domingo, 16 de janeiro de 2011

S O L I D Ã O

S O L I D Ã O

Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência!
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência
de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade!
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
às vezes para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio!
Solidão não é o claustro involuntário que o destino
nos impõe compulsóriamente...
Isto é um princípio da natureza!
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância!
Solidão é muito mais do que isto...
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa alma.

[Chico Buarque]

sábado, 15 de janeiro de 2011

Depois do Sol

Depois do Sol...

Fez-se noite com tal mistério
Tão sem rumor, tão devagar
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
As nuvens passam desiguais
Com sonolência de rebanho . . .

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar
Anda a lua, tão devagar
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .

[Cecília Meireles]

L I S B O A

Foto de Manuel Seoane

Lisboa

Esta névoa sobre a cidade, o rio
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder
esta névoa onde comeca a luz de Lisboa
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água
nada mais quero de degrau em degrau.

[Eugénio de Andrade]

Braille

Braille

Leio o amor no livro da tua pele
demoro-me em cada sílaba
no sulco macio das vogais
num breve obstáculo de consoantes
em que os meus dedos penetram
até chegarem ao fundo dos sentidos.
 Desfolho as páginas que o teu desejo
me abre ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se juntam como corpos
no abraço de cada frase.
 E chego ao fim para voltar ao princípio
decorando o que já sei
e é sempre novo quando o leio na tua pele.

[Nuno Júdice]

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Teu Retrato

O Teu Retrato

Deus fez a noite com o teu olhar
Deus fez as ondas com os teus cabelos
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante
Já não ando perdido em alto-mar!

Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!

[António Nobre]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ao Vento

Ao Vento

O vento passa a rir, torna a passar
Em gargalhadas ásperas de demente
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente
Vento que ris de mim sempre a troçar
Vento que ris do mundo e do amor
A tua voz tortura toda a gente!...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo
E não rias assim!... Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário
e a gente andar a rir p’la vida fora!!...

[Florbela Espanca]

R E P O R T A G E M

R E P O R T A G E M

Aborrecido, passeio
Pelas ruas da cidade.
Deixei agora o Rossio
E atravesso o Borratém.
Deu meia-noite pausada
No Carmo. Um amigo meu
Passa e tira-me o chapéu.
Paro a uma esquina. Esmoreço
Numa saudade que surge
Dentro de mim não sei como:
Uma saudade infinita,
Misto de choro e revolta.
Alguém me chama no escuro:
Volto a cabeça. A uma porta
Um vulto mexe. - Sou eu!
Não fuja, sou eu... - Mas quem?
Retrocedo, não conheço
A mulher que me chamou.
Na verdade ninguém ouve,
Ninguém distingue o apelo
Do amor que anda perdido
No mistério de mentir:
Deixo-a ficar onde estava
Dou-lhe um cigarro e um sorriso
Dizendo que vou dormir.
Atira-me boa-noite
Num frio olhar de ofendida.
Meto à rua do Amparo
A perguntar se esta vida
Não terá finalidade
Menos sórdida e banal?
Atafonas. Uma Igreja.
Mais acima o Hospital.
Um marinheiro propõe
A esta que atravessou
A rua do Benformoso
Irem tomar qualquer coisa
Na Leitaria da Guia.
Ela pára. É uma catraia
Que talvez não tenha ainda
Dezasseis anos. Bonita.
Devagar vou-me chegando
Xaile, uma blusa, uma saia...
E oiço a fala dos dois.
Ele parece uma onda
Impetuoso, alagante.
Ela é um breve bandó
Num corpito provocante.
E seguem... Ele, encostado
Muito encostado e aquecido
Lá vai como se encontrasse
Um objecto perdido
Que foi milagre encontrá-lo...
Cortaram além!... E param?
Oiço o rebate de um estalo
E um grito subtil de prece
Amedrontada na fuga...
Desço ao Marquês do Alegrete.
Um candeeiro sinistro
Numa casa que se aluga...
Vejo um polícia. Arrefece.
Um grupo de três sujeitos
Discute o vinho de Torres.
Varrem as ruas. Um gato
Bebe água numa sarjeta
Uma carroça parou
Carregada de hortaliça
Junto à Praça da Figueira.
Corto a rua dos Fanqueiros
Já um pouco estropiado...
Acendo um cigarro. A noite
Lembra um fantasma assustado...
Chego ao Terreiro do Paço.
O arco da rua Augusta
Parece mais imponente
Na minha desolação...
Vou até ao cais. Em baixo
O rio bate sem reacção...
A maré vasa. No céu
Vão-se apagando as estrelas.
Um guarda-fiscal dormita
Na guarita, mas de pé.
Um velhote com um cesto
E uma lata vem dizer-me
Se eu quero beber café.
Num banco de pedra. Cismo.
E ali me fico a cismar
Em coisa nenhuma... O dia
Principia a querer ser
Mais um passo na incerteza
Das nossas aspirações...
As águas do rio a escutar
Parecem adormecidas...
E o dia nasce! Vem triste
Nublado, fosco, cinzento
Enquanto pela cidade
A vida acorda e desata
O matinal movimento...

[António Botto]

Quando estás vestida

Pintura a óleo de Carla Chaves


 
Quando estás vestida

Quando estás vestida
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

Assim, quando é dia
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua
E nua na noite
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite

[Manuel Bandeira]

Auto-Crítica

Auto-Crítica

Cesário diz-me muito:
gostava de ferramentas, como eu
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar, originais e exactos
os seus alexandrinos
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia
que não vinha da beleza
mas da perfeita adequação.
Não tem halo, tem elo
e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.

(Que feliz eu seria, ó prima se o Cesário
 me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre, embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós
por isso gosto dele(ai de mim, coitadinho!)

(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima, um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto, a prima inclusive!)

Muito querido Pessoa, saberias agora
que não basta ser lúcido, merda
que não basta a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer… basta de provincianos!

 [Alexandre O’Neill]

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Obsessão do Mar Oceano

Obsessão do mar oceano

Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto…
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano
De sua alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

[Mário Quintana]

Poema da Memória

Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia
só um espelho com isso se parecia.

De joelhos no banco, o busto inteiriçado
só tinha olhos para o rio distante
os olhos do animal embalsamado mas vivo
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.
Diria o rio que havia no seu tempo
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte
onde dois grandes olhos grandes e ávidos
fixos e pasmados, o fitavam
sem tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos grandes
olhos de bicho atento
que espera apenas por amor de esperar.

E por que não galgar sobre os telhados
os telhados vermelhos das casas baixas
com varandas verdes e nas varandas verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da história que voava
com asas grandes, grandes, flutuantes
e poisava onde bem lhe apetecia
e espreitava pelos vidros das janelas
das casas baixas com varandas verdes!
Ai que bom seria!
Espreitar não, que é feio
mas ir até ao longe e tocar nele
e nele ver os seus olhos repetidos
grandes e húmidos, vorazes e inocentes.
Como seria bom!

Descaem-se-me as pálpebras e com isso
(tão simples isso)
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada.

[António Gedeão]

Se eu pudesse deixar de correr


Se eu pudesse deixar de correr

Se eu pudesse deixar de correr
Caminhava se eu pudesse deixar de caminhar
Sentava-me à sombra da nogueira azul do céu
Se eu pudesse deitar-me deitava-me
Numa cova com a forma do meu corpo em
Repouso se eu pudesse deixar de cantar
Fechava os olhos e olhava o alto vazio
Onde não acontece nada a não ser
A conciliação provisória do caos
E da luz que não se cansa de nascer.

[Casimiro de Brito]

"BARCA BELA"


BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela
Ó pescador!

Deita o lanço com cautela
Que a sereia canta bela...
Mas cautela
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador!

Pescador da barca bela
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Ó pescador!

[Almeida Garrett]

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Porta Branca

foto de César Augusto


A Porta Branca

Por detrás desta porta
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração
e pode o pensado universo infindamente ir-se
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca
com duas almofadas em recorte
lançada devagar sobre o vão do jardim
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me
tão alheio a versos e a universos.

[Fiama Hasse Pais Brandão]





segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Quando tornar a vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.

[Alberto Caeiro]

domingo, 9 de janeiro de 2011

H U M A N I D A D E

H U M A N I D A D E

Na tarde calma e fria que circula
por entre os eucaliptos e a distância
olhando as nuvens quase nada  rubras
e a névoa consentida  pelos  montes
névoa  não subindo por não  ser
fumo da   vida   que trabalha   e teima
e olhando  uma  verdura  fugitiva
que a noite no céu queima tão depressa
esqueço-me que há  gente em cada  parte
gente que, de sempre, sofre e morre
e agora  morre  mais ou sofre mais
esqueço-me   que  a   esperança   abandonada
a não ser de ninguém, é sempre minha
esqueço-me que  os  homens  a   renovam
que o fumo de seus  lares sobe nos ares.
Esqueço-me de  ouvir  cheirar a  Terra
esqueço-me que vivo...   E anoitece.

[Jorge de Sena]

Não Se Pode

Não Se Pode

Quando eu era menino andava em voga
A história da "Não se Pode",
Uma mulher esguia, que de toga
Como um fantasma, à toa, de pagode
Altas horas da noite então vagava.

E quando alguém seu nome perguntava
Invariavelmente respondia,
Com a voz cava e cheia de agonia:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"

Era um fantasma esquisito e feio
De estatura comum, mas que crescia
Toda vez que cigarros acendia
Nos lampiões das esquinas e do passeio.

Escaveirada, de carão ossudo,
olhos sem brilho, sem nenhum clarão,
A "Não se Pode" era um duende mudo
Alma penada pela solidão.

Soldados de patrulha da cidade
Uma noite entenderam de segui-la.
Mas a "Não se Pode", como um cão de fila,
Evitava qualquer intimidade.

Suas pegadas no chão jamais se viu

E do velho quartel para o mercado,
Seus pontos preferidos,
Era como um vulto malfadado
Dos mistérios do além, desconhecidos...

E quando uma noite fugia pelo espaço
"Não se Pode" também no seu regaço
Em fumaças de pós se desfazia...

A minha alma também é assim
Se alguém sacode
Os sofrimentos que meu peito esconde
Pressurosa e bem triste ela responde:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"

            [João Francisco Ferry]




João Francisco Ferry nasceu em Valença do Piauí a 16 de abril de 1895, recebendo as lições da primeiras letras dos seus próprios pais, no casarão espaçoso à entrada de sua terra. De origem humilde, João Ferry não teve condições de continuar os estudos, tornando-se poeta "mais pela saudade e pela desgraça perene da terra", como assinala J. Miguel de Matos. A poesia de João Ferry tem duas fases. A fase do parnasianismo multiforme, onde o lirismo solto e livre predomina sobre a métrica e a uniformidade estilística. A segunda é a compreensão dos rumos novos a que se destinava a poesia, procurando libertar-se dos processos matemáticos da métrica e da forma. Ensaiou passos na direção dessa nova ordem, mas não prosseguia a caminhada. Não teve tempo. Sensibilidade visível e forte, "Ferry morreu como viveu, carregando ao longo dos sessenta e seis anos bem vividos as amizades que fez, deixando amizades e, em todas elas, uma revolta imensa contra a morte, que o chamou tão cedo para o convívio sem angústia da eternidade", como exaltou Eulino Martins, no empolgante panegírico que proferiu sobre o seu túmulo. Poeta, jornalista, teatrólogo. Suas peças, levadas à encenação em todo o Estado, marcaram os primórdios da arte teatral no Piauí. Membro da Associação Profissional dos Jornalistas e do Cenáculo Piauiense de Letras. Patrono da Cadeira 38 da Academia Piauiense de Letras.

          Obras: Princípios (1914); Os Meus Sonetos (1916); Vós a Voz, Avós a Vós (Conferência Literária - 1920); Em Busca de Luz (1922); Quem Tudo Quer, Tudo Perde (comédia, 1922); O Cabeção (1937); Chapada do Corisco (1952).

sábado, 8 de janeiro de 2011

Além-tédio

Além-tédio

Nada me expira já, nada me vive
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia
E doente de novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio
Eu próprio me traguei na profundura
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

                  [Mário de Sá-Carneiro]