Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado.
Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante e na terra crescida os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer, junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo- não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o Deus, o leite, a mãe, que te procuram.
Um dia ainda hei-de ser capaz de me agarrar às asas de uma águia,
e voar com ela.
Levarei comigo um pedaço de noite na confusão da minha mala.
Não me posso esquecer de levar livros, canetas e papel.
Raptarei alguns pirilampos, em causticas distracções nas videiras para que os possa admirar fascinada à noite!
Levo algumas rosas, alecrim, para que o seu perfume e o sentido da Primavera, perdurem.
Talvez os pirilampos se fortaleçam nessa viagem cósmica e cintilem mais decisivamente na mais longínqua nuvem que eu encontrar.
É lá que me quero refugiar... !
Talvez eu consiga explicar aos frágeis pirilampos que o sol é uma fonte inesgotável de vida e que não há qualquer razão para preferirem a escuridão da noite para descamarem no seu bailado intermitente,fingindo uma audácia inexistente.
Quero explicar-lhes por gestos virtuosos que só os
ratos vagueiam nos túneis escuros, onde o cheiro nauseabundo mostra a decadência que somos.
Sinto-me cansada,
nauseada,
fragilizada e farta
desta azáfama que acompanha a realidade dos dias, sempre repetitivos,
exaustivamente vazios.
O que fizemos da nossa própria humanização?
Porque nos escondemos em tanta contradição?
Que realidade é esta? O desassossego que me acompanha, dia após dia, tem o mesmo sabor da atrocidade que se comete a cada momento em que fingimos, que nada vemos...
Preciso sentir-me actuante, percebes?
Preciso de sair…
respirar…
Reflectir longe.
Se me agarrar a essa águia ficarei lá em cima, sim… onde o horizonte se confunde com o rendilhado das nuvens que parecem fugir de algum sarilho também.
Agarras-te aos meus cabelos e segues viagem comigo?
A águia que nos levar permitirá essa ousadia descabida.
Há águias sonhadoras, sabias?
Anda, sim…
Aqui na terra nada tem sentido!
Os afectos deturpam-se… interrompem-se à mínima contrariedade.
Se é assim onde está a autenticidade?
Os meninos de ventre inchado continuam a deambular descalços sobre a terra ressequida e escaldante.
A única solidariedade que recebem dos outros é ignorância e o desprezo. Só as moscas que lhes bebem as lágrimas os fazem sentir uma réstia de vida.
Ah... quanta hipocrisia, Meu senhores!
Quanta hipocrisia!
Tu e eu temos essa consciência?
O que fazemos para mudar o rumo das coisas?
As armas, os donos da guerra, a maldita droga.
As crianças violadas, maltratadas.
Os rios poluídos, a destruição da Amazónia!
Ah… preciso sair,
respirar...
Reflectir longe….
Se é para enlouquecer, quero enlouquecer nas nuvens.
Muitos Parabéns pelos teus 81 anos, Querida Mãe!!!
Já é o 2º Aniversário, que passo sem ti.
Tento imaginar-te, a comemorá-lo aí no Céu, com saúde, a movimentares o teu braçinho, sem falta de ar, com o teu coração bom, depois de tanto sofrimento que a tua passagem aqui na Terra te deu.
Sim Mãe, agora já não estás a sofrer, Deus levou-te para junto Dele e tenho a certeza que é ao pé Dele que estás, só podes estar, só posso acreditar, que o melhor Ser-Humano que conheci à face da Terra, está junto do Pai, a minha Querida Mãe, o Grande Amor da minha vida.
Pena não haver telefone no Céu, para poder falar contigo e ouvir a tua resposta às minhas dúvidas…e quando dizias :”Não tenhas medo, não há perigo, Força!”, eu descansava logo, porque a força que tu me incutias, era uma Força sem limite!
Grande Mãe e Grande Mulher que sempre foste, eras uma Mãe muito especial, a Melhor Mãe do mundo, a melhor Amiga, que alguém alguma vez desejou ter, só quem privou contigo é que poderá entender as minhas palavras. Davas tudo de ti a Todos e dizias: -“Deus é meu amigo e ajuda-me”.
Tantas saudades Mãe, não vejo a hora de nos encontrarmos, aí em cima, nem que seja por 5 minutos, já seria tão bom poder falar contigo 5 minutos e dizer-te o quanto Te Amo e o quanto te amarei sempre, até à minha última gota de sangue, sei que Deus não me vai negar isso.
A vida aqui não tem sido fácil e quanto mais o tempo passa, mais a ferida se abre, mas que neste dia fiquemos todos em paz a recordar-te e tentemos seguir o legado que nos deixaste a todos nós, Querida Mãe.
Ontem o pregador de verdades dele Falou outra vez comigo. Falou do sofrimento das classes que trabalham (Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre). Falou da injustiça de uns terem dinheiro, E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer, Ou se é só fome da sobremesa alheia. Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros! Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles. E não se cura de fora, Porque sofrer não é ter falta de tinta Ou o caixote não ter aros de ferro!
Haver injustiça é como haver morte. Eu nunca daria um passo para alterar Aquilo a que chamam a injustiça do mundo. Mil passos que desse para isso Eram só mil passos. Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda, E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.
Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais. Para qual fui injusto - eu, que as vou comer a ambas?