domingo, 5 de setembro de 2010

Paraísos Artificiais (Jorge de Sena)


Os paraísos artificiais

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

[Jorge de Sena]

Passamos pelas coisas sem as ver (Eugénio de Andrade)


Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

[Eugénio de Andrade]

sábado, 4 de setembro de 2010

Uma breve história do Zé do Telhado



José do Telhado (José Teixeira da Silva) nasceu no lugar do Telhado, freguesia de Castelães de Recesinhos (Penafiel), a 22 de Julho de 1818.

  Foi um famoso salteador Português do século dezanove e era chefe da quadrilha mais famosa do Marão. Juntos levaram a cabo um grande número de assaltos em todo o norte de Portugal entre 1842 e 1859. É conhecido por "roubar aos ricos para dar aos pobres" e por isso muitos consideram-no como o Robin Hood portugês. Impedido de casar com uma prima, por 1836 alistou-se em Lisboa nos Lanceiros da Rainha, logo com o posto de sargento e alcançou fama na Revolta dos Marechais. Obtido o casamento com Anna Lentina, em 1845, logrou baixa do exército, e tiveram quatro filhos.

 Em 1846, interveio como liberal na Revolução da Maria da Fonte, sendo-lhe imposta a Ordem da Torre e Espada, por salvar o Visconde de Sá da Bandeira.

 Um ano depois, regressou a casa, após a Convenção de Gramido. Conheceu dificuldades com credores de dívidas e inimigos políticos, pelo que escapou para o Rio de Janeiro, e esteve no Rio Grande do Sul. Mas não de deu bem e, de volta, ingressou numa quadrilha do irmão, tendo chefiado vários assaltos com violência, ajudando porém a gente pobre.

 Em 1859, tentou nova fuga para o Brasil. Capturado já no barco e julgado no Porto, em 1861, conviveu na Cadeia da Relação com Camilo Castelo Branco. A cumprir degredo perpétuo em Angola, participou numa operação militar contra indígenas, pelo que lhe foi comutada a pena em 1865. Estabelecido como negociante de marfim em Sanza, juntou-se com uma indígena do Malange, vindo a falecer em 1875, e ali foi sepultado e venerado. Revelado por Camilo em Memórias do Cárcere, o Zé do Telhado inspirou a literatura de cordel, romances biográficos (Eduardo de Noronha, 1923), uma opereta e três filmes (Rino Lupo, 1929; Armando de Miranda, 1945-49).  

Quadras da minha solidão (Alda Lara)


Quadras da minha solidão

Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...

[Alda Lara]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Como se Estivesse Apaixonado


Como se Estivesse Apaixonado

"Para quem
não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer:"

Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.
Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante...

[Fernando Tavares Rodrigues]
1954 – 2006

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Poema dum Funcionário Cansado


Foto de:António Manuel Pinto da Silva


Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

[António Ramos Rosa]

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Lua adversa


Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)

No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

[Cecília Meireles]

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Homem que Contempla (Rilke)


O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

[Rainer Maria Rilke]

Estigma (Ary dos Santos)


(1984 - Estigma de  George Orwell - por Walter Miranda)



Estigma

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.

[José Carlos Ary dos Santos]

domingo, 29 de agosto de 2010

Não sei como dizer-te (Herberto Hélder)


Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta.
 Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado.
 Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante e na terra crescida os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer, junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo- não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o Deus, o leite, a mãe, que te procuram.

[Herberto Hélder]

sábado, 28 de agosto de 2010

Em Todas as Ruas te Encontro


Em Todas as Ruas te Encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

[Mário Cesariny]

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nuvens correndo num rio




Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

[Natália Correia]

Natália Correia por Artur Bual

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Prece



Prece

Senhor!
deito-me na cama
Coberto de sofrimento
E a todo o comprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.

Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição
Onde era sim, digo não
Onde era não digo sim,
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.

Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado,
Um golpe bem acertado,
O tiro de um inimigo.....
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo.

[Miguel Torga]

A Concha (Vitorino Nemésio)



A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.


Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.


E telhados de vidro e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.


A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

[Vitorino Nemésio]

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Soneto de Aniversário


         Soneto de Aniversário

        Passem-se dias, horas, meses, anos
        Amadureçam as ilusões da vida
        Prossiga ela sempre dividida
        Entre compensações e desenganos.

        Faça-se a carne mais envilecida
        Diminuam os bens, cresçam os danos
        Vença o ideal de andar caminhos planos
        Melhor que levar tudo de vencida.

        Queira-se antes ventura que aventura
        À medida que a têmpora embranquece
        E fica tenra a fibra que era dura.

        E eu te direi: amiga minha, esquece...
        Que grande é este amor meu de criatura
        Que vê envelhecer e não envelhece.

        [Vinicius de Moraes]

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Conheço o Sal ( Jorge de Sena)


(Dionísio Leitão)


Conheço o Sal

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

[Jorge de Sena]

domingo, 22 de agosto de 2010

A Saudade…Saudades já não sente.


A Saudade…Saudades já não sente

Passa por ti o meu olhar, perdoa.
Vai para longe, cansado e descontente;
Sei que te dói bastante e te magoa
Porque me julgas cega ou indiferente…

Mas vejo, meu amor, vejo tão longe
Que temo de ficar onde me queres;
Invejo a solidão de qualquer monge,
Aceito a esmola que por fim me deres…

Quem dera que meus olhos alcançassem
Apenas o que fica à minha beira;
Não queria mais, senão que caminhassem
Perto de ti, seguindo a tua esteira…

Visão de louca, fumo de um cigarro,
Bruma que tapa o sol incandescente…
E no destroço a que enfim, me agarro,
A saudade…saudades já não sente.

[Maria Manuel Cid]

sábado, 21 de agosto de 2010

Quase


        Quase

        Um pouco mais de sol - eu era brasa,
        Um pouco mais de azul - eu era além.
        Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
        Se ao menos eu permanecesse aquém...
        Assombro ou paz?  Em vão... Tudo esvaído
        Num grande mar enganador de espuma;
        E o grande sonho despertado em bruma,
        O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
        Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
        Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
        Mas na minh'alma tudo se derrama...
        Entanto nada foi só ilusão!
        De tudo houve um começo ... e tudo errou...
        - Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
        Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
        Asa que se enlaçou mas não voou...
        Momentos de alma que, desbaratei...
        Templos aonde nunca pus um altar...
        Rios que perdi sem os levar ao mar...
        Ânsias que foram mas que não fixei...
        Se me vagueio, encontro só indícios...
        Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
        E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
        Puseram grades sobre os precipícios...
        Num ímpeto difuso de quebranto,
        Tudo encetei e nada possuí...
        Hoje, de mim, só resta o desencanto
        Das coisas que beijei mas não vivi...
        Um pouco mais de sol - e fora brasa,
        Um pouco mais de azul - e fora além.
        Para atingir faltou-me um golpe de asa...
        Se ao menos eu permanecesse aquém...

          [Mário de Sá-Carneiro]