terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ai Flores do Verde-Rey


Para a memória removo
Tudo o que sei e não sei
Vou-me à história a’junto o povo
Que de novo aclame o rei
E vem o rei ter comigo
Vem fascinar-me outra vez
Entre cantigas de amigo
E trovas de amor cortês
Vem talhar-nos o caminho
Rasgá-lo de lés a lés
Conquistar mato maninho
Pra lavouras e marés

Graças ao ritmo e à rima
Inspirou paz e sossego
Trepou pl’o sonho acima
E ganhou-lhe tal apego
Que lançou capa e batina
Sobre os ombros do mondego
O plantio azul marinho
Inda’gora jaz de pé
Ai flores do verde pinho
Dizei, dizei-me baixinho
El-Rei , ai Deus iué

Verdejam vale montanha
Lá vai mastro lá proa
Já na terra o mar se banha
E a Desenha e a Coroa
Já o Céu nos acompanha
E de Velas se povoa
Toda a alma do Pessanha
Port-voz da de Pessoa
Porque não vem ter comigo
Não comparece outra vez
Entre cantigas de amigo
E Trovas de Amor cortês

[Rodrigo Emilio]

António Moreira da Silva - "As minhas Penas"

A Secreta Viagem



No barco sem ninguém, anónimo e vazio
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

[David Mourão-Ferreira]

Madrugada



Já vem rompendo ao longe a madrugada
Nas sombras da calada noite escura
Vem num manto de estrelas, embrulhada
Criança sempre em flôr e de alma pura

E a noite se afastou silenciosa
Escondida nos segredos do pecado
E a madrugada vem tão carinhosa
Para apagar um mal sempre lembrado

Dorme a noite perdida nas vielas
Embalando um queixume doloroso
No espaço há vozes tristes e singelas
Correndo atrás de um sonho mentiroso

Bendita sejas tu, oh madrugada!
Em tua luz se acende um novo dia
Das cinzas morre a noite embriagada
Num fogo, onde só arde a fantasia

[Guilhermina Frazão]

António Moreira da Silva - Guitarra Triste

António Moreira da Silva - "Lisboa Velha Senhora"

António Moreira da Silva - "Digam"

António Moreira da Silva - "O Abandono dos Portos"

António Moreira da Silva "Despedida"

António Moreira da Silva "Quase alegre... Quase"

António Moreira da Silva - "Lisboa de Outrora"

António Moreira da Silva - "Receita"

Vivi nesta casa muitos anos.

Vivi nesta casa muitos anos.


Agora mudaram já de certo a fechadura

e as pequenas coisas que fazem uma casa.

As chaves já não as trago

ao lado dos meus gestos.

Mudaram os móveis

deitaram fora as cortinas

e as paredes

trazem agora um calendário novo.

Uma casa é sempre

caliça cheiros alianças.

Eu avanço sobre o silêncio de

ainda esperar por ti.


 [João Miguel Fernandes Jorge]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Ano passado...

O Ano Passado

O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exactamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.

[Carlos Drummond de Andrade]

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Talvez sementes...(Neruda)

         Talvez sementes...

        Eu pertenço à fecundidade
        e crescerei enquanto crescem as vidas:
        sou jovem com a juventude da água,
        sou lento com a lentidão do tempo,
        sou puro com a pureza do ar,
        escuro com o vinho da noite
        e só estarei imóvel quando seja
        tão mineral que não veja nem escute,
        nem participe do que nasce e cresce.

        Quando escolhi a selva
        para aprender a ser,
        folha por folha,
        estendi as minhas lições
        e aprendi a ser raiz, barro profundo,
        terra calada, noite cristalina,
        e pouco a pouco mais, toda a selva.

        [Pablo Neruda]

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Escrito com Tinta Verde (Octavio Paz)

Escrito com Tinta Verde

A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde gorjeiam letras,
palavras que são árvores,
frases de verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, colo, seios,
fronte pura como o mar,
nuca de bosque no outono,
dentes que mordem um talo de grama.

Teu corpo se  constela de signos verdes,
renovos num corpo de árvore.
Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.

[Octavio Paz]

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Entretanto


Entretanto

Entre missas
e mísseis teus irmãos
Entre medos e mitos teus amigos
Entretanto entre portas tu contigo
Entretido a sonhar como eles vão.

Entre que muros moram suas mãos
Entre que murtas montam seus abrigos
Entre quem possa ver deste postigo
Entre que morros morrem de aflição

Entre murros enfrentam-se os mais tristes
Entre jogos ou danças proibidas
Entre Deus e a droga os menos fortes

Entre todos e tu vê o que existe
Entreacto em comum somente a vida
Entre tímidas aspas já a morte.

[David Mourão-Ferreira]

Últimos desejos (Fernando Assis pacheco)




Quero voar como os anjos

quero lavar os dentes com
triflúor

quero o Belinho sem o
Oliveira

quero cornear o duque de
Kent



quero 250 de Platão bem
passados

quero a destreza do okapi

quero ir ao Douro às
vindimas

quero pagar com letrasset



quero vestir de linho (e do
Veiga)

quero ser primeiro no
Mundial

quero pudim francês com
caramelo

quero ler um cabinda em
verso branco



quero uma sequóia para o
quarto

quero voar de Spitfire

quero esmurrar o Marcel
Cerdan

quero a Maja Desnuda



quero-te de bicicleta

quero-te outra vez de bicicleta sobre as folhas

quero-te ouvir chegar de
bicicleta

quero o som macio que
fazia na mata a tua
bicicleta.


[Fernando Assis Pacheco]

domingo, 5 de setembro de 2010

Paraísos Artificiais (Jorge de Sena)


Os paraísos artificiais

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

[Jorge de Sena]

Passamos pelas coisas sem as ver (Eugénio de Andrade)


Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

[Eugénio de Andrade]

sábado, 4 de setembro de 2010

Uma breve história do Zé do Telhado



José do Telhado (José Teixeira da Silva) nasceu no lugar do Telhado, freguesia de Castelães de Recesinhos (Penafiel), a 22 de Julho de 1818.

  Foi um famoso salteador Português do século dezanove e era chefe da quadrilha mais famosa do Marão. Juntos levaram a cabo um grande número de assaltos em todo o norte de Portugal entre 1842 e 1859. É conhecido por "roubar aos ricos para dar aos pobres" e por isso muitos consideram-no como o Robin Hood portugês. Impedido de casar com uma prima, por 1836 alistou-se em Lisboa nos Lanceiros da Rainha, logo com o posto de sargento e alcançou fama na Revolta dos Marechais. Obtido o casamento com Anna Lentina, em 1845, logrou baixa do exército, e tiveram quatro filhos.

 Em 1846, interveio como liberal na Revolução da Maria da Fonte, sendo-lhe imposta a Ordem da Torre e Espada, por salvar o Visconde de Sá da Bandeira.

 Um ano depois, regressou a casa, após a Convenção de Gramido. Conheceu dificuldades com credores de dívidas e inimigos políticos, pelo que escapou para o Rio de Janeiro, e esteve no Rio Grande do Sul. Mas não de deu bem e, de volta, ingressou numa quadrilha do irmão, tendo chefiado vários assaltos com violência, ajudando porém a gente pobre.

 Em 1859, tentou nova fuga para o Brasil. Capturado já no barco e julgado no Porto, em 1861, conviveu na Cadeia da Relação com Camilo Castelo Branco. A cumprir degredo perpétuo em Angola, participou numa operação militar contra indígenas, pelo que lhe foi comutada a pena em 1865. Estabelecido como negociante de marfim em Sanza, juntou-se com uma indígena do Malange, vindo a falecer em 1875, e ali foi sepultado e venerado. Revelado por Camilo em Memórias do Cárcere, o Zé do Telhado inspirou a literatura de cordel, romances biográficos (Eduardo de Noronha, 1923), uma opereta e três filmes (Rino Lupo, 1929; Armando de Miranda, 1945-49).  

Quadras da minha solidão (Alda Lara)


Quadras da minha solidão

Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...

[Alda Lara]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Como se Estivesse Apaixonado


Como se Estivesse Apaixonado

"Para quem
não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer:"

Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.
Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante...

[Fernando Tavares Rodrigues]
1954 – 2006

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Poema dum Funcionário Cansado


Foto de:António Manuel Pinto da Silva


Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

[António Ramos Rosa]