terça-feira, 6 de abril de 2010

Noite de saudade



A Noite vem poisando devagar
sobre a Terra, que inunda de amargura...
e nem sequer a benção do luar
a quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
a sua dor que é cheia de tortura...
e eu oiço a noite imensa soluçar!
e eu oiço soluçar a noite escura!

Porque és assim tão escura, assim tão triste?
é que talvez oh Noite, em ti existe
uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
talvez de ti, oh Noite!... Ou de ninguém!...
que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

[Florbela Espanca]

domingo, 4 de abril de 2010

Esta manhã encontrei o teu nome



Esta manhã encontrei o teu nome

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele.
E o corpo doeu-me onde antes os teus dedos, foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida, como um peixe respira
na rede mais exausta.

Nem mesmo à despedida foram os gestos contundentes:
tudo o que vem de ti é um poema.
Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem.

Sentei-me na cama e repeti devagar o teu nome,
o nome dos meus sonhos, mas as sílabas caíam
no fim das palavras, a dor esgota as forças,
são frios os batentes nas portas da manhã.

[Maria do Rosário Pedreira]

sábado, 3 de abril de 2010

A hora da partida



A hora da partida

A hora da partida soa quando
escurece o jardim e o vento passa,
estala o chão e as portas batem,
quando a noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
me é estranha e longínqua a minha face
e de mim se desprende a minha vida.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

terça-feira, 30 de março de 2010

As Janelas do Meu Quarto


As Janelas do Meu Quarto


Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto,
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade
e o desejo e a humildade
e o silêncio e a surpresa,

e o amor dos homens e o tédio
e o medo e a melancolia
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,

e a inocência e a bondade
e a dor própria e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia
e a viuvez e a piedade,

e o grande pássaro branco
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,

todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
que vos pudesse rasgar !
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

[António Gedeão]

sábado, 27 de março de 2010

Sigamos o Cherne


Sigamos o Cherne

Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

 [Alexandre O'Neill]

Ausência

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, 
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

[Carlos Drummond de Andrade]

domingo, 21 de março de 2010

O Poema Original


O Poema Original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos    quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

[Ary dos Santos, in 'Resumo']

21 de Março, dia Mundial da Poesia,
e… chegada da Primavera

quinta-feira, 18 de março de 2010

Há pouco as andorinhas

Há pouco as andorinhas
 bateram na minha janela
 pareciam que vinham à tua procura Querida Mãe.
Como tu gostavas  e saudavas o seu regresso com tanta alegria.
 Por um instante, senti-te aqui ao pé de mim a dar-lhe as boas-vindas .
Saudades Mãe…

quarta-feira, 17 de março de 2010

Elís Regina – Fascinação (youtube)


Elis Regina Carvalho Costa (Porto Alegre, 17 de Março de 1945 – São Paulo, 19 de Janeiro de 1982) A Pimentinha(como lhe chamou Vinicius) eterna no nosso coração faria hoje 65 anos, mas continuamos a sentir a magia da sua voz.


Fascinação

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar
Tonto de emoção
Com sofreguidão
Mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria, entontece
És fascinação, amor

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar
Tonto de emoção
Com sofreguidão
Mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria, entontece
És fascinação, amor…

Composição: F.D.Marchetti / M.de Feraudy / (Versão Armando Louzada)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Horas Rubras



Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca misteriosa...
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Súplica




Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

[Miguel Torga]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Se as minhas mãos pudessem desfolhar


Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio o teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu  sinto-me oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
horas mortas antigas.

Eu pronuncio o teu nome,
nesta noite escura,
e o teu nome  soa-me
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem o meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se os meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

[Federico García Lorca]

Eu Sei e Você Sabe


Eu sei e você sabe

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim,
Que nada nesse mundo levará você de mim.
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste.
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

[Vinicius de Moraes]

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Desejos vãos



Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte! 
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

[Florbela Espanca]



Eu que Sou Feio




Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

[Cesário Verde]

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Dorme, meu amor




Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo e o vento amaciou e a minha mão desvia os passos do medo.
 Dorme, meu amor, a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres.
 Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me , eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega , a porta está trancada e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho.
 Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos, a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

[Maria do Rosário Pedreira]

sábado, 30 de janeiro de 2010

Um Ano sem a minha Querida Mãe.


Um Ano sem a minha Querida Mãe.

Outro dia, fui lá a casa e aquela capa castanha com a gola que tu gostavas, lembras-te?
Ainda tinha o teu cheirinho bom, matei tantas saudades, parecia que estavas ali ao pé e que me irias chamar para o Jantar, a seguir..
Há muito tempo que pensei, que as minhas lágrimas tinham secado, mas voltaram, bem as tento parar , mas elas não obedecem.
Ninguém está preparado para a perda de um ente querido, apesar de há uns anos para cá eu viver aterrorizado com a tua partida, todos os dias de manhã só descansava, quando ouvia a tua voz….era mais um dia que eu te tinha.
 Também sabia que a tua vida, era um milagre de Deus e que um dia isso iria acontecer.
 Quando te via encarar o sofrimento(e que sofrimento) com aquela coragem Enorme e ainda por cima com uma vitalidade, que nem parecia que estavas tão mal há tanto tempo, pensava que eras Eterna, que bom que era que assim fosse.
 Deus chamou-te faz hoje um ano e tenho a certeza que falas com Ele e estás bem, finalmente. Também sei que deixaste de sofrer, Deus decidiu que já tinhas cumprido a tua missão na Terra e chamou-te, porque Ele também sofreu e sabia que Tu estavas num sofrimento atroz a todos os níveis, com a tua saúde tão precária, com a nossa vida atribulada, que nunca mais acerta, mas mesmo assim a tua fé nunca te perdeu, aguentaste até à última gota Querida Mãe Coragem.
 O telefone lá em casa deixou de tocar,(antes tocava todo o santo dia) daquelas pessoas a quem tu tanto deste, só ficaram os Amigos, não chegam aos dedos de uma mão, mas ao menos esses sabemos que são mesmo amigos de verdade.
 Mas é a lei da vida, o ser-humano é mesmo assim, não podemos levar a mal por isso.
 Quem nunca teve uma Mãe, como eu tive, nunca vai entender que mais de metade de mim, se foi contigo naquele dia .
 Mas a verdade, é que eles não sabem que eu lhes levo uma vantagem muito Grande, porque tive a Mãe mais Fantástica do mundo, que me deixou um legado enorme e valiosíssimo, foi essa a herança que me deixaste, o meu maior tesouro!
 Mas a vida sem a tua presença física, mudou completamente para muito pior, vou tentando renascer devagarinho, mas não é nada fácil Querida Mãe.
 Mas tal como tu dizias, “dos fracos não reza a história, quem tiver a fé do tamanho de um grão de mostarda, remove montanhas e depois da tempestade vem a Bonança”, máximas bem conhecidas, mas nunca ditas com a fé e convicção com que tu as dizias.
Grande Mãe, Grande Mulher de Fé, Grande Ser-Humano: A minha Querida Mãe, o Grande Amor da minha Vida!!!
Um dia voltaremos a encontrar-nos, oxalá  Deus me dê essa bênção.

Um beijo Enorme deste filho, que te amará para além do Sempre!
António

Santarém, 30 de Janeiro de 2010



quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Amigo é

A minha Querida Amiga, a Poeta Sandra Fichera



Amigo é

Amigo é coisa gostosa de se ter
Cheiro de mato na manhã
Gota de orvalho no despertar
Amigo é pra se confiar!

Entregar seu coração em segredo
Sua alma em oração
Amigo é coisa gostosa de se ter
Flor de maracujá, rosa em botão.

Abraço em palavras veladas
Canção de ninar em mãos de mãe
Amigo é tudo e é só
Um universo em único ser

Estrelas que se podem pegar
Sóis que se podem guardar
Amigo é pura paixão

Gestos recíprocos, infinito momento.
Bocas cúmplices, cheiro de mar.
Ondas em rebento....


(poema de Sandra Fichera)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Desencanto


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

[Manuel Bandeira]

A CASA



A Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci
és a noite, que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

[David Mourão-Ferreira]