domingo, 12 de dezembro de 2010

Eu Sou Português Aqui

José Fanha visto pelos alunos da EB1 de Modivas -Vila do Conde


Eu Sou Português Aqui

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.


[José Fanha]

Litania para este Natal

Litania para este Natal

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo

[David Mourão-Ferreira]


sábado, 11 de dezembro de 2010


Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!...

As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas

Só a triste, coitadinha...
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha ...

Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua...
E fico a chorar com ela! ...

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Andam palavras na noite

gravura de: neuraurbana 

Andam palavras na noite

Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.


Eu sou um grande oceano
Que só fala a voz do mar!
Mas já sinto o mar cansado
De pedir o luar ao céu
Que a noite não lhe quer dar!

[Natália Correia]


Sem que Soubesses

Sem que Soubesses

Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.

[Fernando Assis Pacheco]

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Parasitas

Parasitas

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos
Exploravam assim a flor do sentimento
E o monstro arregalava os grandes olhos baços
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz
Que andais pelo universo há mil e tantos anos
Exibindo, explorando o corpo de Jesus

[Guerra Junqueiro]

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Não Vale a Pena Pisar



Não Vale a Pena Pisar

O capim não foi plantado
nem tratado e cresceu.
É força, tudo força
que vem da força da terra.
Mas o capim está a arder
e a força que vem da terra
com a pujança da queimada
parece desaparecer…
Mas não, basta a primeira chuvada
para o capim reviver.

[Manuel Rui]




Há uma Mulher a Morrer Sentada

Há uma Mulher a Morrer Sentada

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
e está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens

[Daniel Faria]

À Virgem Santíssima

À Virgem Santíssima

Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há, na natureza...

Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!

[Antero de Quental]

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A arte de ser feliz

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
 Era uma época de estiagem, de terra esfarelada e o jardim parecia morto.
 Mas todas as manhãs, vinha um pobre com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. 
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
 E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
 Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor, outras vezes encontro nuvens espessas, avisto crianças que vão para a escola, pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
 Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
 Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
 Ás vezes, um galo canta, ás vezes, um avião passa. 
 Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino e eu me sinto completamente feliz.
 Mas quando falo, dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, 
que é preciso aprender a olhar 
para poder vê-las assim.

[Cecília Meireles]

Cala-te, a luz arde entre os lábios...

Cala-te, a luz arde entre os lábios

Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla
sempre, o amor procura,
tacteia no escuro,
essa perna é tua? esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua,
morreria agora se mo pedisses.
Dorme,
nunca o amor foi fácil,
nunca, também a terra morre.

[Eugénio de Andrade]

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Praia do Paraíso

Praia do Paraíso

Era a primeira vez
Que nús os nossos corpos
Apesar da penumbra à vontade se olhavam
Surpresos de saber que tinham tantos olhos
Que podiam ser luz de tantos candelabros

Era a primeira vez cerrados os estores
Só o rumor do mar permanecera em casa
E sabias a sal, e cheiravas a limos
Que tivesses ouvido o canto das cigarras

Havia mais que céu no céu do teu sorriso
Madrugada de tudo em tudo que sonhavas
Em teus braços tocar era tocar os ramos
Que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo

É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
Para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

[David Mourão-Ferreira]

Mãe, eu estou tão Cansado

Mãe, eu estou tão Cansado

Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos
o chamamento da água, o chamamento sibilino
que se confunde com o ranger das portas das casas
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz
de me resgatar e que dentro dele se perfilem
as sombras e os gestos, exército dos meus medos
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida
das camas.
Mãe, a luz não se demora no meu quarto
morre nas corolas das flores que trouxeste
para o riso não murchar e eu fico doente só de olhar
os muros onde a hera é espiral de espanto, raiz
de uma enfermidade latente.
Não voltarei
às actas do desespero, que são sombrias e magras
como os corpos dos amantes que definham sobre a areia
na fúria da maré, com uma gramática de murmúrios
escondida na solidão branca das dunas, mãe.

[José Jorge Letria]

Mãe, tu sabes que é verdade.

domingo, 5 de dezembro de 2010

O MOSTRENGO

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar
A roda da nau voou três vezes
Voou três vezes a chiar

E disse: - Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?
E o homem do leme disse, tremendo:
- El-Rei D. João Segundo!
De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?
Disse o mostrengo e rodou três vezes
Três vezes rodou imundo e grosso.

Quem vem poder o que só eu posso
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?
E o homem do leme tremeu e disse:
- El-Rei D. João Segundo!
Três vezes do leme as mãos ergueu
Três vezes ao leme as reprendeu

E disse no fim de tremer três vezes:
- Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo
Manda a vontade, que me ata ao leme
De El-Rei D. João Segundo!

                                                                                      
[Fernando Pessoa]

Chove. Há Silêncio



Chove. Há Silêncio

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

[Fernando Pessoa]

sábado, 4 de dezembro de 2010

Impressão digital

Impressão digital

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente
uns vêem pedras pisadas
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.

Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

[António Gedeão]

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Poema Melancólico a não sei que Mulher

Poema Melancólico a não sei que Mulher

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido.
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos
Conto as desilusões no rol do coração
Recordo o pesadelo dos desejos
Olho o deserto humano desolado
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

[Miguel Torga]

Um hino à Amizade


A minha Amiga Patolas

Um hino à Amizade

Depois que fiquei sem a minha Mãe, o mundo desabou. Ela era de facto, a minha Família.
 Nesta altura do campeonato, quando estamos fragilizados, não faltam “mãos amigas”, só que o Pai Natal, não entra em nossa casa montado no seu trenó e o Natal …..sinceramente não existe.
 Existe para o pingodoce, leopoldina…e para as pessoas que não conseguem sustentar  a amizade ao longo do ano e usam o Natal, para mostrar que são “boazinhas”. 
 Se Jesus nascesse de novo, o ser-humano voltaria a matá-lo, desta vez de forma mais requintada, podem crer.
 Mas no ano passado, tive uma grande prova de amizade: A minha Amiga Patolas.
Digo amiga, porque era mesmo Amiga, de quem a Patolas não gostava, mordia na canela, no seu caso era mais o calcanhar. 
 Foram sete meses, que vivi naquela casa (a Patolas era a cadela da senhoria) que tive das maiores provas de afecto de um ser, dito irracional e que não pedia nada em troca: A minha Amiga Patolas.
 Foi a Patolas, que me fez companhia no 1º Natal que passei sem a minha Mãe. 
 Foi a Patolas, que me fez passar um Natal sereno e sem revolta.
Já não moro naquela casa e nunca mais a vi...saudades da Patolas, Amiga da minha vida.

Perdigão perdeu a pena

Perdigão perdeu a pena

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado
E vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

[Luís Vaz de Camões]

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

P O R T U G A L

Portugal

Oh Portugal, se fosses só três sílabas
linda vista para o mar
Minho verde, Algarve de cal
jerico rapando o espinhaço da terra
surdo e miudinho
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e afinal, amigo
se fosses só o sal, o sol, o sul
o ladino pardal
o manso boi coloquial
a rechinante sardinha
a desancada varina
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos
o ferrugento cão asmático das praias
o grilo engaiolado, a grila no lábio
o calendário na parede, o emblema na lapela
oh Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã
não há papo-de-anjo que seja o meu derriço
galo que cante a cores na minha prateleira
alvura arrendada para o meu devaneio
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo
golpe até ao osso, fome sem entretém
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes
rocim engraxado
feira cabisbaixa
meu remorso
meu remorso de todos nós...

[Alexandre O'Neill]




À memória de Fernando Pessoa

À memória de Fernando Pessoa

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente
Falar-me nessa lúcida visão
Estranha, sensualíssima, mordente
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses
Meu pobre e grande e genial artista
O que tem sido a vida, esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas
Tristíssima, pedante e contrafeita
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão.
Se eu pudesse, Fernando e tu me ouvisses
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos
As noites sempre iguais, os mesmos dias
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar
Num cântico de sonho. E junto dele
Do camarada raro que lembramos
Fiquemos uns momentos a cantar!


[António Botto]

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A neve

A neve

A neve pôs uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso
e adormeço sem menos utilidade que todas as acções do mundo.

[Alberto Caeiro]

terça-feira, 30 de novembro de 2010

„ I do not know, what tomorrow will bring !”

„ I do not know, what tomorrow will bring !”

foram as últimas palavras que o Poeta escreveu.


30 de Novembro de 1935, o dia e o ano da morte de Fernando António Nogueira Pessoa. Foi há 75 anos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele.
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado.
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte.
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:

É estar ao lado da escala social.
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida .
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer; operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente,
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma, sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: Sou lúcido.

Já disse: Sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido!

[Álvaro de Campos]

domingo, 28 de novembro de 2010

Os Amantes de Novembro


Os Amantes de Novembro

Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.

Alexandre O'Neill