sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Quem me amarrou a ser eu


Quem me amarrou a ser eu
Fez-me uma grande partida.
Debaixo deste amplo céu
Não tenho vinda nem ida.
Sou apenas um ser meu.

Nem isso... Anda tudo à volta
A retirar-me de mim.
Parece uma fera à solta
Este mundo que anda assim
A servir-me de má escolta.

Quando encontrar a verdade
Hei-de ver se hei-de fugir
Pelo menos em metade.
Depois ficarei a rir
...Da minha tranquilidade.

[Fernando Pessoa]

Rio-me sim,rio-me do que fazem

Almada, por  C.Peres Feio

 
Rio-me sim, rio-me do que fazem
do que crêem, de tudo o que todos usam
e eu-mesmo o fiz e cri como qualquer
até que do asco me despeguei disso tudo
pra morrer de verdade, sem fingir.

Ri-me e espantei-me de me ter rido assim
ri-me por não poder suportar
sentir a morte em mim
Que a morte seja eu quem a mereça
e não o limite até onde eu possa suportar.

Por todos já morreu um há séculos
e repeti-lo é sempre por todos.
Por todos é no que não creio.
Morrer por todos é o que fazemos cada um
mesmo sem querer.

Mas morrer por cada um
sobretudo se se é o próprio
é mais do que morrer por todos.
Admiro a renúncia mas não em mim
que renunciado nasci de herança.

Morro por mim.
Devo ao meu sangue aqueles dias
de que gerações inteiras se privaram.
Sou um exemplar daquela humanidade
que hoje apenas a sabemos sonhar
uma lembrança viva
de quando tudo era vivo até cada um.

Trouxeram-me clandestino
através das tribos, das raças, de catacumbas
e de catedrais d’Impérios, de Revoluções
de guerras e das mais maneiras
que dizem respeito a todos.

A todos! Eis o que me faz morrer.
Por todos não fica ninguém
há séculos e séculos
e os que parece terem deixado um nome
não deixaram senão renome
são de facto um cimo de todos
o cadáver que ficou
por cima na pirâmide dos mortos.

Tenho uma fé única: é cada um!
Cansado da humanidade
creio só nas pessoas
naqueles que se levam consigo
e em nenhuma ocasião
se perdem da sua própria mão

[Almada Negreiros]

João Villaret deixou-nos, faz hoje 50 anos

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

DÁ-ME A TUA MÃO

Dá-me a tua mão
vamos passear
nas nuvens do chão
nas pedras do ar.

Anda como estás
nua como és...
(Nascem rosas-chás
onde pões os pés.)

Vem, vem mesmo assim
que ninguém repara.
(Não ponhas carmim
por dentro da cara.)

Vamos como espectros
nos ventos voados.
A 200 metros
por sobre os telhados.

Vamos, tu e eu,
pairar na planície
Outra vez o Orfeu
com a Eurídice.

Eurídice nova
morta imaginária
que eu roubei à Cova
da Morte Diária.

Ah! morta e bem morta,
embora com vida
frio de outra porta
no muro fingida.

Mas agora vamos
ambos de mãos dadas...
nas nuvens... nos ramos...
nas sombras voadas...

[José Gomes Ferreira]

Escuros Tempos

Pintura:  Tomada de Montese, de A.Martins (óleo sobre tela)

Escuros Tempos

As noites
nas cidades da guerra
eram mudas e escuras
como os campos
apagadas as ruas
as praças quedos lagos
falsa ausência
deitava-se nas sombras.

uma ave nos céus
chamada morte
caçava guiada pela luz.
 Cuidado crianças com a lâmpada acesa
mulheres não esqueçam o pano negro
diante das janelas
basta uma friesta
para apagar a vida.

Quando a guerra acabou
na minha terra
janelas continuaram pintadas de preto
esquecimento ou luto
os vidros
como almas
precisaram de um tempo
para deixar passar a claridade.

[Marina Colasanti]


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

OBSCURA CASTIDADE

Uma obscura e inquieta castidade
pôs uma flor para mim no jardim mais secreto
num horizonte  de graça e claridade
intangível e perto.

Promessa estática no luar
da densidade em mim corpórea
não é a culpa, é a memória
da primeira manhã do pecado
sem Eva e sem Adão.

Só o fruto provado
e a serpente enroscada
na minha solidão

[Natália Correia]

Toma lá Cinco

Toma lá Cinco

Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não
Um cabelo que ainda ontem preto era
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração
E na cara uma ruga que não espera, que não espera..

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...

Talvez sejas de enredos fácil presa
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...

Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...
Talvez te deixes por uma vez de fitas
De versos de mau hálito e mau sestro
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto)...

[Alexandre O’Neill]



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quiproquó

Quiproquó

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.

[Arménio Vieira]




Na Mesa do Santo Ofício

Na Mesa do Santo Ofício

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura
É no vento que passa que a ouvimos
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso
Que nos espreguiçaremos na fogueira.

[José Carlos Ary dos Santos]

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Jean Gabin - Maintenant Je Sais



Maintenant, Je sais

Quand j'étais gosse, haut comme trois pommes
Je parlais bien fort pour être un homme
Je disais, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS
C'était le début, c'était le printemps
Mais quand j'ai eu mes 18 ans
J'ai dit, JE SAIS, ça y est, cette fois JE SAIS

Et aujourd'hui, les jours où je me retourne
Je regarde la terre où j'ai quand même fait les 100 pas
Et je n'sais toujours pas comment elle tourne !

Vers 25 ans, je savais tout : l'amour, les roses, la vie, les sous
Tiens oui l'amour ! J'en avais fait tout le tour !

Et heureusement, comme les copains, j'avais pas mangé tout mon pain
Au milieu de ma vie, j'ai encore appris.
Ce que j'ai appris, ça tient en trois, quatre mots

"Le jour où quelqu'un vous aime, il fait très beau,
j'peux pas mieux dire, il fait très beau !"

C'est encore ce qui m'étonne dans la vie
Moi qui suis à l'automne de ma vie
On oublie tant de soirs de tristesse
Mais jamais un matin de tendresse !

Toute ma jeunesse, j'ai voulu dire JE SAIS
Seulement, plus je cherchais, et puis moins je savais

Il y a 60 coups qui ont sonné à l'horloge
Je suis encore à ma fenêtre, je regarde, et je m'interroge ?

Maintenant JE SAIS, JE SAIS QU'ON NE SAIT JAMAIS !

La vie, l'amour, l'argent, les amis et les roses
On ne sait jamais le bruit ni la couleur des choses
C'est tout ce que je sais ! Mais ça, je le SAIS… !


Jean Gabin : Interpreta

Autores: Philip Green / Jean-Loup Dabadie

ACONTECIMENTO

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado, numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá.

E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de Outono.

Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora.

Caiam agora, que o amor chegou.

[Ruy Belo]

S E G R E D O

Segredo

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

[Drummond de Andrade]

domingo, 16 de janeiro de 2011

Solidão...

Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

[Mia Couto]


S O L I D Ã O

S O L I D Ã O

Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência!
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência
de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade!
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
às vezes para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio!
Solidão não é o claustro involuntário que o destino
nos impõe compulsóriamente...
Isto é um princípio da natureza!
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância!
Solidão é muito mais do que isto...
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa alma.

[Chico Buarque]

sábado, 15 de janeiro de 2011

Depois do Sol

Depois do Sol...

Fez-se noite com tal mistério
Tão sem rumor, tão devagar
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
As nuvens passam desiguais
Com sonolência de rebanho . . .

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar
Anda a lua, tão devagar
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .

[Cecília Meireles]

L I S B O A

Foto de Manuel Seoane

Lisboa

Esta névoa sobre a cidade, o rio
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder
esta névoa onde comeca a luz de Lisboa
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água
nada mais quero de degrau em degrau.

[Eugénio de Andrade]

Braille

Braille

Leio o amor no livro da tua pele
demoro-me em cada sílaba
no sulco macio das vogais
num breve obstáculo de consoantes
em que os meus dedos penetram
até chegarem ao fundo dos sentidos.
 Desfolho as páginas que o teu desejo
me abre ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se juntam como corpos
no abraço de cada frase.
 E chego ao fim para voltar ao princípio
decorando o que já sei
e é sempre novo quando o leio na tua pele.

[Nuno Júdice]

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Teu Retrato

O Teu Retrato

Deus fez a noite com o teu olhar
Deus fez as ondas com os teus cabelos
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante
Já não ando perdido em alto-mar!

Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!

[António Nobre]