uma violeta
e sobre ela, o dia inteiro
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mãe - Rodrigo Costa Félix (Youtube)




MÃE

Quanto é doce, quanto é bom
No mundo encontrar alguém.
Que no junte contra o peito
E a quem nós chamamos mãe
Quem nos guia, nos segura,
Nos momentos de tristeza,
Quando tudo duvidamos,
Quem nos enche de certeza.

Quem nos ama, quem nos ama,
Como não se ama ninguém,
Quem nos junta contra o peito
E a quem nós chamamos Mãe.

Venham ventos, tempestades
Quando tudo está errado,
Quem nos guarda e nos protege
E está sempre ao nosso lado,
Quem por bem nos aconselha,
Nos desculpa nos perdoa,
Quem nos cuida das feridas,
Quando o mundo nos magoa

Quem nos ama, quem nos ama
Como não se ama ninguém,
Quem nos junta contra o peito
E a quem nós chamamos Mãe!

[Popular/música : José Afonso]

Saudades de Ti Mãe, cada vez mais e mais.

Parabéns Rodrigo!


sábado, 21 de novembro de 2009

Verdes Campos, Verde Vida.[MªManuel Cid]-Youtube


Verdes Campos,Verde Vida...

Verdes campos , verde vida…
Toda a campina florida
Num repente escureceu
Fez-se noite em toda a parte
E porque o sonho não parte
Fiquei só, apenas eu…

Uma certeza me deste
E nela o sabor agreste
Da sina que foi traçada;
A baga do azevinho
Já nasce trazendo espinho
E morre quando pisada

E morre porque não sabe
Que alguma parte lhe cabe
De tanta coisa perdida;
Algo mais, amargo e doce,
E sempre – se mais não fosse
Verdes campos , verde vida.

Nada tenho, resta apenas
Esta roupagem de penas
Mais pobre que um pobrezinho;
Mas quando a morte chegar
Eu sei que posso voltar
Ao verde do meu caminho

[Maria Manuel Cid/Fernando Pinto Coelho]
Voz : Maria do Rosário Bettencourt

Roseira Brava – Adriano Correia de Oliveira(Youtube)


Roseira Brava

Roseira brava, roseira
Barco sem leme nem remos
Roseira brava é a vida
Que amargamente vivemos.

Roseira brava não tem
Rosas abertas nos ramos
Roseira brava é espinho
Que em nosso peito cravamos.

Roseira brava, roseira
Rosa em botão desfolhada
Roseira brava é teu rosto
Rompendo da madrugada.

Roseira brava no vento
Vai espalhando a semente
Roseira brava é lembrar
Quem se não lembra da gente.

Roseira brava, roseira
Que o sol de Verão não aquece
Roseira brava é o amor
A quem amor não merece.

Roseira brava é o ódio
Que vai minando a raiz
Roseira brava, roseira
Roseira do meu país.

Roseira brava é o ódio
Roseira do meu país.

[António Ferreira Guedes / José Niza ]

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fado Tropical (Nunca é demais) - Youtube -


Fado Tropical

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo
( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na catinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa"

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

[Chico Buarque/ Ruy Guerra]



"Fado Tropical", no filme "Fados", de Carlos Saura, canta: Chico Buarque declama: Carlos do Carmo

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

SEVILLANA DEL ADIÓS (Amigos De Gines) - Youtube




SEVILLANA DEL ADIÓS

Algo se muere en el alma, cuando un amigo se va.
cuando un amigo se va.
Cuando un amigo se va y va dejando una huella
que no se puede borrar.


No te vayas todavía no te vayas por favor
no te vayas todavía que hasta la guitarra mía llora
cuando dice adiós.

Un pañuelo de silencio a la hora de partir
a la hora de partir un pañuelo de silencio.
A la hora de partir por qué hay palabras que hieren
y no se deben decir?

No te vayas todavía no te vayas por favor
no te vayas todavía que hasta la guitarra mía llora
cuando dice adiós.


El barco se hace pequeño cuando se aleja en el mar
cuando se aleja en el mar el barco se hace pequeño .
Cuando se aleja en el mar y cuando se va perdiendo
que grande es la soledad .


No te vayas todavía no te vayas por favor
no te vayas todavía que hasta la guitarra mía llora
cuando dice adiós.


Ese vacío que deja el amigo que se va
el amigo que se va ese vacío que deja .
El amigo que se va es como un pozo sin fondo
que no se vuelve a llenar .


No te vayas todavía no te vayas por favor
no te vayas todavía que hasta la guitarra mía llora
cuando dice adiós.

[Manuel Garrido / Manuel García]

sábado, 14 de novembro de 2009

Não Comerei da Alface a Verde Pétala


Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati

E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
[Vinicius de Moraes]

Amostra sem valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.

Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:

com ele se entretém e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,

sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,

que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,

não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida

ignoram todo o homem, dissolvem-no e contudo,

nesta insignificância, gratuita e desvalida,

o universo sou eu, com nebulosas e tudo.


[António Gedeão]

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Original é o Poeta



Brasil
onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!
Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.
Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.
Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Ente o chão encontrado e o chão perdido.

[Miguel Torga]

Se Alguém bater um dia à tua Porta


Se Alguém bater um dia à tua Porta

Se alguém bater um dia à tua porta
Dizendo que é um emissário meu
Não acredites, nem que seja eu
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco.
Esse era meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

[Fernando Pessoa]

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sede e Morte (Carlos Paredes)


Deixei de ouvir-te


Deixei de ouvir-te. E sei que sou

mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste;

mas,se encostar ao teu pulso o meu ouvido

não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei.

E não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

[Maria do Rosário Pedreira]

sábado, 7 de novembro de 2009

A bunda que engraçada



A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai pela frente do corpo.
 A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se.
 Montanhas avolumam-se, descem.
Ondas batendo numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda.
 Vai feliz na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda, rebunda.

[Carlos  Drummond  De Andrade]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O PALÁCIO DA VENTURA


 Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor
Silêncio e escuridão e nada mais! 

 [Antero de Quental]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

♫ Epitáfio ♫‏ - Tim (Youtube)


Epitáfio

Devia ter, amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter, arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer...

Queria ter aceite
As pessoas como elas são
Cada um sabe alegria
E a dor que traz no coração...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter, complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter, me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor...

Queria ter aceite
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter, complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr...

[Sérgio Britto / Titãs]

Voz : Tim

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Há uma música do povo




Há uma musica do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado –
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado...

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração...

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

(Fernando Pessoa)



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Caminante, no hay camino




Todo pasa y todo queda
pero lo nuestro es pasar
pasar haciendo caminos
caminos sobre el mar.

Nunca persequí la gloria

ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción
yo amo los mundos sutiles
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse

de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse...

Nunca perseguí la gloria.


Caminante, son tus huellas

el camino y nada más
caminante, no hay camino
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino

y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino

sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar

donde hoy los bosques
se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
"Caminante no hay camino
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
"Caminante no hay camino
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino
cuando de nada nos sirve rezar.
"Caminante no hay camino
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

[Antonio Machado]

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Fausto no Youtube (Namoro)


Namoro em Poconé




Namoro

Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
dizia ela tinha
um sorriso luminoso
tão triste e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
na fímbria do mar

Sua pele macia
era suma-uma
sua pele macias
cheirando a rosas
seus seios laranja
laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não

Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
'por ti sofre o meu coração'
num canto 'sim'
noutro canto 'não'
e ela o canto do 'não'
dobrou

Mandei-lhe um recado
pela Zefa do sete
pedindo e rogando
de joelhos no chão
pela Sra do Cabo,
pela Sta Efigénia
me desse a ventura
do seu namoro
e ela disse que não

Mandei à Vó Xica,
quimbanda de fama
a areia da marca
que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
bem forte e seguro
e dele nascesse
um amor como o meu
e o feitiço falhou

Andei barbado,
sujo e descalço
como um monangamba
procuraram por mim
não viu ai não viu ai
não viu Benjamim
e perdido me deram
no morro da Samba

Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sr. Januário,
mas ela lá estava
num canto a rir,
contando o meu caso
às moças mais lindas
do bairro operário

Tocaram a rumba
e dancei com ela
e num passo maluco
voamos na sala
qual uma estrela
riscando o céu
e a malta gritou
'Aí Benjamim'

Olhei-a nos olhos
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo
"larialá larialá...."

E ela disse que sim

[Fausto /Viriato Cruz]

Se eu Fosse um Padre


Se eu Fosse um Padre

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

[Mário Quintana]