domingo, 23 de janeiro de 2011

Última Porta

Última Porta

Abandonou-se ao desespero
foi como um náufrago sem rumo
nunca na vida foi sincero
por fim perdeu todo o aprumo
falta de amparo, andou fugido
não viu na vida um mau prenúncio
até que ao fim desiludido
pôs nos jornais mais este anúncio:

«Resto de esperança ... perdeu-se
do Largo da Ilusão, à Rua do Esquecimento
tem manchas de ingratidão e sinais de sofrimento
quem a achou se não se importa
entregue-a mesmo à saída
do Beco, do Fim da Vida ... Última porta?...»

Vida que eu sei, que anda ao acaso
que não se inveja nem se gaba
uma licença a curto prazo
que ninguém sabe quando acaba
não a ganhou era uma herança
foi dissipada aí a rodos
como perdeu também a esperança
vem amanhã nos jornais todos!

[Frederico de Brito]


Os Anos São Degraus

Os anos são degraus, a vida, a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada
só Deus pode fechá-la
pode abri-la.

São vários os degraus: alguns sombrios
outros ao sol, na plena luz dos astros
com asas de anjos, harpas celestiais
alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau
 tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença
imaginar, sequer, que ao fim da estrada
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
e nada mais?

[Fernanda de Castro]

São horas de voltar


São horas de voltar.
Tu já não vens e a espera
gastou a luz de mais um dia.
Agora, quem passar trará um corpo incerto
dentro do nevoeiro, mas terá outro nome
e outro perfume.
Eu volto à casa onde contigo
se demorou o verão e arrumo os livros
escondo as cartas, viro os retratos para a mesa.
Sei que o tempo se magoou de nós
sei que não voltas e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente.
Outras virão em Março
apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.

[Maria do Rosário Pedreira]



sábado, 22 de janeiro de 2011

O uso das palavras obscenas..e outras mais

O uso das palavras obscenas

Desmedido eu que vivo com medida
Amigos, deixai-me que vos explique
Com grosseiras palavras vos fustigue
Como se aos milhares fossem nesta vida!

Há palavras que a foder dão euforia:
Para o fodidor, foda é palavra louca
E se a palavra traz sempre na boca
Qualquer colchão furado o alivia.

O puro fodilhão é de enforcar!
Se ela o der até se esvaziar: bem.
Maré não lava o que a arvore retém!

Só não façam lavagem ao juizo!
Do homem a arte é: foder e pensar.
(Mas o luxo do homem é: o riso).


Soprava o vento pela fresta

Soprava o vento pela fresta
A menina comia nêspera
Antes de dar em segredo
O níveo corpo ao folguedo:

Mas antes provou ter tacto
Pois só o queria nu no acto
Um corpo bom como um figo
Não se vai foder vestido.

Para ela em tempos de ais
Nunca o gozo era demais.
Lavava-se bem depois:
Nunca o carro antes dos bois.

[Bertold Brecht]

=<>= 

Epigrama

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os prazeres são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisso, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.

[La Fontaine]


Ah, os primeiros minutos dos cafés de novas cidades!

Ah, os primeiros minutos dos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega…
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens…

Os ómnibus ou os eléctricos ou os automóveis…
O novo aspecto das ruas de novas terras…
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...

As praças nitidamente quadradas e grandes
As ruas com as casas que se aproximam ao fim
As ruas transversais revelando súbitos interesses
E através disto tudo, como uma coisa que inunda
E nunca transborda o movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica…

Os portos com navios parados
Excessivamente navios parados
Com barcos pequenos ao pé, esperando…

[Álvaro de Campos]

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Quem me amarrou a ser eu


Quem me amarrou a ser eu
Fez-me uma grande partida.
Debaixo deste amplo céu
Não tenho vinda nem ida.
Sou apenas um ser meu.

Nem isso... Anda tudo à volta
A retirar-me de mim.
Parece uma fera à solta
Este mundo que anda assim
A servir-me de má escolta.

Quando encontrar a verdade
Hei-de ver se hei-de fugir
Pelo menos em metade.
Depois ficarei a rir
...Da minha tranquilidade.

[Fernando Pessoa]

Rio-me sim,rio-me do que fazem

Almada, por  C.Peres Feio

 
Rio-me sim, rio-me do que fazem
do que crêem, de tudo o que todos usam
e eu-mesmo o fiz e cri como qualquer
até que do asco me despeguei disso tudo
pra morrer de verdade, sem fingir.

Ri-me e espantei-me de me ter rido assim
ri-me por não poder suportar
sentir a morte em mim
Que a morte seja eu quem a mereça
e não o limite até onde eu possa suportar.

Por todos já morreu um há séculos
e repeti-lo é sempre por todos.
Por todos é no que não creio.
Morrer por todos é o que fazemos cada um
mesmo sem querer.

Mas morrer por cada um
sobretudo se se é o próprio
é mais do que morrer por todos.
Admiro a renúncia mas não em mim
que renunciado nasci de herança.

Morro por mim.
Devo ao meu sangue aqueles dias
de que gerações inteiras se privaram.
Sou um exemplar daquela humanidade
que hoje apenas a sabemos sonhar
uma lembrança viva
de quando tudo era vivo até cada um.

Trouxeram-me clandestino
através das tribos, das raças, de catacumbas
e de catedrais d’Impérios, de Revoluções
de guerras e das mais maneiras
que dizem respeito a todos.

A todos! Eis o que me faz morrer.
Por todos não fica ninguém
há séculos e séculos
e os que parece terem deixado um nome
não deixaram senão renome
são de facto um cimo de todos
o cadáver que ficou
por cima na pirâmide dos mortos.

Tenho uma fé única: é cada um!
Cansado da humanidade
creio só nas pessoas
naqueles que se levam consigo
e em nenhuma ocasião
se perdem da sua própria mão

[Almada Negreiros]

João Villaret deixou-nos, faz hoje 50 anos

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

DÁ-ME A TUA MÃO

Dá-me a tua mão
vamos passear
nas nuvens do chão
nas pedras do ar.

Anda como estás
nua como és...
(Nascem rosas-chás
onde pões os pés.)

Vem, vem mesmo assim
que ninguém repara.
(Não ponhas carmim
por dentro da cara.)

Vamos como espectros
nos ventos voados.
A 200 metros
por sobre os telhados.

Vamos, tu e eu,
pairar na planície
Outra vez o Orfeu
com a Eurídice.

Eurídice nova
morta imaginária
que eu roubei à Cova
da Morte Diária.

Ah! morta e bem morta,
embora com vida
frio de outra porta
no muro fingida.

Mas agora vamos
ambos de mãos dadas...
nas nuvens... nos ramos...
nas sombras voadas...

[José Gomes Ferreira]

Escuros Tempos

Pintura:  Tomada de Montese, de A.Martins (óleo sobre tela)

Escuros Tempos

As noites
nas cidades da guerra
eram mudas e escuras
como os campos
apagadas as ruas
as praças quedos lagos
falsa ausência
deitava-se nas sombras.

uma ave nos céus
chamada morte
caçava guiada pela luz.
 Cuidado crianças com a lâmpada acesa
mulheres não esqueçam o pano negro
diante das janelas
basta uma friesta
para apagar a vida.

Quando a guerra acabou
na minha terra
janelas continuaram pintadas de preto
esquecimento ou luto
os vidros
como almas
precisaram de um tempo
para deixar passar a claridade.

[Marina Colasanti]


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

OBSCURA CASTIDADE

Uma obscura e inquieta castidade
pôs uma flor para mim no jardim mais secreto
num horizonte  de graça e claridade
intangível e perto.

Promessa estática no luar
da densidade em mim corpórea
não é a culpa, é a memória
da primeira manhã do pecado
sem Eva e sem Adão.

Só o fruto provado
e a serpente enroscada
na minha solidão

[Natália Correia]

Toma lá Cinco

Toma lá Cinco

Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não
Um cabelo que ainda ontem preto era
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração
E na cara uma ruga que não espera, que não espera..

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...

Talvez sejas de enredos fácil presa
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...

Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...
Talvez te deixes por uma vez de fitas
De versos de mau hálito e mau sestro
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto)...

[Alexandre O’Neill]



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quiproquó

Quiproquó

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.

[Arménio Vieira]




Na Mesa do Santo Ofício

Na Mesa do Santo Ofício

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura
É no vento que passa que a ouvimos
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso
Que nos espreguiçaremos na fogueira.

[José Carlos Ary dos Santos]

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Jean Gabin - Maintenant Je Sais



Maintenant, Je sais

Quand j'étais gosse, haut comme trois pommes
Je parlais bien fort pour être un homme
Je disais, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS
C'était le début, c'était le printemps
Mais quand j'ai eu mes 18 ans
J'ai dit, JE SAIS, ça y est, cette fois JE SAIS

Et aujourd'hui, les jours où je me retourne
Je regarde la terre où j'ai quand même fait les 100 pas
Et je n'sais toujours pas comment elle tourne !

Vers 25 ans, je savais tout : l'amour, les roses, la vie, les sous
Tiens oui l'amour ! J'en avais fait tout le tour !

Et heureusement, comme les copains, j'avais pas mangé tout mon pain
Au milieu de ma vie, j'ai encore appris.
Ce que j'ai appris, ça tient en trois, quatre mots

"Le jour où quelqu'un vous aime, il fait très beau,
j'peux pas mieux dire, il fait très beau !"

C'est encore ce qui m'étonne dans la vie
Moi qui suis à l'automne de ma vie
On oublie tant de soirs de tristesse
Mais jamais un matin de tendresse !

Toute ma jeunesse, j'ai voulu dire JE SAIS
Seulement, plus je cherchais, et puis moins je savais

Il y a 60 coups qui ont sonné à l'horloge
Je suis encore à ma fenêtre, je regarde, et je m'interroge ?

Maintenant JE SAIS, JE SAIS QU'ON NE SAIT JAMAIS !

La vie, l'amour, l'argent, les amis et les roses
On ne sait jamais le bruit ni la couleur des choses
C'est tout ce que je sais ! Mais ça, je le SAIS… !


Jean Gabin : Interpreta

Autores: Philip Green / Jean-Loup Dabadie

ACONTECIMENTO

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado, numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá.

E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de Outono.

Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora.

Caiam agora, que o amor chegou.

[Ruy Belo]