quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Amor que morre

Impression: Sunrise [1873], Claude Monet


Amor que morre

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos pra partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!

[Florbela Espanca]

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Não sei porque razão o mundo se inquieta

YAMASHITA Masao

Não sei porque razão o mundo se inquieta
quando estamos sozinhos.
Talvez não saiba que esgotámos os olhos
 no rigor dos espelhos e que por isso,
não somos capazes de traçar um caminho
 senão para o evitarmos.

Na verdade, se cai a noite,
 estiolam-se as aventuras entre nós
o teu silêncio respira longamente, às vezes
paira sobre as dunas do meu corpo a conspirar,
como um tear de nuvens a fiar tempestades
ou um vento salgado a prometer naufrágios,
mas nunca converte o assomo numa história.

Não sei porque se aflige tanto o mundo
se ficamos sozinhos.
Talvez ignore que nós não somos mar
 de nenhuma praia, que escolhemos
 poupar às falésias as cicatrizes
das ondas e tudo para não aprendermos
o verdadeiro nome das feridas.

[Maria do Rosário Pedreira]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Versos desencontrados

Versos desencontrados

Em nada ou em ninguém eu deveria acreditar!
Nem no amor, nem na vida.
 - As ilusões, mesmo até quando vêm disfarçadas
e já conhecem o cliente, hesitam e chegam a partir envergonhadas...
 -As ilusões também têm os seus mais preferidos;
E àqueles que ficaram na ruína do pensamento
 e são - por graça de conquista
os pálidos mortais desiludidos.
A esses já não correm muito afoitas
Na mentira das grandes fantasias!
- É por isso que eu hoje ainda vivo
à margem das ridículas tragédias
que lemos nos jornais todos os dias.

Atulham-se os presídios no degredo,
Atados à saudade vão ficando,
- Como lesmas ao luar, esses que matam
e pelo amor tombaram na desgraça:
- Um sonho, um beijo, uma mulher que passa!
Só a guitarra os lembra ao triste fado
nos ecos diluídos e chorosos
e fundos do lusíada, coitado!
Eu olho para tudo que enxameia
nesta viela escura da existência,
como quem se debruça num abismo
e fica revolvendo a consciência
na tristeza infinita de um olhar!... 
- A humanidade é vil e o seu egoísmo
tem base na vileza de vexar.

Sim!
Por qualquer coisa os homens tudo vendem:
Palavra, dignidade, a própria vida,
só porque desconhecem a doutrina
bendita de Jesus; - esse tesoiro,
essa fonte de luz onde aprendi
a ser leal e amigo e a respeitar
aquela, que nos risos do meu lar,
desembaraça os fios de uma queixa,
no mistério que cinge o verbo amar.

Mas quando um ano acaba e outro vem,
embora a minha fronte e os meus cabelos
envelheçam, na marcha para o fim
e um sabor de renúncia e de cansaço,
vibre, cantando, aqui dentro de mim.

Rebenta-me no peito uma esperança,
tão lúcida, tão viva e tão ungida
na fé que ponho, erguendo a minha prece -
que peço a Deus do fundo da minha alma,
que a todos os que sofrem neste mundo,
dê o conforto de uma vida calma.



[António Botto]

À flor da pele

À flor da pele


Toco, teço e entrelaço
Com dedos de descobrir
Lanço redes num abraço
À flor da pele me desfaço
Na vertigem de sentir
Tudo é matéria, se é tempo
De epidérmicas razões
Danço num sopro de vento
Rasga-me cada tormento
Gelam, queimam, emoções

E todavia, invisível
Eterno e primordial
Corre o rio do intangível
Imperioso, indefinível
Matriz de tudo, afinal

[Ana Vidal]

domingo, 7 de novembro de 2010

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha... Oh! Venha e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és e glória e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

[Manuel Maria Barbosa Du Bocage]

Recordação

Recordação

E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida,
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.           

[Rainer Maria Rilke]

sábado, 6 de novembro de 2010

Último Tesão

Último Tesão

 Alombo contigo há uma porção de anos
 e vou-te dizer és um chato
 não tens ponta de paciência
 para a vida nem para ti próprio

 já te ouvi discursos a mandar vir
 já te carreguei às costas
 bêbedo como um Baco de aldeia
 mijando as ceroulas
 és um adolescente retardado
 faltou-te sempre a quadra do bom senso

 vez por outra um livrinho
de versos vez por outra nada
qualquer um do teu tempo
está bastante melhor do que tu
deputado administrador de empresa
ministro da maioria
puta (algumas chegaram a isso)

 só tu meu inocente brincas com a neta
 açulas o cão pedindo
 à família que te ature
 o tipo um dia destes morde-te
 que é para aprenderes

  mas aqui entre amigos
 vou-te dizer também
 uma coisa importante, não cedas
 à tentação de mudar

fica nesta pele que é tua

 como é que tu escrevias?
merdalhem-se uns aos outros

 o país mete dó

 guarda o último tesão
 para mandares
 meia dúzia de canalhas à tabua 

[Fernando Assis Pacheco]

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Fado para a Lua de Lisboa

Galeria de abriwin ( flickr do Yahoo)

Fado para a Lua de Lisboa

Oh Lua, espelho do chão
que andas no céu pendurado,
holofote da ilusão
pelo turismo alugado,
não ilumines em vão
os sulcos do empedrado!

Denuncia nas valetas
as sombras que tu arrastas:
prostitutas, proxenetas,
silhuetas de pederastas...
Colos brancos. Rendas pretas.
Casas tortas. Pedras gastas.

As rugas do sobressalto,
Oh Lua não as destruas!
Tu viste carros de assalto
rondarem por estas ruas;
viste rolarem no asfalto
vestes mais alvas que as tuas.

Foste a lua a que se expunha
aos tiros a multidão;
espelhaste na tua unha
a secular aflição;
e já foste testemuha
dos fogos da Inquisição.

Procissões do Santo Ofício...
Fileiras de condenados...
À noite, nem só o vício
rasteja por estes lados:
as serpentes do suplício
silvam nos pátios murados...

Oh Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assistas!
Não queiras passar ao lado
da desgraça que visitas!
Nem queiras ser infamado
passatempo de turistas!

Clorofórmio dos enfermos,
se foges dos hospitais,
então recolhe-te aos ermos
desertos celestiais!
E quando te não merecermos
não te acendas nunca mais!

 [David Mourão-Ferreira]

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Eu nunca guardei rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos
                    
Eu nunca guardei rebanhos,
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

[Alberto Caeiro / Fernando Pessoa]

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Como Queiras, Amor ...

Como Queiras, Amor ...

Como queiras Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba
e nada, não! Ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
e tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de mal contente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda e me deseja
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
A tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárnio, ou pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, Amor, como tu queiras.

[Jorge de Sena]


domingo, 31 de outubro de 2010

Coração sem imagens

Coração sem imagens

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e  inventei-te.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

[Raul de Carvalho]



O Nosso Mundo é Este ...

O Nosso Mundo é Este ...

O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.

Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.

Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…

Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…

Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.

Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…

O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.

E se soubessem, dariam flor?

Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.

O nosso mundo é este….

( Mas há-de ser outro.)

 [José Gomes Ferreira]

http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/josegomesferreira.html

sábado, 30 de outubro de 2010

Quarto de Pensão

Marina Colasanti


Quarto de Pensão

Sou pensionista da vida.
Na mesma tábua em que durmo
Escrevo meu trabalho
E ela farfalha, embora já sem folhas,
Só da lembrança de ter sido tronco.
Tenho uma pia no canto,
Que goteja
E é meu lago, meu rio, meu
Fundo mar.
Tenho um rijo cabide
À cabeceira
Para dependurar a pele
A cada noite.
Me dão café com pão, e às vezes
Algum vinho.
Dizem que só paguei meia pensão.

Há uma fome indistinta que me habita
Enquanto o medo
Com felpudos passos
Percorre o labirinto das entranhas.
Mas agradeço essas quatro paredes
E que me tenham dado uma janela.
Pois sei que a qualquer hora
Sem possibilidade de recurso
E talvez mesmo sem aviso prévio
Serei intimada
A devolver o quarto.

[Marina Colasanti]


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Intangível

 [A poeta Elly Ramos]


Intangível

Invento canções com toques suaves

Deslizam meus dedos entre notas indefiníveis
E danço no sopro de vento com os pés descalços
Entrelaço no laço de cetim do vestido branco
Imperiosos são meus movimentos
Que braços abraçam o invisível de meus pensamentos?
Rasgo-me, extravaso meus sentimentos
Mas, na matriz, jaz o intangível.

[Elly Ramos - Raros Poemas à Sua Procura, 2009, p.19]

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Vozes do Mar

Vozes do Mar

Quando o sol vai caindo sob as águas,
Num nervoso delíquio d´ouro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, oh mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d´epopeias? Tens anseios
D´amarguras? Tu tens também receios,
Oh mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, oh mar amigo?…
…Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

[Florbela Espanca]

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mas que sei eu...


Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha qualquer.

Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

[Ruy Belo]

Quase nada

Quase nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

[Eugénio de Andrade]