sábado, 9 de janeiro de 2010

Há palavras que nos beijam


Foto: Raul Alexandre


Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama,
letra a letra revelado
no mármore distraído,
no papel abandonado)
Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


[Alexandre O'Neill]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Alguns pensamentos que Charlie Chaplin, nos deixou:


- “Não preciso de me drogar para ser um génio; não preciso ser um génio para ser humano, mas preciso do teu sorriso para ser feliz.”
- "A persistência é o caminho do êxito."
- “A vida é maravilhosa, quando não se tem medo dela.”
- “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la mas quem consegue, descobre tudo.”
- “O homem é um animal com instintos primários de sobrevivência. Por isso, o seu engenho desenvolveu-se primeiro e a alma depois e o progresso da ciência está bem mais adiantado que seu comportamento ético.”
- “Estudei o homem, porque se assim não o fizesse, não conseguiria realizar nada em meu ofício.”
- “Tenho a impressão de que os homens estão a perder o dom de rir.”
- “A beleza existe em tudo - tanto no bem como no mal. Mas somente os artistas e os poetas sabem encontrá-la.”
- “Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria.”
- “Criámos a época da velocidade, mas sentimo-nos enclausurados dentro dela. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos, a nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.”
- “Estou sempre alegre e essa é a melhor maneira de resolver os problemas da vida.”
- “Se o que está a fazer tem graça, então não há necessidade de ser engraçado para o fazer.”
- “Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa pela nossa vida passa sozinha, não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.”
- “Sem a minha mãe, acho que jamais me teria saído bem na mímica. Ela possuía a mímica mais notável que já vi. Por vezes, ficava durante horas à janela a olhar para a rua e reproduzindo com as mãos, os olhos e a expressão de sua fisionomia tudo o que se passava lá em baixo. E foi observando-a assim que eu aprendi não somente a traduzir as emoções com as minhas mãos e meu rosto, mas sobretudo a estudar o homem.”
- "Através do humor nós vemos no que parece racional, o irracional; no que parece importante, o insignificante. Ele também desperta o nosso sentido de sobrevivência e preserva a nossa saúde mental."
- "Mais que de máquinas, precisamos de humanidade."
- “O homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar.”
- “Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”
- “Se não consegues entender que o céu deve estar dentro de ti, é inútil buscá-lo acima das nuvens e ao lado das estrelas. Por mais que tenhas errado e erres, para ti haverá sempre esperança, enquanto te envergonhares de teus erros.”
- “O nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele encontram-se todos os segredos, inclusive o da felicidade.”
- “Quem está distante causa-nos sempre maior impressão.”
- “Eu continuo a ser uma coisa só: um palhaço, o que me coloca num nível mais elevado do que o de qualquer político.”
- “Não faças do amanhã o sinónimo de nunca, nem o ontem te seja o mesmo que nunca mais. Teus passos ficaram. Não olhes para trás … mas vai em frente pois há muitos que precisam que chegues, para te poderem seguir.”
- "A humanidade não se divide em heróis e tiranos. As suas paixões, boas ou más, foram-lhes dadas pela sociedade, não pela natureza."
- "Não se julga um homem, pelos trapos que o vestem, mas sim pelo seu carácter."
- "Há uma coisa tão inevitável quanto a morte: a vida."
- "A coisa mais triste que possa imaginar é habituar-me ao luxo."
- "Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação."
- "O tempo é o melhor autor. Sempre encontra um final perfeito."
- "Uma pessoa pode ter uma infância triste e mesmo assim chegar a ser muito feliz na maturidade. Da mesma forma, pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida."
- "O som aniquila a grande beleza do silêncio."
- "Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegura o ensejo de trabalho, que dê futuro a juventude e segurança à velhice."

[Charlie Chaplin]

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Chamo-te, porque tudo está ainda no princípio


Chamo-te, porque tudo está ainda no princípio

Chamo-te, porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu quero ver.
Peço-te que sejas o presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz precipitada.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Foi Por Ela


Foi por Ela..

Foi por ela que amanhã me vou embora
ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa
diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança
em Lisboa fica o Tejo a ver navios
dos rossios de guitarras à janela
foi por ela que eu já danço a valsa em pontas
que eu passei das minhas contas foi por ela

Foi por ela que eu me enfeito de agasalhos
em vez daquela manga curta colorida
se vais sair minha nação dos cabeçalhos
ainda a tiritar de frio acometida
mas o calor que era dantes também farta
e esvai-se o tropical sentido na lapela
foi por ela que eu vesti fato e gravata
que o sol até nem me faz falta foi por ela

Foi por ela que eu passo coisas graves
e passei passando as passas dos Algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano
e venho assim como um tritão subindo os rios
que dão forma como um Deus ao rosto dela
foi por ela que eu deixei de ser quem era
sem saber o que me espera foi por ela

[Fausto Bordalo Dias]

As Balas



As Balas

Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas dão o sangue derramado
Dá a chuva o Inverno criador
Ás sementes dá sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas dão o sangue derramado
Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá amor renascido
As balas dão o sangue derramado
Dá o Sol as searas pelo Verão
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno dá o pão
As balas dão o sangue derramado
Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado
Do meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas dão o sangue derramado
Dá a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que o sangue derramado
Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.

[Manuel da Fonseca, in "Poemas para Adriano"]

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Diz-me o teu Nome


Diz-me o teu Nome

Diz-me o teu nome , agora, que perdi quase tudo,
um nome pode ser o princípio de alguma coisa.
Escreve-o na minha mão com os teus dedos,
como as poeiras se escrevem, irrequietas nos caminhos
e os lobos mancham o lençol da neve com os sinais da sua fome.
Sopra-mo no ouvido, como a levares as palavras
de um livro para dentro de outro, assim conquista o vento,
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão na casa fria.
E antes de partires, pousa-o nos meus lábios devagar:
É um poema açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.
Ninguém esquece um corpo que teve nos braços um segundo…
Um nome sim!

[Maria do Rosário Pedreira]

Posso escrever os versos mais tristes


Posso escrever os versos mais tristes

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

[Pablo Neruda]

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sou um Evadido - Fernando Pessoa ( Youtube)




Sou um evadido


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.


Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?


Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá, que ela
Nunca me encontre.


Ser um, é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.


[Fernando Pessoa]

domingo, 27 de dezembro de 2009

Poema para Galileo




Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florenca.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência as coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar... que disparate, Galileo!
....e jurava a pés juntos e apostava a cabeca
sem a menor hesitação,
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente,
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilizacão.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas, parece que estou a vê-las,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.
 
 [António Gedeão]

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Poema de Natal (Vinicius de Moraes - Youtube)




Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos.
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos.
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai 
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte 
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem, da morte apenas
Nascemos imensamente.

[Vinicius de Moraes]

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Fado da Tristeza (Youtube)




Fado da Tristeza

Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Porque é tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu

[Manuela de Freitas/José Mário Branco]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Cai Chuva Do Céu Cinzento (Youtube)


Teresa Tarouca




Chuva

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
Dentro do meu coração.

(Fernando Pessoa)