terça-feira, 24 de agosto de 2010

Soneto de Aniversário


         Soneto de Aniversário

        Passem-se dias, horas, meses, anos
        Amadureçam as ilusões da vida
        Prossiga ela sempre dividida
        Entre compensações e desenganos.

        Faça-se a carne mais envilecida
        Diminuam os bens, cresçam os danos
        Vença o ideal de andar caminhos planos
        Melhor que levar tudo de vencida.

        Queira-se antes ventura que aventura
        À medida que a têmpora embranquece
        E fica tenra a fibra que era dura.

        E eu te direi: amiga minha, esquece...
        Que grande é este amor meu de criatura
        Que vê envelhecer e não envelhece.

        [Vinicius de Moraes]

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Conheço o Sal ( Jorge de Sena)


(Dionísio Leitão)


Conheço o Sal

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

[Jorge de Sena]

domingo, 22 de agosto de 2010

A Saudade…Saudades já não sente.


A Saudade…Saudades já não sente

Passa por ti o meu olhar, perdoa.
Vai para longe, cansado e descontente;
Sei que te dói bastante e te magoa
Porque me julgas cega ou indiferente…

Mas vejo, meu amor, vejo tão longe
Que temo de ficar onde me queres;
Invejo a solidão de qualquer monge,
Aceito a esmola que por fim me deres…

Quem dera que meus olhos alcançassem
Apenas o que fica à minha beira;
Não queria mais, senão que caminhassem
Perto de ti, seguindo a tua esteira…

Visão de louca, fumo de um cigarro,
Bruma que tapa o sol incandescente…
E no destroço a que enfim, me agarro,
A saudade…saudades já não sente.

[Maria Manuel Cid]

sábado, 21 de agosto de 2010

Quase


        Quase

        Um pouco mais de sol - eu era brasa,
        Um pouco mais de azul - eu era além.
        Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
        Se ao menos eu permanecesse aquém...
        Assombro ou paz?  Em vão... Tudo esvaído
        Num grande mar enganador de espuma;
        E o grande sonho despertado em bruma,
        O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
        Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
        Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
        Mas na minh'alma tudo se derrama...
        Entanto nada foi só ilusão!
        De tudo houve um começo ... e tudo errou...
        - Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
        Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
        Asa que se enlaçou mas não voou...
        Momentos de alma que, desbaratei...
        Templos aonde nunca pus um altar...
        Rios que perdi sem os levar ao mar...
        Ânsias que foram mas que não fixei...
        Se me vagueio, encontro só indícios...
        Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
        E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
        Puseram grades sobre os precipícios...
        Num ímpeto difuso de quebranto,
        Tudo encetei e nada possuí...
        Hoje, de mim, só resta o desencanto
        Das coisas que beijei mas não vivi...
        Um pouco mais de sol - e fora brasa,
        Um pouco mais de azul - e fora além.
        Para atingir faltou-me um golpe de asa...
        Se ao menos eu permanecesse aquém...

          [Mário de Sá-Carneiro]

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um dia ainda hei-de ser capaz de me agarrar às asas de uma águia, e voar com ela.



Um dia ainda hei-de ser capaz de me agarrar às asas de uma águia,
e voar com ela.
Levarei comigo um pedaço de noite na confusão da minha mala.
Não me posso esquecer de levar livros, canetas e papel.
Raptarei alguns pirilampos, em causticas distracções nas videiras para que os possa admirar fascinada à noite!
Levo algumas rosas, alecrim, para que o seu perfume e o sentido da Primavera, perdurem.
Talvez os pirilampos se fortaleçam nessa viagem cósmica e cintilem mais decisivamente na mais longínqua nuvem que eu encontrar.
É lá que me quero refugiar... !
Talvez eu consiga explicar aos frágeis pirilampos que o sol é uma fonte inesgotável de vida e que não há qualquer razão para preferirem a escuridão da noite para descamarem no seu bailado intermitente,fingindo uma audácia inexistente.
Quero explicar-lhes por gestos virtuosos que só os
ratos vagueiam nos túneis escuros, onde o cheiro nauseabundo mostra a decadência que somos.
Sinto-me cansada,
nauseada,
fragilizada e farta
desta azáfama que acompanha a realidade dos dias, sempre repetitivos,
exaustivamente vazios.
O que fizemos da nossa própria humanização?
Porque nos escondemos em tanta contradição?
Que realidade é esta? O desassossego que me acompanha, dia após dia, tem o mesmo sabor da atrocidade que se comete a cada momento em que fingimos, que nada vemos...
Preciso sentir-me actuante, percebes?
Preciso de sair…
respirar…
Reflectir longe.
Se me agarrar a essa águia ficarei lá em cima, sim… onde o horizonte se confunde com o rendilhado das nuvens que parecem fugir de algum sarilho também.
Agarras-te aos meus cabelos e segues viagem comigo?
A águia que nos levar permitirá essa ousadia descabida.
Há águias sonhadoras, sabias?
Anda, sim…
Aqui na terra nada tem sentido!
Os afectos deturpam-se… interrompem-se à mínima contrariedade.
Se é assim onde está a autenticidade?
Os meninos de ventre inchado continuam a deambular descalços sobre a terra ressequida e escaldante.
A única solidariedade que recebem dos outros é ignorância e o desprezo. Só as moscas que lhes bebem as lágrimas os fazem sentir uma réstia de vida.
Ah... quanta hipocrisia, Meu senhores!
Quanta hipocrisia!
Tu e eu temos essa consciência?
O que fazemos para mudar o rumo das coisas?
As armas, os donos da guerra, a maldita droga.
As crianças violadas, maltratadas.
Os rios poluídos, a destruição da Amazónia!

Ah… preciso sair,
respirar...
Reflectir longe….
Se é para enlouquecer, quero enlouquecer nas nuvens.

[Vóny Ferreira]

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Parabéns minha Querida Mãe!


 a última foto, aqui já estava em sofrimento


Muitos Parabéns pelos teus 81 anos, Querida Mãe!!!
Já é o 2º Aniversário, que  passo sem ti.
Tento imaginar-te, a comemorá-lo aí no Céu, com saúde, a movimentares o teu braçinho, sem falta de ar, com o teu coração bom, depois de tanto sofrimento que a tua passagem aqui na Terra te deu.
  Sim Mãe, agora já não estás a sofrer, Deus levou-te para junto Dele e tenho a certeza que é ao pé Dele que estás, só podes estar, só posso acreditar, que o melhor Ser-Humano que conheci à face da Terra, está junto do Pai, a minha Querida Mãe, o Grande Amor da minha vida.
 Pena não haver telefone no Céu, para poder falar contigo e ouvir a tua resposta às minhas dúvidas…e quando dizias :”Não tenhas medo, não há perigo, Força!”, eu descansava logo, porque a força que tu me incutias, era uma  Força sem limite!
  Grande Mãe e Grande Mulher que sempre foste, eras uma Mãe muito especial, a Melhor Mãe do mundo, a melhor Amiga, que alguém alguma vez desejou ter, só quem privou contigo é que  poderá  entender as minhas palavras. Davas tudo de ti a Todos e dizias: -“Deus é meu amigo e ajuda-me”.
  Tantas saudades Mãe, não vejo a hora de nos encontrarmos, aí em cima, nem que seja por 5 minutos, já seria tão bom poder falar contigo 5 minutos e dizer-te o quanto Te Amo e o quanto te amarei sempre, até à minha última gota de sangue, sei que Deus não me vai negar isso.
 A vida aqui não tem sido fácil e quanto mais o tempo passa, mais a ferida se abre, mas que neste dia fiquemos todos em paz a recordar-te e tentemos seguir o legado que nos deixaste a todos nós, Querida Mãe.
Parabéns Querida Mãe...


Do teu filho que te Amará para além do sempre

António

Santarém, 18 de Agosto de 2010

Tenho a certeza que irias gostar desta canção.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Aos Poetas


Aos Poetas

Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.

[Miguel Torga]

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Entre os teus lábios (Eugénio de Andrade)


Entre os teus lábios

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

[Eugénio de Andrade]

domingo, 8 de agosto de 2010

Ontem o pregador de verdades dele (Alberto Caeiro)


Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!

Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles.
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.

Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.

Para qual fui injusto - eu, que as vou comer a ambas?

[Alberto Caeiro]
 

sábado, 7 de agosto de 2010

Rumi - Poeta, Jurista e Teólogo Muçulmano Persa


Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo - um punhado de pó -
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

[Rumi ]

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Manias!




O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca…
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, hoje uma ossada,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
e o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

[Cesário Verde]

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Timidez




Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Acordo de noite (Alberto Caeiro)


                                                      (Salvador Dali)


    Acordo de noite

    Acordo de noite súbitamente,
    E o meu relógio ocupa a noite toda.
    Não sinto a Natureza lá fora.
    O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
    Lá fora há um sossego como se nada existisse.
    Só o relógio prossegue o seu ruído.
    E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa
    Abafa toda a existência da terra e do céu...
    Quase que me perco a pensar o que isto significa,
    Mas estaco e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
    porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa,
    é a curiosa sensação de encher a noite enorme
    Com a sua pequenez...



[Alberto Caeiro]

O Cão e a Cadela (Por Bocage)


O Cão e a Cadela

Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em vão.
Dando no chichisbéu dentada e mais dentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão desabridas,
Era co'um torpe cão fagueira às escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.

[ Manuel Maria Barbosa Du Bocage]

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Viver sempre também cansa


Viver sempre também cansa

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
as árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
não cai neve vermelha
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
ninguém vai pintar olhos à lua

Tudo é igual, mecânico e exacto

Ainda por cima os homens são os homens
soluçam, bebem riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho
de vez em quando
e recomeçar depois
achando tudo mais novo?

Ah! Se eu podesse suicidar-me por seis meses..
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia
matou-se esta manhã
agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..

[José Gomes Ferreira]

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Urgência (José Agostinho Baptista)


Urgência

Levanta-te e deixa-me entrar,
diria se pudesse,
junto a esta cama onde a dor te contempla,
sob este tecto frio que não inventa qualquer
paisagem,
qualquer lembrança de barcos ancorados no
vazio da nossa alma,
diria que lá fora escuto a sirene que se
aproxima
e a chuva que bate com as suas gotas de
angústia na pedras da estrada,
diria que essas quatro rodas vão levar-te,ao
longo do pánico e da noite,
para outras paredes onde nenhum crucifixo
redime a desolação das casas,
diria que se afastaram para sempre os
dias antigos,
as suas laranjas,a sua água,
uma cerejeira breve onde os melros cantavam.

[José Agostinho Baptista]

Desespero.


Desespero (pintura de Marta Bessa)


Desespero

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.

                         [José Carlos Ary dos Santos]

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A vida deve ser bebida


A vida deve ser bebida

Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar

ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida…ensinaram-me assim..
Deve ser bebida!

[Mia Couto]

terça-feira, 27 de julho de 2010

Rodrigo Leão (Mãe)




Fui visitar-te Querida Mãe, embora saiba que o teu espírito paira por outras paragens, onde o sol não se põe, onde reina a paz e o amor pelo próximo, eu simples mortal que não se esquece do Grande Amor da sua vida, fui lá.
Ali ao menos sei que está o que restou de ti aqui nesta Terra que tanto sofrimento te deu.
Nesta altura era horrível para ti Querida Mãe, o calor…sempre o calor, fui deitar água naquela pedra que fervia, hoje dão 40º.
Quando vinha o frio, eu respirava fundo e pensava que era mais um ano que eu te tinha, até que chegou aquele dia tão horrível, em que partiste.
Para os de fora, é fácil dizer : “a sua Mãe agora está a zelar por todos vós lá em cima”, “o tempo apaga tudo”, “ a vida continua”…mas qual vida?
Queira Deus, que nunca sintam aquilo que me vai no coração, é o preço de ter tido a Mãe mais Fantástica do mundo,( não é exagero), a minha Mãe foi o Melhor Ser-Humano que conheci à face da Terra!
Saudades Mãe, eras a minha única Família.