quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Posso escrever os versos mais tristes


Posso escrever os versos mais tristes

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

[Pablo Neruda]

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sou um Evadido - Fernando Pessoa ( Youtube)




Sou um evadido


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.


Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?


Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá, que ela
Nunca me encontre.


Ser um, é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.


[Fernando Pessoa]

domingo, 27 de dezembro de 2009

Poema para Galileo




Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florenca.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência as coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar... que disparate, Galileo!
....e jurava a pés juntos e apostava a cabeca
sem a menor hesitação,
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente,
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilizacão.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas, parece que estou a vê-las,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.
 
 [António Gedeão]

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Poema de Natal (Vinicius de Moraes - Youtube)




Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos.
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos.
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai 
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte 
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem, da morte apenas
Nascemos imensamente.

[Vinicius de Moraes]

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Fado da Tristeza (Youtube)




Fado da Tristeza

Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Porque é tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu

[Manuela de Freitas/José Mário Branco]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Cai Chuva Do Céu Cinzento (Youtube)


Teresa Tarouca




Chuva

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
Dentro do meu coração.

(Fernando Pessoa)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Eu te Proponho

 (Sandra Fichera)

EU TE PROPONHO...

Um Natal diferente, onde você se preocupe menos em DAR presentes e mais em ESTAR presente na vida das pessoas.
Que em vez de apenas cumprimenta-las, se importe realmente com elas.
Que ao invés de desejar paz, faça as pazes consigo mesmo e com algum inimigo.
Eu te  proponho...
Que você se importe menos com o seu estomago e mais com seu coração, que subtraia velhos alimentos e os substitua por alimentos ricos... Materiais e espirituais
Que se preocupe menos com a sua arvore e mais com as florestas.
Que faça presépios em sua vida...
Eu te proponho...
Que sonhe, mas, que acima de tudo concretize.
Que divida para que some.
Que multiplique para que divida.
Eu te proponho...

[Autor: Sandra Fichera]

Sei que seria possível construir o mundo justo.








 [Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas]

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Bing Crosby - White Christmas (Youtube)



White Christmas


I'm dreaming of a white Christmas
Just like the ones I used to know
Where the treetops glisten,
and children listen
To hear sleigh bells in the snow


I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright
And may all your Christmas be white


I'm dreaming of a white Christmas
With every Christmas card I write
May your days be merry and bright
And may all your Christmas be white


[Irving Berlin]





segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

La Solitude – Léo Ferré (Youtube)


La Solitude


Je suis d'un autre pays que le votre, d'un autre quartier, d'une autre solitude.

Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse.

Je ne suis plus de chez vous, j'attends des mutants.

Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure.

Il est de toute première instance que nous faconnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.

Je suis pret à vous procurer les moules.

Mais, la solitude.

Les moules sont d'une texture nouvelle, je vous avertis.

Ils ont été coulés demain matin.

Si vous n'avez pas dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée,

il est inutile de regarder devant vous car devant c'est derrière, la nuit c'est le jour.

Et la solitude.

Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues,soient aussi imperturbables que les feux d'arret ou de voie libre.

Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez etre votre conscience et qui n'est qu'une dépendance de l'ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau.

Et pourtant la solitude.

Le désespoir est une forme supérieure de la critique.

Pour le moment, nous l'appellerons "bonheur",les mots que vous employez n'étant plus "les mots" mais une sorte de conduit à travers lequels, les analphabètes se font bonne conscience.

Mais la solitude.

Le Code civil nous en parlerons plus tard.

Pour le moment, je voudrais codifier l'incodifiable.

Je voudrais mesurer vos danaides démocraties.

Je voudrais m'insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit,le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité.

La lucidité se tient dans mon froc...

[Léo Ferré]

sábado, 12 de dezembro de 2009

Ana Moura - Os Búzios (Youtube)


Os Búzios


Havia a solidão da prece no olhar triste,

Como se os seus olhos fossem as portas do pranto,

Sinal da cruz que persiste, os dedos contra o quebranto

E os búzios que a velha lançava sobre um velho manto.


À espreita está um grande amor mas guarda segredo,

Vazio tens o teu coração na porta do medo,

Vê como os búzios caíram virados p'ra norte.

Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte!


Havia um desespero intenso na sua voz,

O quarto cheirava a incenso, mais uns quantos pós,

A velha agitava o lenço, dobrou-o, deu-lhe 2 nós

E o seu padre santo falou usando-lhe a voz


À espreita está um grande amor mas guarda segredo,

Vazio tens o teu coração na porta do medo,

Vê como os búzios caíram virados p'ra norte,

Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte!


[Jorge Fernando]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

José Mário Branco - Inquietação (Youtube)



Inquietação


A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda.

[Composição: José Mário Branco ]

Pedro Barroso - Menina dos Olhos de Água (Youtube)


Menina dos olhos de Água
____________________
Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar,
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar,

menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar,

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar,
que eu só por mim quero-te tanto,
que não vai haver menina p'ra sobrar.

Aprendi nos "Esteiros" com Soeiro
e aprendi na "Fanga" com Redol,
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo,

aprendi a amar a madrugada,
que desponta em mim quando sorris,
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi,

se houver alguém que não goste
não gaste - deixe ficar...
que eu só por mim quero-te tanto,
que não vai haver menina p'ra sobrar.
___________________________

[música e letra de Pedro Barroso]






domingo, 6 de dezembro de 2009

O Velho e a Flor


O VELHO E A FLOR

Por céus e mares eu andei,
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber
O que é o amor.
Ninguém sabia me dizer,
Eu já queria até morrer
Quando um velhinho
Com uma flor assim falou:
O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
É a vida quando
Chega sangrando aberta
em pétalas de amor.

[Vinícius de Moraes]

sábado, 5 de dezembro de 2009

Talvez...


Talvez um dia ainda haja tempo
De a esperança ser presente

Do futuro não ser um passado

Do muito que se perdeu.

Talvez um momento não seja breve

E o eterno não seja finito

Um dia talvez... Haja uma chance

De crescer pra ser criança

De despertar no grisalho amor

Talvez haja tempo de voar

Em terra firme e de firmar-se

Em etéreas nuvens


Talvez haja tempo...

De felicidades absolutas e

de infelicidades relativas.

Um tempo em que o sol não se ponha

Tempo de uma mão não dizer adeus

De um olhar não ser estéril

Um tempo em que o cinza seja mais azul

De vislumbrar o infinito horizonte

Que decerto despertará

Num novo tempo de acordar.


[Sandra Fichera]



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Para o António, da Elly Ramos


[Para o António, da Elly, 30 de Janeiro de 2009, o dia em que a minha Querida Mãe partiu]

Por vezes, pensou que estavas protegido


Uma mão, um rosto, uma palavra.


Mais que isso...


O Conforto de encostar ao peito


A Liberdade de poder chorar


E mesmo sem emitir palavras


A certeza da compreensão


Deixou a saudade


Do barulho dos objectos da cozinha


Do cheiro dos legumes da sopa


Da cor da estampa do vestido...


De olhos turvos


As mãos molhadas


Deixa os dedos escorregarem


Delineando os fios brancos


Sufocando


Os sentidos


O grito


A dor.


(foi-se parte de mim, muito ficou de ti.)




[Elly Ramos]

sábado, 28 de novembro de 2009

Sei um ninho


Sei um ninho

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

[Miguel Torga]