sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poema Enjoadinho

Poema Enjoadinho

Filhos
... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio

Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete ...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois que boa
Que morenaça
Que a esposa fica!
Resultado: filhos.

E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.

Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los ...

Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que maciez
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne

Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

[Vinicius de Moraes]

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Versos de orgulho

Versos de orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
tem asas como eu tenho ! Porque Deus
me fez nascer Princesa entre plebeus
numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além ...
porque trago no olhar os vastos céus
e os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
O jardim dos meus versos todo em flor ...
a seara dos teus beijos, pão bendito ...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ...
são os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

[Florbela Espanca]

sábado, 9 de outubro de 2010

Mar

Mar

Na melancolia de teus olhos
eu sinto a noite se inclinar
e ouço as cantigas antigas
do mar.

Nos frios espaços de teus braços
eu me perco em carícias de água
e durmo escutando em vão
o silêncio.

E anseio em teu misterioso seio,
na atonia das ondas redondas,
náufrago entregue ao fluxo forte
da morte.

[Vinicius de Moraes]

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poema do Silêncio

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais, ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, manietado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem e meus lábios cerrarão como dois muros
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

[José Régio]

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Casa na chuva

Casa na chuva


A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.

Não sei por que voltou esta tarde

se minha mãe já se foi embora,

já não vem à varanda para a ver cair,

já não levanta os olhos da costura

para perguntar: - Ouves?

- Oiço Mãe, é outra vez a chuva,

a chuva sobre o teu rosto,

de Escrita da Terra


[Eugénio de Andrade]

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O canteiro está molhado

O canteiro está molhado

O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças...

[Cecília Meireles]

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fábula da fábula

Fábula da fábula

Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
e moralizadora,
que, em verso e prosa,
Toda gente
Inteligente,
Prudente
e sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
e aos bisnetos.
À base duns insectos,
de que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.

E realmente...
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

[Miguel Torga]

domingo, 3 de outubro de 2010

Outono

Outono

    Uma lâmina de ar, atravessando as portas.
    Um arco, uma flecha cravada no Outono e a canção
    que fala das pessoas, do rosto e dos lábios das pessoas.
    E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
    uma amarra, à espera do mar esperando o silêncio.
    É Outono, uma mulher de botas atravessa-me a tristeza,
    quando saio para a rua molhado como um pássaro.
    Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
    da minha revolta última ou do teu nome que repito.
    Hoje há soldados, eléctricos, uma parede cumprimenta o sol.
    Procura-se viver, vive-se de resto em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
    há homens e mulheres, que compram o jornal e amam-se
    como se de repente, não houvesse mais nada, senão
    a imperiosa ordem de (se) amarem.
    Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
    Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
    Não há um nome para a tua ausência.
    Há um muro que os meus olhos derrubam.
    Um estranho vinho que a minha boca recusa.
    É Outono, a pouco e pouco despem-se as palavras.

[Joaquim Pessoa]

sábado, 2 de outubro de 2010

A morte da água


 
Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a Esposende ver desaguar o cávado.
 Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege.
 Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore geneológica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável, é o anonimato!
 E a todo o momento há água que se lança nessa aventura.
 Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos.
 Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia e é em Esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos.
  Impossível voltar atrás, agora é a morte ou a vida.

[Ruy Belo]

Serge Reggiani - Le Déserteur

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Auto-Retrato

Ismael Nery (Auto-Retrato)

Auto-Retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos,
bom artesão na arte da proveta,
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância,
com toucinho e talento ambas partes,
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã,
que é verde como a esperança, que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate,
palavrão de machão no escaparate,
porém morrendo aos poucos de ternura.

[José Carlos Ary dos Santos]

Génesis

pintura de João Garção, "Génesis"


Génesis

De mim não falo mais : não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Oh transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê, só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.

[Jorge de Sena]

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Murmúrio

Murmúrio

Traz-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas
Vê, que nem te peço alegria.

Traz-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas dos ares:
Vê, que nem te peço ilusão.

Traz-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
Vê, que nem te digo: Esperança!
Vê, que nem sequer sonho…amor!

[Cecília Meireles]

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Homenagem a Cesário Verde

Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei, comeram-se sardinhas,
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um, o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios… ainda há poetas cá no país!

[Mário Cesariny]

domingo, 26 de setembro de 2010

Para a dedicação de um homem

Para a dedicação de um homem

Terrível é o homem em quem o senhor
desmaiou o olhar furtivo das searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina.
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida.
Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima.
A morte é a grande palavra para esse homem
não há outra que o diga a ele próprio.
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia

[Ruy Belo]

Testamento do Poeta

Testamento do Poeta

Todo esse vosso esforço é vão, amigos!
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos,  hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos
E ao meu próprio Deus nego e o ar me foge.

Para reaver porém, todo o Universo.
E amar! E crer! E achar meus mil sentidos!....
Basta-me o gesto de contar um verso.

[José Régio]

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Quem anda nos meus olhos ...

   “Os delírios de Dom Quixote” [ Henrique Alfonso Triviño ]

Quem anda nos meus olhos ...

Quem anda nos meus olhos
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos desvios nevoentos?

És tu D. Quixote , e vou matar-te.

Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?

És tu D. Quixote, e vou matar-te.

Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
o frio de lâmina das tuas lágrimas

E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas,
à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo.

[José Gomes Ferreira]

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Doze moradas de silêncio

Doze moradas de silêncio

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje

[Al Berto]

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Escolha

Escolha


Entre vento e navalha escolho o vento

entre verde e vermelho aquele azul

que até na morte servirá de espelho

ao vento que por dentro me deslumbra

Entre ventre e cipreste escolho o Sol

Entre as mãos que se dão a que se oculta

Entre o que nunca soube o que já sobra

Entre a relva um milímetro de bruma.


[David Mourão-Ferreira]

sábado, 18 de setembro de 2010

Canção do Tempo

Canção do Tempo

Para um tempo que fica
Doendo por dentro
E passa por fora
Para o tempo do vento
Que é o contratempo
Da nossa demora
Passam dias e noites
Os meses...os anos
O segundo e a hora
E ao tempo presente
É que a gente pergunta
E agora...e agora

Tempo
Para pensar cada momento deste tempo
Que cada dia é mais profundo e é mais tempo
Para emendar pois outro tempo menos lento 

Tempo
Dos nossos filhos aprenderem com mais tempo
A rapidez que apanha sempre o pensamento
Para nascer, para viver, para existir
E nunca mais verem o tempo fugir

Ai...o tempo constante
Que a cada instante
Nos passa por fora
Este tempo candente
Que é como um cometa
Com laivos de aurora
É o tempo de hoje
É o tempo de ontem
É o tempo de outrora
Mas o tempo da gente
É o tempo presente
É agora...é agora

Tempo
Para agarrar cada momento deste tempo
E terminar em absoluto ao mesmo tempo
Em temporal como os ponteiros do minuto 

Tempo
Para o relógio bater certo com a vida
Que um homem bom, que um homem são, que um homem forte
Que não chegava a conseguir fazer partida
E que desperta adiantado para a morte

[José Carlos Ary dos Santos]