quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Eu Sei e Você Sabe


Eu sei e você sabe

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim,
Que nada nesse mundo levará você de mim.
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste.
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

[Vinicius de Moraes]

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Desejos vãos



Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte! 
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

[Florbela Espanca]



Eu que Sou Feio




Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

[Cesário Verde]

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Dorme, meu amor




Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo e o vento amaciou e a minha mão desvia os passos do medo.
 Dorme, meu amor, a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres.
 Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me , eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega , a porta está trancada e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho.
 Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos, a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

[Maria do Rosário Pedreira]

sábado, 30 de janeiro de 2010

Um Ano sem a minha Querida Mãe.


Um Ano sem a minha Querida Mãe.

Outro dia, fui lá a casa e aquela capa castanha com a gola que tu gostavas, lembras-te?
Ainda tinha o teu cheirinho bom, matei tantas saudades, parecia que estavas ali ao pé e que me irias chamar para o Jantar, a seguir..
Há muito tempo que pensei, que as minhas lágrimas tinham secado, mas voltaram, bem as tento parar , mas elas não obedecem.
Ninguém está preparado para a perda de um ente querido, apesar de há uns anos para cá eu viver aterrorizado com a tua partida, todos os dias de manhã só descansava, quando ouvia a tua voz….era mais um dia que eu te tinha.
 Também sabia que a tua vida, era um milagre de Deus e que um dia isso iria acontecer.
 Quando te via encarar o sofrimento(e que sofrimento) com aquela coragem Enorme e ainda por cima com uma vitalidade, que nem parecia que estavas tão mal há tanto tempo, pensava que eras Eterna, que bom que era que assim fosse.
 Deus chamou-te faz hoje um ano e tenho a certeza que falas com Ele e estás bem, finalmente. Também sei que deixaste de sofrer, Deus decidiu que já tinhas cumprido a tua missão na Terra e chamou-te, porque Ele também sofreu e sabia que Tu estavas num sofrimento atroz a todos os níveis, com a tua saúde tão precária, com a nossa vida atribulada, que nunca mais acerta, mas mesmo assim a tua fé nunca te perdeu, aguentaste até à última gota Querida Mãe Coragem.
 O telefone lá em casa deixou de tocar,(antes tocava todo o santo dia) daquelas pessoas a quem tu tanto deste, só ficaram os Amigos, não chegam aos dedos de uma mão, mas ao menos esses sabemos que são mesmo amigos de verdade.
 Mas é a lei da vida, o ser-humano é mesmo assim, não podemos levar a mal por isso.
 Quem nunca teve uma Mãe, como eu tive, nunca vai entender que mais de metade de mim, se foi contigo naquele dia .
 Mas a verdade, é que eles não sabem que eu lhes levo uma vantagem muito Grande, porque tive a Mãe mais Fantástica do mundo, que me deixou um legado enorme e valiosíssimo, foi essa a herança que me deixaste, o meu maior tesouro!
 Mas a vida sem a tua presença física, mudou completamente para muito pior, vou tentando renascer devagarinho, mas não é nada fácil Querida Mãe.
 Mas tal como tu dizias, “dos fracos não reza a história, quem tiver a fé do tamanho de um grão de mostarda, remove montanhas e depois da tempestade vem a Bonança”, máximas bem conhecidas, mas nunca ditas com a fé e convicção com que tu as dizias.
Grande Mãe, Grande Mulher de Fé, Grande Ser-Humano: A minha Querida Mãe, o Grande Amor da minha Vida!!!
Um dia voltaremos a encontrar-nos, oxalá  Deus me dê essa bênção.

Um beijo Enorme deste filho, que te amará para além do Sempre!
António

Santarém, 30 de Janeiro de 2010



quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Amigo é

A minha Querida Amiga, a Poeta Sandra Fichera



Amigo é

Amigo é coisa gostosa de se ter
Cheiro de mato na manhã
Gota de orvalho no despertar
Amigo é pra se confiar!

Entregar seu coração em segredo
Sua alma em oração
Amigo é coisa gostosa de se ter
Flor de maracujá, rosa em botão.

Abraço em palavras veladas
Canção de ninar em mãos de mãe
Amigo é tudo e é só
Um universo em único ser

Estrelas que se podem pegar
Sóis que se podem guardar
Amigo é pura paixão

Gestos recíprocos, infinito momento.
Bocas cúmplices, cheiro de mar.
Ondas em rebento....


(poema de Sandra Fichera)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Desencanto


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

[Manuel Bandeira]

A CASA



A Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci
és a noite, que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

[David Mourão-Ferreira]

sábado, 16 de janeiro de 2010

Adriano Correia de Oliveira – Cantar da Emigração (Youtube)



Cantar da Emigração




Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão.
Galiza
ficas sem homens
que possam cortar teu pão.
Tens em troca
órfãos e órfãs,
tens campos
de solidão,
tens mães que não têm filhos
filhos que não
têm pais.
Coração
que tens e sofre
longas
ausências mortais,
viúvas de vivos mortos
que ninguém
consolará.



[Rosalia de Castro / José Niza]

sábado, 9 de janeiro de 2010

Há palavras que nos beijam


Foto: Raul Alexandre


Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama,
letra a letra revelado
no mármore distraído,
no papel abandonado)
Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


[Alexandre O'Neill]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Alguns pensamentos que Charlie Chaplin, nos deixou:


- “Não preciso de me drogar para ser um génio; não preciso ser um génio para ser humano, mas preciso do teu sorriso para ser feliz.”
- "A persistência é o caminho do êxito."
- “A vida é maravilhosa, quando não se tem medo dela.”
- “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la mas quem consegue, descobre tudo.”
- “O homem é um animal com instintos primários de sobrevivência. Por isso, o seu engenho desenvolveu-se primeiro e a alma depois e o progresso da ciência está bem mais adiantado que seu comportamento ético.”
- “Estudei o homem, porque se assim não o fizesse, não conseguiria realizar nada em meu ofício.”
- “Tenho a impressão de que os homens estão a perder o dom de rir.”
- “A beleza existe em tudo - tanto no bem como no mal. Mas somente os artistas e os poetas sabem encontrá-la.”
- “Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria.”
- “Criámos a época da velocidade, mas sentimo-nos enclausurados dentro dela. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos, a nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.”
- “Estou sempre alegre e essa é a melhor maneira de resolver os problemas da vida.”
- “Se o que está a fazer tem graça, então não há necessidade de ser engraçado para o fazer.”
- “Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa pela nossa vida passa sozinha, não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.”
- “Sem a minha mãe, acho que jamais me teria saído bem na mímica. Ela possuía a mímica mais notável que já vi. Por vezes, ficava durante horas à janela a olhar para a rua e reproduzindo com as mãos, os olhos e a expressão de sua fisionomia tudo o que se passava lá em baixo. E foi observando-a assim que eu aprendi não somente a traduzir as emoções com as minhas mãos e meu rosto, mas sobretudo a estudar o homem.”
- "Através do humor nós vemos no que parece racional, o irracional; no que parece importante, o insignificante. Ele também desperta o nosso sentido de sobrevivência e preserva a nossa saúde mental."
- "Mais que de máquinas, precisamos de humanidade."
- “O homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar.”
- “Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”
- “Se não consegues entender que o céu deve estar dentro de ti, é inútil buscá-lo acima das nuvens e ao lado das estrelas. Por mais que tenhas errado e erres, para ti haverá sempre esperança, enquanto te envergonhares de teus erros.”
- “O nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele encontram-se todos os segredos, inclusive o da felicidade.”
- “Quem está distante causa-nos sempre maior impressão.”
- “Eu continuo a ser uma coisa só: um palhaço, o que me coloca num nível mais elevado do que o de qualquer político.”
- “Não faças do amanhã o sinónimo de nunca, nem o ontem te seja o mesmo que nunca mais. Teus passos ficaram. Não olhes para trás … mas vai em frente pois há muitos que precisam que chegues, para te poderem seguir.”
- "A humanidade não se divide em heróis e tiranos. As suas paixões, boas ou más, foram-lhes dadas pela sociedade, não pela natureza."
- "Não se julga um homem, pelos trapos que o vestem, mas sim pelo seu carácter."
- "Há uma coisa tão inevitável quanto a morte: a vida."
- "A coisa mais triste que possa imaginar é habituar-me ao luxo."
- "Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação."
- "O tempo é o melhor autor. Sempre encontra um final perfeito."
- "Uma pessoa pode ter uma infância triste e mesmo assim chegar a ser muito feliz na maturidade. Da mesma forma, pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida."
- "O som aniquila a grande beleza do silêncio."
- "Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegura o ensejo de trabalho, que dê futuro a juventude e segurança à velhice."

[Charlie Chaplin]

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Chamo-te, porque tudo está ainda no princípio


Chamo-te, porque tudo está ainda no princípio

Chamo-te, porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu quero ver.
Peço-te que sejas o presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz precipitada.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Foi Por Ela


Foi por Ela..

Foi por ela que amanhã me vou embora
ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa
diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança
em Lisboa fica o Tejo a ver navios
dos rossios de guitarras à janela
foi por ela que eu já danço a valsa em pontas
que eu passei das minhas contas foi por ela

Foi por ela que eu me enfeito de agasalhos
em vez daquela manga curta colorida
se vais sair minha nação dos cabeçalhos
ainda a tiritar de frio acometida
mas o calor que era dantes também farta
e esvai-se o tropical sentido na lapela
foi por ela que eu vesti fato e gravata
que o sol até nem me faz falta foi por ela

Foi por ela que eu passo coisas graves
e passei passando as passas dos Algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano
e venho assim como um tritão subindo os rios
que dão forma como um Deus ao rosto dela
foi por ela que eu deixei de ser quem era
sem saber o que me espera foi por ela

[Fausto Bordalo Dias]

As Balas



As Balas

Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas dão o sangue derramado
Dá a chuva o Inverno criador
Ás sementes dá sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas dão o sangue derramado
Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá amor renascido
As balas dão o sangue derramado
Dá o Sol as searas pelo Verão
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno dá o pão
As balas dão o sangue derramado
Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado
Do meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas dão o sangue derramado
Dá a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que o sangue derramado
Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.

[Manuel da Fonseca, in "Poemas para Adriano"]

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Diz-me o teu Nome


Diz-me o teu Nome

Diz-me o teu nome , agora, que perdi quase tudo,
um nome pode ser o princípio de alguma coisa.
Escreve-o na minha mão com os teus dedos,
como as poeiras se escrevem, irrequietas nos caminhos
e os lobos mancham o lençol da neve com os sinais da sua fome.
Sopra-mo no ouvido, como a levares as palavras
de um livro para dentro de outro, assim conquista o vento,
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão na casa fria.
E antes de partires, pousa-o nos meus lábios devagar:
É um poema açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.
Ninguém esquece um corpo que teve nos braços um segundo…
Um nome sim!

[Maria do Rosário Pedreira]

Posso escrever os versos mais tristes


Posso escrever os versos mais tristes

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

[Pablo Neruda]

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sou um Evadido - Fernando Pessoa ( Youtube)




Sou um evadido


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.


Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?


Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá, que ela
Nunca me encontre.


Ser um, é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.


[Fernando Pessoa]