sábado, 1 de janeiro de 2011

P I N H A L do R E I


Pinhal do Rei

Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.


Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu;
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhe deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
em naus, erguida, levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar!

Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade,
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os aléns
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar.

[Afonso Lopes Vieira]

R É V E I L L O N

Réveillon

A noite feita de copos
encontrou-a virgem pura
distribuindo uvas
gritando imprudente:
— Feliz Ano Novo!

Depois desejou uma nuvem
caminhou na esteira da lua
ouviu o canto da pedra
bebeu o hálito do orvalho
chorou o anil do branco
e ao desprender-se da janela
contraiu núpcias com o ano que findou.

[Beatriz Alcântara]


sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Foz do Tejo Um País


O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.
                                                                                  
[Fiama Hasse Pais Brandão]

Depois da Vida

Depois da Vida

Quando meu coração, parar desfeito
Em sombra, na profunda sepultura
E o meu corpo, espectral e já perfeito
Divagar entre o Olimpo e a terra dura
Quando sentir, enfim, todo o meu peito
A converter-se em luminosa altura
Eu, aquele fantasma, o claro eleito
O enviado da vida à morte escura
Ah, quando, em mim, eu for minha esperança!
Meu próprio ser, divino e redimido
E minha sombra apenas por lembrança
Bem longe, em outro mundo transcendente
À luz dum sol jamais anoitecido
Serei contigo, amor, eternamente.

[Teixeira de Pascoaes]

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

C O N F I S S Ã O

Confissão

Entre números
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.

Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados

Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.

E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.

[Fernando Tavares Rodrigues]

I N D I F E R E N Ç A

Indiferença

Ora dize-me a verdade:
Tu já sentiste por mim
Uma sombra de saudade,
De amor, de ciúme, enfim,
Uma impressão que indicasse
Haver em teu coração
Fibra, corda que vibrasse,
A minha recordação?
Parece, mas o contrário
Sim o que devo supor
É deserto e solitário
O teu coração de amor!
Não digo por outro, invejo
Talvez a sorte de alguém...
Mas o que eu sei, o que eu vejo,
É que me não queres bem!

[João de Deus]



Os ombros suportam o mundo

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espectáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

[Carlos Drummond de Andrade]

por outro lado...

Por outro lado

Tem poeta fingidor
fingindo tão completamente
que chega a fingir-se autor
do verso que a outro pertence...

<II>

Desencanto

Não seria
Bela Adormecida
se sonhasse um dia
 retornar
 à vida.

 <II>

Itinerários

Especializei-me
em rotas de colisão.
Depois aprendi..
a dar a volta por cima.


[João Luiz Pacheco Mendes]

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Minha Aldeia

Minha Aldeia

Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
ângulo novo, nova ideia
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.

[António Gedeão]

Na Mão De Deus

Na Mão De Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

[Antero de Quental]

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Mulher Que Açoitou O Marido

Mulher do capelista, acaba a empresa
Que o mundo sem razão chamou tirana
Vai açoitando esse infeliz banana
Nódoa do sexo, horror da natureza

 A vil rapaziada portuguesa
Com falsa cantilena o povo engana
Nem coifas inventaste à castelhana
Nem as vastas fivelas à maltesa

De mais invenção é bem te prezes
Legislando melhor que Tito, ou Numa
Emendaste uma lei dos Portugueses:

 Não padece isto dúvida nenhuma
A lei açoita a quem casar duas vezes
Tu mostras que contigo basta uma.

[Nicolau Tolentino]

E L E G I A

Elegia

Só tu que
não existes
Me dás calma.
Porque não tens alma,
Porque não consistes.

Mesmo quando voltas
- tu que não estiveste-
não me trazes nada;
nem mesmo o calor
da chama apagada.

Porque não te tenho
E vivo contigo,
Porque não te quero
Nem sou teu amigo
Deixa-me o teu corpo:
Ânfora vazia,
Vinho de ciúme.
Deixa-me o que fui
- o meu eco em ti...

[Fernando Tavares Rodrigues]

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Morte Pensada


Experimentei a Morte na cabeça
(No coração, só se ele parasse).
Mas, por mais que a conheça
Não se pensa a Morte: dá-se.
Que a Morte não é ser, sendo ela tudo,
Nem pessoa será, que tantas leva:
É um lá ou além, último som agudo
A que não chega a voz do vivo.
Nem chove ou neva.
Onde campa é a terra de ninguém.
Não morremos sequer: matamos a alma
Enternecida pelo corpo terno,
E ela lá vai, sua alma sua palma,
Que nem morre no Inferno.

[Vitorino Nemésio]

As Pessoas Sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem!

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


domingo, 26 de dezembro de 2010

Começa a haver meia-noite e a haver sossego

Começa a haver meia-noite e a haver sossego,

Por toda a parte das coisas sobrepostas,

Os andares vários da acumulação da vida...

Calaram o piano no terceiro-andar...

Não oiço já passos no segundo-andar...

No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.

Não quero ir à janela:

Se eu olhar, que de estrelas!

Que grandes silêncios maiores há no alto!

Que céu anti-citadino!

Antes, recluso,

Num desejo de não ser recluso,

Escuto ansiosamente os ruídos da rua...

Um automóvel!  Demasiado rápido!

Os duplos passos em conversa falam-me

O som de um portão que se fecha brusco dói-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,

Esperando

Qualquer coisa antes que durma...

Qualquer coisa...


[Álvaro de Campos]

Da Condição Humana

Da Condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Que nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

[José Carlos Ary dos Santos]

F A D O

Fado

Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço

Coisas de que não disponho,

Como se fosse maldade

Dar-te os olhos para berço

E os cabelos para sonho.

Dizem que quando eu me deito

Contigo, uma lua negra

Vem fazer o casamento.

Como se fosse defeito

Saber que a vida não chega

Para o nosso sentimento.

Lá porque o nosso passeio

É uma fuga das grades

Que em cada gesto partimos.

Dão um nome muito feio

Àquelas intimidades

Em que ficando, fugimos.

Dizem que este desatino

É a maldita lembrança

Do pecado original?

Eu só sei que isto é destino

E mesmo que seja herança

É legado natural.

Porque é virtude tocar-te

Tu és mais puro que um deus

Purificas o que afagas.

Meu amor só de afagar-te

A minha mão chega aos céus

E sou mais forte que as pragas.

[Natália Correia]