sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Bing Crosby - White Christmas (Youtube)



White Christmas


I'm dreaming of a white Christmas
Just like the ones I used to know
Where the treetops glisten,
and children listen
To hear sleigh bells in the snow


I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright
And may all your Christmas be white


I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright
And may all your Christmas be white


[Irving Berlin]





segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

La Solitude – Léo Ferré (Youtube)


La Solitude


Je suis d'un autre pays que le votre, d'un autre quartier, d'une autre solitude.

Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse.

Je ne suis plus de chez vous, j'attends des mutants.

Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure.

Il est de toute première instance que nous faconnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.

Je suis pret à vous procurer les moules.

Mais, la solitude.

Les moules sont d'une texture nouvelle, je vous avertis.

Ils ont été coulés demain matin.

Si vous n'avez pas dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée,

il est inutile de regarder devant vous car devant c'est derrière, la nuit c'est le jour.

Et la solitude.

Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues,soient aussi imperturbables que les feux d'arret ou de voie libre.

Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez etre votre conscience et qui n'est qu'une dépendance de l'ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau.

Et pourtant la solitude.

Le désespoir est une forme supérieure de la critique.

Pour le moment, nous l'appellerons "bonheur",les mots que vous employez n'étant plus "les mots" mais une sorte de conduit à travers lequels, les analphabètes se font bonne conscience.

Mais la solitude.

Le Code civil nous en parlerons plus tard.

Pour le moment, je voudrais codifier l'incodifiable.

Je voudrais mesurer vos danaides démocraties.

Je voudrais m'insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit,le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité.

La lucidité se tient dans mon froc...

[Léo Ferré]

sábado, 12 de dezembro de 2009

Ana Moura - Os Búzios (Youtube)


Os Búzios


Havia a solidão da prece no olhar triste,

Como se os seus olhos fossem as portas do pranto,

Sinal da cruz que persiste, os dedos contra o quebranto

E os búzios que a velha lançava sobre um velho manto.


À espreita está um grande amor mas guarda segredo,

Vazio tens o teu coração na porta do medo,

Vê como os búzios caíram virados p'ra norte.

Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte!


Havia um desespero intenso na sua voz,

O quarto cheirava a incenso, mais uns quantos pós,

A velha agitava o lenço, dobrou-o, deu-lhe 2 nós

E o seu padre santo falou usando-lhe a voz


À espreita está um grande amor mas guarda segredo,

Vazio tens o teu coração na porta do medo,

Vê como os búzios caíram virados p'ra norte,

Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte!


[Jorge Fernando]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

José Mário Branco - Inquietação (Youtube)



Inquietação


A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda.

[Composição: José Mário Branco ]

Pedro Barroso - Menina dos Olhos de Água (Youtube)


Menina dos olhos de Água
____________________
Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar,
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar,

menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar,

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar,
que eu só por mim quero-te tanto,
que não vai haver menina p'ra sobrar.

Aprendi nos "Esteiros" com Soeiro
e aprendi na "Fanga" com Redol,
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo,

aprendi a amar a madrugada,
que desponta em mim quando sorris,
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi,

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto,
que não vai haver menina p'ra sobrar.
___________________________

[música e letra de Pedro Barroso]






domingo, 6 de dezembro de 2009

O Velho e a Flor


O VELHO E A FLOR

Por céus e mares eu andei,
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber
O que é o amor.
Ninguém sabia me dizer,
Eu já queria até morrer
Quando um velhinho
Com uma flor assim falou:
O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
É a vida quando
Chega sangrando aberta
em pétalas de amor.

[Vinícius de Moraes]

sábado, 5 de dezembro de 2009

Talvez...


Talvez um dia ainda haja tempo
De a esperança ser presente

Do futuro não ser um passado

Do muito que se perdeu.

Talvez um momento não seja breve

E o eterno não seja finito

Um dia talvez... Haja uma chance

De crescer pra ser criança

De despertar no grisalho amor

Talvez haja tempo de voar

Em terra firme e de firmar-se

Em etéreas nuvens


Talvez haja tempo...

De felicidades absolutas e

de infelicidades relativas.

Um tempo em que o sol não se ponha

Tempo de uma mão não dizer adeus

De um olhar não ser estéril

Um tempo em que o cinza seja mais azul

De vislumbrar o infinito horizonte

Que decerto despertará

Num novo tempo de acordar.


[Sandra Fichera]



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Para o António, da Elly Ramos


[Para o António, da Elly, 30 de Janeiro de 2009, o dia em que a minha Querida Mãe partiu]

Por vezes, pensou que estavas protegido


Uma mão, um rosto, uma palavra.


Mais que isso...


O Conforto de encostar ao peito


A Liberdade de poder chorar


E mesmo sem emitir palavras


A certeza da compreensão


Deixou a saudade


Do barulho dos objectos da cozinha


Do cheiro dos legumes da sopa


Da cor da estampa do vestido...


De olhos turvos


As mãos molhadas


Deixa os dedos escorregarem


Delineando os fios brancos


Sufocando


Os sentidos


O grito


A dor.


(foi-se parte de mim, muito ficou de ti.)




[Elly Ramos]

sábado, 28 de novembro de 2009

Sei um ninho


Sei um ninho

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

[Miguel Torga]

Saudade é solidão acompanhada


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

[Pablo Neruda]

A MEU FAVOR




A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

[Alexandre O'Neill]

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

nua





nua

quero-te nua
nua como um gesto subtil
como um movimento curvilíneo
inacabado

nua
como um campo de lilases
numa noite sem estrelas

nua
corpo completo:

vertigem e abismo
sodoma e gomorra
princípio sem fim

nua eu te quero
com uma nudez mais nua
que a nudez mais completa
e pura

nua
por um momento quase nada
quase bruma
quase vazio
quase faúlha
quase fogo
quase fuga
quase inferno
quase loucura

nua
mais nua que a neve branda no deserto
quando o deserto floresce no inverno para lá do espelho
e tu ficas nua como uma miragem de esboços latentes
aguarela de desassossego
nua de todos os contrastes
vazia de todas as distâncias
maré ausente
maré vazante

nua assim eu te sonho
nua assim eu te quero
nua assim
eu te espero

[Jorge Casimiro]

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Dialética




É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
[Vinicius de Moraes]

Quase um poema de amor


Quase um poema de amor

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza Lusitana tem essa humana
Graça feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado o coração
Num íntimo pudor,
há muito tempo já,
que não escrevo
um poema de amor

[Miguel Torga]

No mistério do sem-fim

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim
e, no jardim, um canteiro
no canteiro uma violeta
e sobre ela, o dia inteiro
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mãe - Rodrigo Costa Félix (Youtube)




MÃE

Quanto é doce, quanto é bom
No mundo encontrar alguém.
Que no junte contra o peito
E a quem nós chamamos mãe
Quem nos guia, nos segura,
Nos momentos de tristeza,
Quando tudo duvidamos,
Quem nos enche de certeza.

Quem nos ama, quem nos ama,
Como não se ama ninguém,
Quem nos junta contra o peito
E a quem nós chamamos Mãe.

Venham ventos, tempestades
Quando tudo está errado,
Quem nos guarda e nos protege
E está sempre ao nosso lado,
Quem por bem nos aconselha,
Nos desculpa nos perdoa,
Quem nos cuida das feridas,
Quando o mundo nos magoa

Quem nos ama, quem nos ama
Como não se ama ninguém,
Quem nos junta contra o peito
E a quem nós chamamos Mãe!

[Popular/música : José Afonso]

Saudades de Ti Mãe, cada vez mais e mais.

Parabéns Rodrigo!


sábado, 21 de novembro de 2009

Verdes Campos, Verde Vida.[MªManuel Cid]-Youtube


Verdes Campos,Verde Vida...

Verdes campos , verde vida…
Toda a campina florida
Num repente escureceu
Fez-se noite em toda a parte
E porque o sonho não parte
Fiquei só, apenas eu…

Uma certeza me deste
E nela o sabor agreste
Da sina que foi traçada;
A baga do azevinho
Já nasce trazendo espinho
E morre quando pisada

E morre porque não sabe
Que alguma parte lhe cabe
De tanta coisa perdida;
Algo mais, amargo e doce,
E sempre – se mais não fosse
Verdes campos , verde vida.

Nada tenho, resta apenas
Esta roupagem de penas
Mais pobre que um pobrezinho;
Mas quando a morte chegar
Eu sei que posso voltar
Ao verde do meu caminho

[Maria Manuel Cid/Fernando Pinto Coelho]
Voz : Maria do Rosário Bettencourt

Roseira Brava – Adriano Correia de Oliveira(Youtube)


Roseira Brava

Roseira brava, roseira
Barco sem leme nem remos
Roseira brava é a vida
Que amargamente vivemos.

Roseira brava não tem
Rosas abertas nos ramos
Roseira brava é espinho
Que em nosso peito cravamos.

Roseira brava, roseira
Rosa em botão desfolhada
Roseira brava é teu rosto
Rompendo da madrugada.

Roseira brava no vento
Vai espalhando a semente
Roseira brava é lembrar
Quem se não lembra da gente.

Roseira brava, roseira
Que o sol de Verão não aquece
Roseira brava é o amor
A quem amor não merece.

Roseira brava é o ódio
Que vai minando a raiz
Roseira brava, roseira
Roseira do meu país.

Roseira brava é o ódio
Roseira do meu país.

[António Ferreira Guedes / José Niza ]

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fado Tropical (Nunca é demais) - Youtube -


Fado Tropical

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo
( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na catinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa"

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

[Chico Buarque/ Ruy Guerra]



"Fado Tropical", no filme "Fados", de Carlos Saura, canta: Chico Buarque declama: Carlos do Carmo

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

SEVILLANA DEL ADIÓS (Amigos De Gines) - Youtube




SEVILLANA DEL ADIÓS

Algo se muere en el alma, cuando un amigo se va.
cuando un amigo se va.
Cuando un amigo se va y va dejando una huella
que no se puede borrar.


No te vayas todavía no te vayas por favor
no te vayas todavía que hasta la guitarra mía llora
cuando dice adiós.

Un pañuelo de silencio a la hora de partir
a la hora de partir un pañuelo de silencio.
A la hora de partir por qué hay palabras que hieren
y no se deben decir?

No te vayas todavía no te vayas por favor
no te vayas todavía que hasta la guitarra mía llora
cuando dice adiós.


El barco se hace pequeño cuando se aleja en el mar
cuando se aleja en el mar el barco se hace pequeño .
Cuando se aleja en el mar y cuando se va perdiendo
que grande es la soledad .


No te vayas todavía no te vayas por favor
no te vayas todavía que hasta la guitarra mía llora
cuando dice adiós.


Ese vacío que deja el amigo que se va
el amigo que se va ese vacío que deja .
El amigo que se va es como un pozo sin fondo
que no se vuelve a llenar .


No te vayas todavía no te vayas por favor
no te vayas todavía que hasta la guitarra mía llora
cuando dice adiós.

[Manuel Garrido / Manuel García]

sábado, 14 de novembro de 2009

Não Comerei da Alface a Verde Pétala


Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati

E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
[Vinicius de Moraes]

Amostra sem valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.

Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:

com ele se entretém e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,

sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,

que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,

não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida

ignoram todo o homem, dissolvem-no e contudo,

nesta insignificância, gratuita e desvalida,

o universo sou eu, com nebulosas e tudo.


[António Gedeão]

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Original é o Poeta



Brasil
onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!
Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.
Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.
Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Ente o chão encontrado e o chão perdido.

[Miguel Torga]

Se Alguém bater um dia à tua Porta


Se Alguém bater um dia à tua Porta

Se alguém bater um dia à tua porta
Dizendo que é um emissário meu
Não acredites, nem que seja eu
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco.
Esse era meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

[Fernando Pessoa]

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sede e Morte (Carlos Paredes)


Deixei de ouvir-te


Deixei de ouvir-te. E sei que sou

mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste;

mas,se encostar ao teu pulso o meu ouvido

não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei.

E não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

[Maria do Rosário Pedreira]