quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Eu nunca guardei rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos
                    
Eu nunca guardei rebanhos,
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

[Alberto Caeiro / Fernando Pessoa]

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Como Queiras, Amor ...

Como Queiras, Amor ...

Como queiras Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba
e nada, não! Ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
e tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de mal contente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda e me deseja
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
A tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárnio, ou pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, Amor, como tu queiras.

[Jorge de Sena]


domingo, 31 de outubro de 2010

Coração sem imagens

Coração sem imagens

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e  inventei-te.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

[Raul de Carvalho]



O Nosso Mundo é Este ...

O Nosso Mundo é Este ...

O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.

Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.

Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…

Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…

Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.

Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…

O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.

E se soubessem, dariam flor?

Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.

O nosso mundo é este….

( Mas há-de ser outro.)

 [José Gomes Ferreira]

http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/josegomesferreira.html

sábado, 30 de outubro de 2010

Quarto de Pensão

Marina Colasanti


Quarto de Pensão

Sou pensionista da vida.
Na mesma tábua em que durmo
Escrevo meu trabalho
E ela farfalha, embora já sem folhas,
Só da lembrança de ter sido tronco.
Tenho uma pia no canto,
Que goteja
E é meu lago, meu rio, meu
Fundo mar.
Tenho um rijo cabide
À cabeceira
Para dependurar a pele
A cada noite.
Me dão café com pão, e às vezes
Algum vinho.
Dizem que só paguei meia pensão.

Há uma fome indistinta que me habita
Enquanto o medo
Com felpudos passos
Percorre o labirinto das entranhas.
Mas agradeço essas quatro paredes
E que me tenham dado uma janela.
Pois sei que a qualquer hora
Sem possibilidade de recurso
E talvez mesmo sem aviso prévio
Serei intimada
A devolver o quarto.

[Marina Colasanti]


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Intangível

 [A poeta Elly Ramos]


Intangível

Invento canções com toques suaves

Deslizam meus dedos entre notas indefiníveis
E danço no sopro de vento com os pés descalços
Entrelaço no laço de cetim do vestido branco
Imperiosos são meus movimentos
Que braços abraçam o invisível de meus pensamentos?
Rasgo-me, extravaso meus sentimentos
Mas, na matriz, jaz o intangível.

[Elly Ramos - Raros Poemas à Sua Procura, 2009, p.19]

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Vozes do Mar

Vozes do Mar

Quando o sol vai caindo sob as águas,
Num nervoso delíquio d´ouro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, oh mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d´epopeias? Tens anseios
D´amarguras? Tu tens também receios,
Oh mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, oh mar amigo?…
…Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

[Florbela Espanca]

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mas que sei eu...


Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha qualquer.

Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

[Ruy Belo]

Quase nada

Quase nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

[Eugénio de Andrade]

terça-feira, 26 de outubro de 2010

(Com)Passos

     (Com)Passos

    Como compassos
    abrem-se em passos maiores
    apressadas, inquietas,
    sóbrias, nuas, indiscretas,
    lânguidas, em lentos passos,
    por avenidas, esquinas, corredores,
    as duas pernas da mulher.
    Secreto o centro que as une
    e as afasta
    mantendo aceso o lume
    desse calor que as não gasta.

    Deixam rastos, desenhos, arabescos
    pelas calçadas, ruas e passeios,
    se nos prometem na cor dos lábios frescos
    a sombra nua da rosa dos seus seios.
    Como se cruzam e se abrem em desafio,
    como convidam, sem silencio, se ela quer
    a esse galope, às vezes terno, às vezes frio
    à rédea solta rumo ao centro da mulher.
    Marcam  a andar, o ritmo do Universo,
    do coração conhecem a rotina.
    Por uma flor, às vezes por um verso
    da pura e casta desperta a libertina.

    Compasso vivo, metrónomo complexo
    que marca o tempo e o andamento do prazer,
    chama-se amor ou profissão ou apenas sexo,
    seja ela amante, prostituta ou só mulher.

     [Fernando Tavares Rodrigues]

7 de Março de 1954 – 1 de Março de 2006

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Só Assim Será Poema

Só Assim Será Poema

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.

Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.

Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

[Hélia Correia]

domingo, 24 de outubro de 2010

Ode à Poesia

Ode à Poesia

Perto de cinquenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
Emaranhavas-me os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde apertaste-te
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir-te derramando sem que te consumisses,
ir entregando a tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caía sobre um coração queimado
que das suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
pus-te a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
As tuas mãos
foram duras como pedras.
O teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
ajudaste-me
a não cair de bruços,
deste-me companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e ri-me quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela quotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou a tua família,
cumpriste a tua tarefa,
o teu passo entre os passos dos homens.
Pedi-te que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste na minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

[Pablo Neruda]

sábado, 23 de outubro de 2010

Poema do alegre desespero

Poema do alegre desespero

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto:
o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império,
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil
e o Estrabão, o Artaxerpes e o Xenofonte e o Heraclito
e o desfiladeiro das Termópilas e a mulher do Péricles e a retirada dos dez mil
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio
 e passavam a vida inteira a fazer guerras
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio
e o resto tudo por aí fora
e a Guerra dos Cem Anos
e a Invencível Armada
e as campanhas de Napoleão
e a bomba de hidrogénio
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

[António Gedeâo]

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Guardador de rebanhos X

X

Olá, guardador de rebanhos,
aí à beira da estrada,
que te diz o vento que passa?

Que é vento e que passa
e que já passou antes
e que passará depois.
E a ti o que te diz?

Muita coisa mais do que isso,
fala-me de muitas outras coisas.
De memórias e de saudades
e de coisas que nunca foram.

Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira.
E a mentira está em ti.

[Alberto Caeiro]