Fui visitar-te Querida Mãe, embora saiba que o teu espírito paira por outras paragens, onde o sol não se põe, onde reina a paz e o amor pelo próximo, eu simples mortal que não se esquece do Grande Amor da sua vida, fui lá.
Ali ao menos sei que está o que restou de ti aqui nesta Terra que tanto sofrimento te deu.
Nesta altura era horrível para ti Querida Mãe, o calor…sempre o calor, fui deitar água naquela pedra que fervia, hoje dão 40º.
Quando vinha o frio, eu respirava fundo e pensava que era mais um ano que eu te tinha, até que chegou aquele dia tão horrível, em que partiste.
Para os de fora, é fácil dizer : “a sua Mãe agora está a zelar por todos vós lá em cima”, “o tempo apaga tudo”, “ a vida continua”…mas qual vida?
Queira Deus, que nunca sintam aquilo que me vai no coração, é o preço de ter tido a Mãe mais Fantástica do mundo,( não é exagero), a minha Mãe foi o Melhor Ser-Humano que conheci à face da Terra!
Acontece que me canso de meus pés e das minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra…
Acontece que me canso de ser homem.
Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.
Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, com fúria e esquecimento, passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas e pátios onde há roupa pendurada num arame: cuecas, toalhas e camisas que choram....
Se não matas a saudade Quando morres de vontade De pôr à saudade fim É talvez porque preferes Ter da saudade o que queres E não me pedes a mim.
A saudade em que me deixas É penhor das tuas queixas Por não dizeres a verdade Bastava que me pedisses De cada vez que me visses O que pedes à saudade.
O que dás, se me não vês, Não consigo que me dês Por timidez ou vaidade E a saudade que vais tendo Com ela vives, morrendo P’ra me matares de saudade.
Talvez seja o que tu queres E é por isso que preferes A saudade em vez de mim Morrendo os dois de saudade Temos toda a eternidade P’ra pôr à saudade fim