quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

OBSCURA CASTIDADE

Uma obscura e inquieta castidade
pôs uma flor para mim no jardim mais secreto
num horizonte  de graça e claridade
intangível e perto.

Promessa estática no luar
da densidade em mim corpórea
não é a culpa, é a memória
da primeira manhã do pecado
sem Eva e sem Adão.

Só o fruto provado
e a serpente enroscada
na minha solidão

[Natália Correia]

Toma lá Cinco

Toma lá Cinco

Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não
Um cabelo que ainda ontem preto era
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração
E na cara uma ruga que não espera, que não espera..

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...

Talvez sejas de enredos fácil presa
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...

Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...
Talvez te deixes por uma vez de fitas
De versos de mau hálito e mau sestro
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto)...

[Alexandre O’Neill]



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quiproquó

Quiproquó

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.

[Arménio Vieira]




Na Mesa do Santo Ofício

Na Mesa do Santo Ofício

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura
É no vento que passa que a ouvimos
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso
Que nos espreguiçaremos na fogueira.

[José Carlos Ary dos Santos]

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Jean Gabin - Maintenant Je Sais



Maintenant, Je sais

Quand j'étais gosse, haut comme trois pommes
Je parlais bien fort pour être un homme
Je disais, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS
C'était le début, c'était le printemps
Mais quand j'ai eu mes 18 ans
J'ai dit, JE SAIS, ça y est, cette fois JE SAIS

Et aujourd'hui, les jours où je me retourne
Je regarde la terre où j'ai quand même fait les 100 pas
Et je n'sais toujours pas comment elle tourne !

Vers 25 ans, je savais tout : l'amour, les roses, la vie, les sous
Tiens oui l'amour ! J'en avais fait tout le tour !

Et heureusement, comme les copains, j'avais pas mangé tout mon pain
Au milieu de ma vie, j'ai encore appris.
Ce que j'ai appris, ça tient en trois, quatre mots

"Le jour où quelqu'un vous aime, il fait très beau,
j'peux pas mieux dire, il fait très beau !"

C'est encore ce qui m'étonne dans la vie
Moi qui suis à l'automne de ma vie
On oublie tant de soirs de tristesse
Mais jamais un matin de tendresse !

Toute ma jeunesse, j'ai voulu dire JE SAIS
Seulement, plus je cherchais, et puis moins je savais

Il y a 60 coups qui ont sonné à l'horloge
Je suis encore à ma fenêtre, je regarde, et je m'interroge ?

Maintenant JE SAIS, JE SAIS QU'ON NE SAIT JAMAIS !

La vie, l'amour, l'argent, les amis et les roses
On ne sait jamais le bruit ni la couleur des choses
C'est tout ce que je sais ! Mais ça, je le SAIS… !


Jean Gabin : Interpreta

Autores: Philip Green / Jean-Loup Dabadie

ACONTECIMENTO

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado, numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá.

E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de Outono.

Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora.

Caiam agora, que o amor chegou.

[Ruy Belo]

S E G R E D O

Segredo

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

[Drummond de Andrade]

domingo, 16 de janeiro de 2011

Solidão...

Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

[Mia Couto]


S O L I D Ã O

S O L I D Ã O

Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência!
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência
de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade!
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
às vezes para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio!
Solidão não é o claustro involuntário que o destino
nos impõe compulsóriamente...
Isto é um princípio da natureza!
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância!
Solidão é muito mais do que isto...
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa alma.

[Chico Buarque]

sábado, 15 de janeiro de 2011

Depois do Sol

Depois do Sol...

Fez-se noite com tal mistério
Tão sem rumor, tão devagar
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
As nuvens passam desiguais
Com sonolência de rebanho . . .

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar
Anda a lua, tão devagar
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .

[Cecília Meireles]

L I S B O A

Foto de Manuel Seoane

Lisboa

Esta névoa sobre a cidade, o rio
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder
esta névoa onde comeca a luz de Lisboa
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água
nada mais quero de degrau em degrau.

[Eugénio de Andrade]

Braille

Braille

Leio o amor no livro da tua pele
demoro-me em cada sílaba
no sulco macio das vogais
num breve obstáculo de consoantes
em que os meus dedos penetram
até chegarem ao fundo dos sentidos.
 Desfolho as páginas que o teu desejo
me abre ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se juntam como corpos
no abraço de cada frase.
 E chego ao fim para voltar ao princípio
decorando o que já sei
e é sempre novo quando o leio na tua pele.

[Nuno Júdice]

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Teu Retrato

O Teu Retrato

Deus fez a noite com o teu olhar
Deus fez as ondas com os teus cabelos
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante
Já não ando perdido em alto-mar!

Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!

[António Nobre]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ao Vento

Ao Vento

O vento passa a rir, torna a passar
Em gargalhadas ásperas de demente
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente
Vento que ris de mim sempre a troçar
Vento que ris do mundo e do amor
A tua voz tortura toda a gente!...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo
E não rias assim!... Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário
e a gente andar a rir p’la vida fora!!...

[Florbela Espanca]

R E P O R T A G E M

R E P O R T A G E M

Aborrecido, passeio
Pelas ruas da cidade.
Deixei agora o Rossio
E atravesso o Borratém.
Deu meia-noite pausada
No Carmo. Um amigo meu
Passa e tira-me o chapéu.
Paro a uma esquina. Esmoreço
Numa saudade que surge
Dentro de mim não sei como:
Uma saudade infinita,
Misto de choro e revolta.
Alguém me chama no escuro:
Volto a cabeça. A uma porta
Um vulto mexe. - Sou eu!
Não fuja, sou eu... - Mas quem?
Retrocedo, não conheço
A mulher que me chamou.
Na verdade ninguém ouve,
Ninguém distingue o apelo
Do amor que anda perdido
No mistério de mentir:
Deixo-a ficar onde estava
Dou-lhe um cigarro e um sorriso
Dizendo que vou dormir.
Atira-me boa-noite
Num frio olhar de ofendida.
Meto à rua do Amparo
A perguntar se esta vida
Não terá finalidade
Menos sórdida e banal?
Atafonas. Uma Igreja.
Mais acima o Hospital.
Um marinheiro propõe
A esta que atravessou
A rua do Benformoso
Irem tomar qualquer coisa
Na Leitaria da Guia.
Ela pára. É uma catraia
Que talvez não tenha ainda
Dezasseis anos. Bonita.
Devagar vou-me chegando
Xaile, uma blusa, uma saia...
E oiço a fala dos dois.
Ele parece uma onda
Impetuoso, alagante.
Ela é um breve bandó
Num corpito provocante.
E seguem... Ele, encostado
Muito encostado e aquecido
Lá vai como se encontrasse
Um objecto perdido
Que foi milagre encontrá-lo...
Cortaram além!... E param?
Oiço o rebate de um estalo
E um grito subtil de prece
Amedrontada na fuga...
Desço ao Marquês do Alegrete.
Um candeeiro sinistro
Numa casa que se aluga...
Vejo um polícia. Arrefece.
Um grupo de três sujeitos
Discute o vinho de Torres.
Varrem as ruas. Um gato
Bebe água numa sarjeta
Uma carroça parou
Carregada de hortaliça
Junto à Praça da Figueira.
Corto a rua dos Fanqueiros
Já um pouco estropiado...
Acendo um cigarro. A noite
Lembra um fantasma assustado...
Chego ao Terreiro do Paço.
O arco da rua Augusta
Parece mais imponente
Na minha desolação...
Vou até ao cais. Em baixo
O rio bate sem reacção...
A maré vasa. No céu
Vão-se apagando as estrelas.
Um guarda-fiscal dormita
Na guarita, mas de pé.
Um velhote com um cesto
E uma lata vem dizer-me
Se eu quero beber café.
Num banco de pedra. Cismo.
E ali me fico a cismar
Em coisa nenhuma... O dia
Principia a querer ser
Mais um passo na incerteza
Das nossas aspirações...
As águas do rio a escutar
Parecem adormecidas...
E o dia nasce! Vem triste
Nublado, fosco, cinzento
Enquanto pela cidade
A vida acorda e desata
O matinal movimento...

[António Botto]

Quando estás vestida

Pintura a óleo de Carla Chaves


 
Quando estás vestida

Quando estás vestida
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

Assim, quando é dia
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua
E nua na noite
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite

[Manuel Bandeira]

Auto-Crítica

Auto-Crítica

Cesário diz-me muito:
gostava de ferramentas, como eu
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar, originais e exactos
os seus alexandrinos
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia
que não vinha da beleza
mas da perfeita adequação.
Não tem halo, tem elo
e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.

(Que feliz eu seria, ó prima se o Cesário
 me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre, embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós
por isso gosto dele(ai de mim, coitadinho!)

(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima, um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto, a prima inclusive!)

Muito querido Pessoa, saberias agora
que não basta ser lúcido, merda
que não basta a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer… basta de provincianos!

 [Alexandre O’Neill]

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Obsessão do Mar Oceano

Obsessão do mar oceano

Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto…
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano
De sua alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

[Mário Quintana]