sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Toma toma toma




Toma toma toma

Ainda prefiro os bonecos de cachapôrra
contundentes,contundidos,esmocados
com vozes de cana rachada e um toma toma toma
de quem não usa a moca para coçar os piolhos
mas para rachar as cabeças.

O padreca,o diabo,a criadita
o tarata,a velha alcoviteira,o galã
e às vezes,um verdadeiro rato branco trapezista
tramavam para nós uma estafada estória
da nossa própria vida.

Mundo de pasta e de trapo
que armava barraca em qualquer canto
e sem contemplações pela moral de classe
nem as subtilezas de quem fica ileso
desancava os maus e beijocava os bons.

Ainda prefiro os bonecos de cachapôrra.
     Ainda hoje esbracejo e me esganiço como esses
matraquilhos da comédia humana.

[Alexandre O'Neill]

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O meu amor não cabe num poema…

O meu amor não cabe num poema…

O meu amor não cabe num poema – há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras,e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer ,é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos, a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele,vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome , é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.

Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta.
Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

[Maria do Rosário Pedreira]

Arrumo Papéis Escritos Para o Último Livro

arrumo papéis escritos para o último livro
com um tigre prodigioso cravado no ombro

mantenho os dedos sujos de tinta há vários dias
e sempre que não consigo escrever fumo devagar
encontro o tempo necessário para não fazer nada

de meu corpo corroído pela febre ergo-me
atravesso a sala
desligo a televisão que nunca vejo

junto à janela aberta
a mão tece
a camisola em lã mal cardada

um vestígio de dor envolve-me
que acontecerá à minha sombra?
terei tempo de assobiar à morte?
terei tempo
de levar comigo a roupa de que mais gosto?
que horas são? além
perto da mãe

talvez não seja só febre isto que me assola
pode ser um indício de peste
qualquer mal que alastra pela mansa noite
e contamina os dias fechados na desolação

não consigo imaginar que se morre sozinho
sem sombra sem doenças sem sangue
aterroriza-me pensar que não poderei levar
a camisola tecida pela mãe
na interminável luminosidade do mar


[Al Berto]

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pensar alto

Pensar alto

Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar

fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra

mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer

mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor

enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo.

[Malangatana]

Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!

Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!
Porque não vens de olhos enxutos
e não despes as mãos
de mágoas e de lutos!

Porque hás-de vir semi-morta,
com ar macerado e de bruxedo
e não despes os ritos, o cansaço
e as lágrimas e os mitos e o medo!

Porque não vens natural
Como um corpo sadio que se entrega
e não destranças os cabelos
e não nimbas de luz a tua treva!

Porque hás-de vir com a cor da morte
se a morte já temos nós!
Porque adormeces os gestos
porque entristeces os versos
e nos quebras os membros e a voz!

Porque é que vens adorada
por uma longa procissão de velas
se eu estou à tua espera em cada estrada
nu, inteiramente nu
sem mistérios, sem luas e sem estrelas!

Ó noite eterna e velada
senhora da tristeza, sê alegria!
Vem de outra maneira ou vai-te embora,
e deixa romper o dia!

[Eugénio de Andrade]

O sono que desce sobre mim.

O sono que desce sobre mim.

O sono que desce sobre mim.
O sono mental que desce fisicamente sobre mim
O sono universal que desce individualmente sobre mim
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir.
O sono da vontade de dormir
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões
É o sono da síntese de todas as desesperanças
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura
O abatimento tem ao menos sossego
A rendição é ao menos o fim do esforço
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

[Álvaro de Campos]

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

T R I B U N A L

T R I B U N A L

Somos nós os culpados do que somos.
E é de mim que me queixo.
Tão intensa foi sempre a minha voz,
Que ninguém a entendeu.
Por isso, quanto mais água pedi,
Mais distante me vi
De cada fonte que me apeteceu.

E agora é tarde, já nem sede tenho.
Ou tenho-a como os cactos:
Eriçada de espinhos.
Olho de longe a bica tentadora,
Adivinho-lhe o gosto e a frescura,
E é de borco na areia abrasadora
Que refresco a secura.

[Miguel Torga]

Poema da Menina Tonta

Poema da Menina Tonta

A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto
cabelos de linha de bordar
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado
as mãos viúvas entre flores emurchecidas
caídas da janela
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
 os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta tem a cabeça cheia de farelos.

[Manuel da Fonseca]


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

ARTE PERIPOÉTICA

Aristóteles, visita
da casa de minha avó
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de ser
contra a maneira do tempo
esta maneira de ver
o que o tempo tem
Aristóteles diria
entre dois golos de chá
que o melhor ainda seria
deixar o tempo onde está
pô-lo de perto no tema
e de parte na poesia
para manter o poema
dentro da ordem do dia.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó
não acharia esquisita
esta forma de estar só.
Ele sabia que o poeta
depois de tudo inventado
depois de tudo previsto
de tudo vistoriado
teria de fazer isto
para não continuar
o que já estava acabado
teria de ser presente
não futuro antecipado
não profeta não vidente
mas aço bem temperado
cachorro ferrando o dente
na canela do passado
adaga cravando a ponta
no coração do sentido
palavra osso furando
pele de cão perseguido.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de riso
que é a mais original
forma de se ter juízo
e ser poeta actual.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó
também diria antes só
do que mal acompanhado
antes morto emparedado
em muro de pedra e cal
aonde não entre bicho
que não seja essencial
à evasão da palavra
deste silêncio mortal.

[José Carlos Ary  dos Santos]

D E C L A R A Ç Ã O

D E C L A R A Ç Ã O

Teorias são brinquedos
Que, por mim, não tomo a sério.
Tomo a sério os meus enredos.
Crer... só sei crer no Mistério.
De doutrinas não me importo!
Sinto-me bem no mar alto.
Só me recolho ao meu porto.
Convidam-me, e sempre eu falto.
De escolas, não sou aluno.
Se comunico, é em verso.
Sou muito diverso
E uno.

[José Régio]

domingo, 2 de janeiro de 2011

Canção Amarga

Canção Amarga

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
Importa amar, sem ver a quem…
Ser mau ou bom, conforme os dias.

Agora, tu, só entrevista,
quantas imagens me trouxeste!
Mas é preciso que eu resista
e não acorde um sonho agreste.

Que passes tu! Por mim, bem sei
que hei-de aceitar o que vier,
pois tarde ou cedo deverei
de sonho e pasmo apodrecer.

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
Importa amar, sem ver a quem…
Ser infeliz, todos os dias!

 [David Mourão-Ferreira]

F A L A !

FALA!

Fala a sério e fala no gozo
fa-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão

Fala a miúda mas fala bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala franciú fala béu-béu

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.

[Alexandre O' Neill]

Poema que Aconteceu

Poema que Aconteceu

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
…nem ligasse.

[Carlos Drummond de Andrade]

Anomalias do Amor

Anomalias do Amor

Velhinhos há de coração ardente
Como há mancebos de alma encanecida
Cedo anoitece para uns a vida
E para outros não tem fim o poente.

O moço para o amor indiferente
É campa de si mesmo, arrefecida
E o velho, que ama com paixão dorida
Dentro do peito um prisioneiro sente.

Um leva o coração, de neve cheio
Arde o outro em chamas rútilas, inquietas
E ambos, descalços, vão pisando as brasas…

Qual merece mais dó? Sábios, dizei-o:
O moço que só anda de muletas
Ou o velho que ainda quer ter asas

[Eugénio de castro]


sábado, 1 de janeiro de 2011

V I A N D A N T E

O Viandante - Acrílica sobre tela (Tiago Guilherme)

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia
fugiu a cor às estrelas:
e estrela nos campos tristes
só tu miséria, nos velas.

[Carlos de Oliveira]

P I N H A L do R E I


Pinhal do Rei

Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.


Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu;
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhe deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
em naus, erguida, levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar!

Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade,
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os aléns
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar.

[Afonso Lopes Vieira]