segunda-feira, 10 de maio de 2010

Meu país desgraçado...




Meu país desgraçado!...
e no entanto há Sol a cada canto
e não há mar tão lindo noutro lado.
Nem há céu mais alegre do que o nosso,
Nem pássaros, nem águas…


Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé,
busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclamam filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem, sem forças, sem haveres!
Olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

[Sebastião da Gama]

domingo, 9 de maio de 2010

Alfama



Alfama não cheira a Fado

Quando Lisboa anoitece
Como um veleiro sem velas
Alfama toda parece
Uma casa sem janelas
Aonde o povo arrefece

É numa água-furtada
No espaço roubado à mágoa
Que Alfama fica fechada
Em quatro paredes de água
Quatro paredes de pranto

Quatro muros de ansiedade
Que à noite fazem o canto
Que se acende na cidade
Fechada em seu desencanto
Alfama cheira a saudade

Alfama não cheira a fado
Cheira a povo, a solidão,
Cheira a silêncio magoado
Sabe a tristeza com pão
Alfama não cheira a fado
Mas não tem outra canção.

[ Ary dos Santos/ Alain Oulman]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

SANTO E SENHA


Santo e Senha


Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar,
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
beber água de Sonho a qualquer fonte,
Ou colher açucenas

a um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora
que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser uma estrela no chão.


[Miguel Torga]

domingo, 25 de abril de 2010

Regresso


Regresso

E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter, a mim os oceanos.
E foste...e aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar, quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós, há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

                      [ Manuel Alegre]

terça-feira, 20 de abril de 2010

Talvez Amanhã


Talvez Amanhã

Talvez amanhã eu saiba
Talvez amanhã eu siga.
Talvez amanhã não caiba
Nas palavras que te diga...

Entretanto, que sei eu?
Eu que não sei o que sou.
Depois do que aconteceu,
Apesar do que acabou.

Não vamos dormir agora
- que a manhã é uma promessa
que o teu sorriso devora.

Vamos despir-nos depressa
Ainda temos uma hora
Antes que o sonho adormeça.

[Fernando Tavares Rodrigues]

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Amor Antigo (Youtube)


O amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão, nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona,
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o amor antigo, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

[Drummond de Andrade]

sábado, 10 de abril de 2010

Mário Viegas




António Mário Lopes Pereira Viegas
(Santarém, 10 de Novembro de 1948 — Lisboa, 1 de Abril de 1996)  actor e encenador português.
Unanimemente reconhecido como um dos melhores actores da sua geração, foi aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde se inicia no teatro universitário. Frequentou o Conservatório Nacional de Teatro, em Lisboa. Estreia-se como actor profissional no Teatro Experimental de Cascais, trabalhando com Carlos Avilez. Passa pelo Teatro Universitário do Porto em 1969.
 Fundador de três companhias teatrais (a última das quais foi a Companhia Teatral do Chiado), interpretou peças de autores como Stadt Hamm, Raul Baal, Fernando Krapp ou Wayne Wang e encenou peças de Beckett, Eduardo De Filippo, Bergman, Tchekov, Strindberg, Pirandello, Peter Shaffer, entre outros.
 Actor regular no cinema, participou em mais de quinze películas, entre elas O Rei das Berlengas de Artur Semedo (1978), Azul, Azul de José de Sá Caetano (1986), Repórter X de José Nascimento (1987), A Divina Comédia de Manoel de Oliveira (1991), Rosa Negra de Margarida Gil (1992), Sostiene Pereira de Roberto Faenza (1996), onde contracenou com Marcello Mastroianniou os filmes de José Fonseca e Costa Kilas, o Mau da Fita (1981), Sem Sombra de Pecado (1983), A Mulher do Próximo (1988) e Os Cornos de Cronos (1991).
 Fez também televisão, popularizando-se, particularmente com duas séries de programas sobre poesia - Palavras Ditas (1984) e Palavras Vivas (1991).     Trabalhou também na rádio, principalmente como divulgador de poesia e de teatro e foi colaborador regular do jornal Diário Económico, para onde escreveu artigos sobre teatro e humor.
Deu-se a conhecer pelos seus recitais de poesia, gravando uma discografia com poemas de, entre outros, Fernando Pessoa, Luís de Camões, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Jorge de Sena, Ruy Belo, Eugénio de Andrade ou ainda de autores estrangeiros (Brecht, Pablo Neruda, entre outros). Divulgou nomes como Pedro Oom ou Mário-Henrique Leiria. Viajou por inúmeros países, fazendo teatro em Moçambique, Macau, Brasil, Países Baixos ou Espanha.
Pela sua actividade teatral foi premiado diversas vezes pela Casa da Imprensa e pela Associação Portuguesa de Críticos. Recebeu o Prémio Garrett, como Melhor Actor, pela Secretaria de Estado da Cultura (1987), para além de distinções em Festivais de Teatro e Cinema Internacionais (1979 - Festival de Teatro de Sitges, em Espanha, com a peça D. João VI; 1978 - Festival Europeu de Cinema Humorístico da Corunha, pelo filme O Rei das Berlengas de Artur Semedo). 
 Em 1994 é ordenado Comendador pela Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da Républica Mário Soares.
Escreveu Auto-Photo Biografia (edição do autor) em 1995 que não foi autorizado a publicar. 
 Em 2001 foi homenageado pelo Museu Nacional do Teatro com a exposição Um Rapaz Chamado Mário Viegas.
[Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.]

terça-feira, 6 de abril de 2010

Noite de saudade



A Noite vem poisando devagar
sobre a Terra, que inunda de amargura...
e nem sequer a benção do luar
a quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
a sua dor que é cheia de tortura...
e eu oiço a noite imensa soluçar!
e eu oiço soluçar a noite escura!

Porque és assim tão escura, assim tão triste?
é que talvez oh Noite, em ti existe
uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
talvez de ti, oh Noite!... Ou de ninguém!...
que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

[Florbela Espanca]

domingo, 4 de abril de 2010

Esta manhã encontrei o teu nome



Esta manhã encontrei o teu nome

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele.
E o corpo doeu-me onde antes os teus dedos, foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida, como um peixe respira
na rede mais exausta.

Nem mesmo à despedida foram os gestos contundentes:
tudo o que vem de ti é um poema.
Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem.

Sentei-me na cama e repeti devagar o teu nome,
o nome dos meus sonhos, mas as sílabas caíam
no fim das palavras, a dor esgota as forças,
são frios os batentes nas portas da manhã.

[Maria do Rosário Pedreira]

sábado, 3 de abril de 2010

A hora da partida



A hora da partida

A hora da partida soa quando
escurece o jardim e o vento passa,
estala o chão e as portas batem,
quando a noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
me é estranha e longínqua a minha face
e de mim se desprende a minha vida.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

terça-feira, 30 de março de 2010

As Janelas do Meu Quarto


As Janelas do Meu Quarto


Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto,
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade
e o desejo e a humildade
e o silêncio e a surpresa,

e o amor dos homens e o tédio
e o medo e a melancolia
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,

e a inocência e a bondade
e a dor própria e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia
e a viuvez e a piedade,

e o grande pássaro branco
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,

todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
que vos pudesse rasgar !
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

[António Gedeão]

sábado, 27 de março de 2010

Sigamos o Cherne


Sigamos o Cherne

Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

 [Alexandre O'Neill]

Ausência

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, 
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

[Carlos Drummond de Andrade]

domingo, 21 de março de 2010

O Poema Original


O Poema Original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos    quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

[Ary dos Santos, in 'Resumo']

21 de Março, dia Mundial da Poesia,
e… chegada da Primavera

quinta-feira, 18 de março de 2010

Há pouco as andorinhas

Há pouco as andorinhas
 bateram na minha janela
 pareciam que vinham à tua procura Querida Mãe.
Como tu gostavas  e saudavas o seu regresso com tanta alegria.
 Por um instante, senti-te aqui ao pé de mim a dar-lhe as boas-vindas .
Saudades Mãe…

quarta-feira, 17 de março de 2010

Elís Regina – Fascinação (youtube)


Elis Regina Carvalho Costa (Porto Alegre, 17 de Março de 1945 – São Paulo, 19 de Janeiro de 1982) A Pimentinha(como lhe chamou Vinicius) eterna no nosso coração faria hoje 65 anos, mas continuamos a sentir a magia da sua voz.


Fascinação

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar
Tonto de emoção
Com sofreguidão
Mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria, entontece
És fascinação, amor

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar
Tonto de emoção
Com sofreguidão
Mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria, entontece
És fascinação, amor…

Composição: F.D.Marchetti / M.de Feraudy / (Versão Armando Louzada)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Horas Rubras



Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca misteriosa...
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Súplica




Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

[Miguel Torga]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Se as minhas mãos pudessem desfolhar


Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio o teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu  sinto-me oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
horas mortas antigas.

Eu pronuncio o teu nome,
nesta noite escura,
e o teu nome  soa-me
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem o meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se os meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

[Federico García Lorca]