sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Génesis

pintura de João Garção, "Génesis"


Génesis

De mim não falo mais : não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Oh transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê, só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.

[Jorge de Sena]

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Murmúrio

Murmúrio

Traz-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas
Vê, que nem te peço alegria.

Traz-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas dos ares:
Vê, que nem te peço ilusão.

Traz-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
Vê, que nem te digo: Esperança!
Vê, que nem sequer sonho…amor!

[Cecília Meireles]

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Homenagem a Cesário Verde

Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei, comeram-se sardinhas,
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um, o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios… ainda há poetas cá no país!

[Mário Cesariny]

domingo, 26 de setembro de 2010

Para a dedicação de um homem

Para a dedicação de um homem

Terrível é o homem em quem o senhor
desmaiou o olhar furtivo das searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina.
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida.
Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima.
A morte é a grande palavra para esse homem
não há outra que o diga a ele próprio.
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia

[Ruy Belo]

Testamento do Poeta

Testamento do Poeta

Todo esse vosso esforço é vão, amigos!
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos,  hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos
E ao meu próprio Deus nego e o ar me foge.

Para reaver porém, todo o Universo.
E amar! E crer! E achar meus mil sentidos!....
Basta-me o gesto de contar um verso.

[José Régio]

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Quem anda nos meus olhos ...

   “Os delírios de Dom Quixote” [ Henrique Alfonso Triviño ]

Quem anda nos meus olhos ...

Quem anda nos meus olhos
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos desvios nevoentos?

És tu D. Quixote , e vou matar-te.

Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
o frio de lâmina das tuas lágrimas

E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas,
à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo.

[José Gomes Ferreira]

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Doze moradas de silêncio

Doze moradas de silêncio

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje

[Al Berto]

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Escolha

Escolha


Entre vento e navalha escolho o vento

entre verde e vermelho aquele azul

que até na morte servirá de espelho

ao vento que por dentro me deslumbra

Entre ventre e cipreste escolho o Sol

Entre as mãos que se dão a que se oculta

Entre o que nunca soube o que já sobra

Entre a relva um milímetro de bruma.


[David Mourão-Ferreira]

sábado, 18 de setembro de 2010

Canção do Tempo

Canção do Tempo

Para um tempo que fica
Doendo por dentro
E passa por fora
Para o tempo do vento
Que é o contratempo
Da nossa demora
Passam dias e noites
Os meses...os anos
O segundo e a hora
E ao tempo presente
É que a gente pergunta
E agora...e agora

Tempo
Para pensar cada momento deste tempo
Que cada dia é mais profundo e é mais tempo
Para emendar pois outro tempo menos lento 

Tempo
Dos nossos filhos aprenderem com mais tempo
A rapidez que apanha sempre o pensamento
Para nascer, para viver, para existir
E nunca mais verem o tempo fugir

Ai...o tempo constante
Que a cada instante
Nos passa por fora
Este tempo candente
Que é como um cometa
Com laivos de aurora
É o tempo de hoje
É o tempo de ontem
É o tempo de outrora
Mas o tempo da gente
É o tempo presente
É agora...é agora

Tempo
Para agarrar cada momento deste tempo
E terminar em absoluto ao mesmo tempo
Em temporal como os ponteiros do minuto 

Tempo
Para o relógio bater certo com a vida
Que um homem bom, que um homem são, que um homem forte
Que não chegava a conseguir fazer partida
E que desperta adiantado para a morte

[José Carlos Ary dos Santos]

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Vaidosa

Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo por aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como umópio
Me matas, me desvairas e adormeces
És tão loira e doirada como as messes
E possuis muito amor... muito amor-próprio.

[Cesário Verde]

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O tempo

O tempo

Sujo
Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pús
Que trabalha ao serviço da infecção

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono, a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia

Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.

[Alexandre O'Neill]

16 de Setembro de 1951, Casamento dos meus Pais, foi há 59 anos.

       Saudades do tempo bom, em que todos fomos tão felizes!
"Saudade é a grande prova que o passado valeu a pena!"                                                 

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Se eu pudesse trincar a terra toda

Se eu pudesse trincar a terra toda

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se,
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

[Alberto Caeiro]

Estou vivo e escrevo sol

Estou vivo e escrevo sol

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol.
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro,
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol.
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida.
Melhor que beber vinho, é mais claro
ser no olhar o próprio olhar,
a maravilha é este espaço aberto.
a rua,
um grito,
a grande toalha do silêncio verde!

[António Ramos Rosa]

terça-feira, 14 de setembro de 2010

António Moreira da Silva - Fado do Campino

António Moreira da silva " Volta ao Cais Maria"

António Moreira da Silva - Para que eu te Possa Amar

António Moreira da silva - Meio dia da vida

Senhora do Almurtão (Inédito)


Senhora do Almurtão,
Oh dona de Idanha-a-Nova!
Vosso escravo quero ser
Desde o berço, até à cova

Senhora do Almurtão,
Dizei-me cá um segredo,
Se o meu amor, me não quer..
Se foge de mim com medo…

Senhora do Almurtão,
Pedi ao vosso menino,
Que entre eu no coração,
De quem está no meu destino!

Senhora do Almurtão,
Da Idanha, a Padroeira,
Emprestei o coração,
Não mo deram, na zebreira…
.
Senhora do Almurtão,
Rosa branca de veludo:
Tanto quanto se vos peça
Vós, Senhora fazeis tudo!

Senhora do Almurtão,
Oh, que Senhora tão bela!
Por nós vosso coração,
Faz de sino na capela…

Senhora do Almortão,
Quem me dera agora e sempre,
Ter no meio do coração
Quem trouxeste vós, no ventre!!!

[José Alberto Miranda Boavida (Dinis Diogo)]

Amtónio Moreira da Silva - "Oh! Fado Reza por Mim"

Ai Flores do Verde-Rey


Para a memória removo
Tudo o que sei e não sei
Vou-me à história a’junto o povo
Que de novo aclame o rei
E vem o rei ter comigo
Vem fascinar-me outra vez
Entre cantigas de amigo
E trovas de amor cortês
Vem talhar-nos o caminho
Rasgá-lo de lés a lés
Conquistar mato maninho
Pra lavouras e marés

Graças ao ritmo e à rima
Inspirou paz e sossego
Trepou pl’o sonho acima
E ganhou-lhe tal apego
Que lançou capa e batina
Sobre os ombros do mondego
O plantio azul marinho
Inda’gora jaz de pé
Ai flores do verde pinho
Dizei, dizei-me baixinho
El-Rei , ai Deus iué

Verdejam vale montanha
Lá vai mastro lá proa
Já na terra o mar se banha
E a Desenha e a Coroa
Já o Céu nos acompanha
E de Velas se povoa
Toda a alma do Pessanha
Port-voz da de Pessoa
Porque não vem ter comigo
Não comparece outra vez
Entre cantigas de amigo
E Trovas de Amor cortês

[Rodrigo Emilio]

António Moreira da Silva - "As minhas Penas"

A Secreta Viagem



No barco sem ninguém, anónimo e vazio
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

[David Mourão-Ferreira]

Madrugada



Já vem rompendo ao longe a madrugada
Nas sombras da calada noite escura
Vem num manto de estrelas, embrulhada
Criança sempre em flôr e de alma pura

E a noite se afastou silenciosa
Escondida nos segredos do pecado
E a madrugada vem tão carinhosa
Para apagar um mal sempre lembrado

Dorme a noite perdida nas vielas
Embalando um queixume doloroso
No espaço há vozes tristes e singelas
Correndo atrás de um sonho mentiroso

Bendita sejas tu, oh madrugada!
Em tua luz se acende um novo dia
Das cinzas morre a noite embriagada
Num fogo, onde só arde a fantasia

[Guilhermina Frazão]

António Moreira da Silva - Guitarra Triste