terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

RECORTE DE JORNAL


Com três tiros de caçadeira
se contou a história inteira
de Maria Imaculada
Nos olhos dela, só espanto
e um imenso desencanto
Nos dele a morte, mais nada

O primeiro levou queixas
que nunca ninguém ouviu
Levou ilusões desfeitas
tanto tempo, tanto frio...
E ficou perto, tão perto
daquele estranho coração
que mais parecia um deserto
que era feito de um vazio
sem sentido nem razão

O segundo, violento
levou a raiva contida
em dez anos de silêncio
- Dez anos são uma vida...
E ficou ainda mais perto
daquele estranho coração
Desespero a céu aberto
loucura vã, desmedida
gerada na solidão

O terceiro levou a morte
sem nada mais para dizer
Como quem se entrega à sorte
por já há muito saber
que uma vez perdido o norte
não há mais nada a perder...
E perdeu-se bem no centro
daquele estranho coração
que nunca tivera dentro
por um segundo, sequer
o rasto dum sentimento
a sombra duma emoção

Com três tiros de caçadeira
se contou a história inteira
de Maria Imaculada
Nas mãos dela, o aço frio
Nas dele, o esboço sombrio
da ameaça inacabada... 

[Ana Vidal]

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Poesia por acaso

Poesia por acaso

Sem inspiração estou agora.
Tento atiçar a imaginação,
mas ela demora.
Não consigo pensar em algo que faça rimas,
é como tentar acertar o alvo
com a flecha apontada para cima.
Não acho um bom assunto
que se organize bem em versos.
Mesmo sabendo que no mundo
há mil assuntos diversos.
Que coisa chata,
não consigo imaginar.
Isso quase me mata
porque é horrível não poder pensar.

Mas espere um momento,
mesmo não tendo um tema,
se estas frases vou relendo
vejo que é um poema.

[Clarice Pacheco]

http://www.claricepacheco.com/


Clarice Pacheco nasceu no dia 17 de fevereiro de 1989, em Porto Alegre/RS, onde sempre morou. Desde pequenina gostava muito de desenhar, aos quatro anos começou a ler e escrever, estudou até a oitava série no Colégio Leonardo da Vinci-Alfa.
  Desde que ganhou seu primeiro livro de presente de aniversário, Clarice ficou fascinada por livros e histórias, ainda era muito pequena quando começou  criar as próprias histórias. As primeiras, tinham apenas desenhos. Aos poucos, foi acrescentando curtos diálogos e textos reduzidos, até escrever narrativas completas.
  Ao longo da infância e curta adolescência, Clarice escreveu poesias, histórias infantis ilustradas por ela mesma,  contos e uma breve novela juvenil. Do convívio diário com os amigos e colegas de escola encontrou inspiração para criar os enredos e caracterizar os personagens. Descreveu com nitidez como é o dia-a-dia dos bichinhos de estimação, em duas histórias que têm seus cãezinhos, Floquinho e Pluminha, como protagonistas.
  Clarice partiu em 2 de setembro de 2002, em decorrência de uma miocardiopatia.     
  Após sua ausência, os pais organizaram sua produção literária em cinco obras póstumas.

SONETO DE AMOR

Não me peças palavras, nem baladas
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio
Deixa cair as pálpebras pesadas
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua...unidos
Nós trocaremos beijos e gemidos
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois.. abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus, não digas nada...
Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!

[José Régio]

sábado, 5 de fevereiro de 2011

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase
era um tempo de humores bem sacudidos
depressões sincopadas, bem graves, minha querida
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir Deus e música de jazz
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não
eu nunca tive queda para kamikaze
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa
o que eu nunca pedi, ah não, manda calar a gente
minha querida, toda a gente do bairro
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:  morrer ou não morrer, darling, ah sim.

[Vasco Graça Moura]

Metamorfoses Necessárias Para a Reconquista do Mundo

Quando a flor da água não for superfície
Nem for outra cor para a flor do fundo
Quando a sombra der de si mesma indício
Quando um lírio for de si mesmo oriundo


Quando os astros forem a luz que os anima
E as rosas iguais ao que são por fora
E a forma do corpo florir na retina
Subida do peso carnal que a demora


Quando um rouxinol for no próprio canto
Vibração da sua mais longínqua era
Quando as violetas não forem o espanto
De se transformarem para a primavera


Quando uma laranja comer um rapaz
Em vez desta fome disposta ao contrário
Quando for o mesmo à frente ou atrás
Quando estar sentado for imaginário


Quando uma donzela não for colorida
E a terra a medida dum corpo no chão
E a morte não for outro nome para a vida
E a vida esta grande falta de razão:


Quando uma cidade for “A Conseguida”
Porque uma cigarra tem opinião
Quando dar a mão não for despedida
E um gesto não for o exílio da mão…

[Natália Correia]


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Poeminha Sentimental

Poeminha Sentimental

O meu amor, o meu amor, Maria

É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.


[Mário Quintana]

Meus olhos que por alguém

Meus olhos que por alguém
deram lágrimas sem fim
já não choram por ninguém
basta que chorem por mim.

Arrependidos e olhando
a vida como ela é
meus olhos vão conquistando
mais fadiga e menos fé.

Sempre cheios de amargura!
Mas se as coisas são assim
chorar alguém, que loucura!
Basta que eu chore por mim.

[António Botto]

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Pastelaria

Foto :Agostinho Russo


Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
(ele há tanta maneira de compor uma estante)
Afinal o que importa é não ter medo:
Fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz?
E amanhã há bola antes de haver cinema
madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
rir de tudo no riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

[Mário Cesariny]

Canção de Amor

Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.

[Rainer Maria Rilke]

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

o tempo, subitamente solto

o tempo, subitamente solto

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar
que eu amava quando imaginava que amava.
era a tua a tua voz que dizia as palavras da vida.
era o teu rosto.era a tua pele. antes de te conhecer
existias nas árvores e nos montes e nas nuvens
que olhava ao fim da tarde.muito longe de mim
dentro de mim, eras tu a claridade.

[José Luís Peixoto]

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.

[Vinicius de Moraes]

Balada das Coisas e Não [Jorge de Sena]

Há coisas na vida  mais bolas que a  vida
coisas terríveis  tão  belas ocultas
que  coisas  não  são
sabemos acaso  os  nomes  o  gesto
de  incerta   presença
sorriso  mais vago
perfume sonhado
sombras  solenes
luzeiros  tremendo
ah  não
sentir não sentimos
pensar não pensamos
nem  mesmo que é  nada
se  é  belo  ou  não  bolo
se parte  se  fica
se  é  excesso  ou se é  rosto
   coisas terríveis
estranhas não  são
alheias  dispersas
talvez também  não
mais  belas que a  vida
que a  vida  perdida
ansiosa  ou  maldita
diremos acaso  que nomes  que gesto
mas  quais e  por quê?...
Ah  não.

[Jorge de Sena]

domingo, 30 de janeiro de 2011

DOIS ANOS JÁ PASSARAM...

E com isto, dois anos já passaram. A fúria do tempo não se compadece.
 Dizem que “afinal o tempo fica e a gente é que vai passando”.
 Foi há há 2 anos, que o dia que eu tanto temia, chegou. Disseste-me  3 dias antes : “ainda não é desta que a Mãe morre, os médicos e os enfermeiros, são muito bons e estão a cuidar de mim”, foram as últimas palavras que te ouvi Querida Mãe, nessa mesma noite entraste em coma.Uma Promessa não cumprida, Deus não te deixou cumprir e chamou-te.
 Fiquei nesse minuto até agora, o Grande amor da minha vida partiu para a pátria dos espíritos, fazia 3 anos da minha cirurgia ao cancro… ainda te tive 3 anos e como tu sofreste querida Mãe, tanto sofrimento e tanta abnegação na vida de uma pessoa, a tua!
 O mundo está muito ruim Mãe, está cada vez pior, não presta e eu também não presto, porque não sei viver dentro dele, não sei, não quero…
Só tu me conhecias, eu nem precisava falar, tu lias-me como ninguém, aliás tu sabias ler toda a gente  e todos te adoravam, só sabias dar tudo o que tinhas e tinhas tanto!
O telefone já não toca, por vezes aquela tua Grande amiga, que já está bem velhinha, ainda liga para cá à procura da sua Querida Idalina.
Que vazio tão grande que nos deixaste Querida Mãe, tanta coisa que ficou por dizer, tanta coisa que eu tinha para partilhar contigo, só confiava em ti.
 Esta semana peguei no telefone para te dar uma boa notícia…mas depois acordei, o teu telefone já não toca e no Céu não há… mas tenho a certeza, que te vou voltar a ver, nem que seja por um instante.
 Sei que é egoísmo meu, cumpriste como ninguém a tua missão aqui, só fizeste o bem e agora neste preciso momento, onde quer que estejas, estás a estender a tua mão a quem precisa. Mas, deixa-me ter Saudades Tuas Mãe! 
Amo-te tanto Minha Querida Mãe!


A minha Querida Mãe, Idalina do Nascimento Moreira da Silva nasceu no dia 18 de Agosto de 1929 e partiu a 30 de Janeiro de 2009, faz hoje 2 anos , o dia mais tenebroso da minha vida.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Amor é uma Companhia


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais
Depressa e ver menos e ao mesmo tempo gostar bem de ir
vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que
sinto na ausência dela.


Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol
com a cara dela no meio.


[Alberto Caeiro]


Canção de Amor

Canção de Amor

Amo-te muito
Como se já te amasse assim há muito.
Amo-te tanto
Como se fosse apenas por enquanto.
Amo-te como quem partiu
Sabendo, ao partir, que já chegou.
Amo-te como amo aquilo que te dou.

Amo-te como um vinho antigo
Um mosto doce.
Amo-te como a Primavera
Que te trouxe.
Quero-te como se te amasse por encanto.
Só sei amar-te assim
Como se fosse a mim.

E quero amar-te
E quero dar-me sempre a ti
constantemente.
A um tempo só:
O futuro e o passado no presente.
E a ternura, esse fogo
Que acendemos mão na mão
Seja sempre amor
Sem deixar de ser paixão

   [Fernando Tavares Rodrigues]

A DANÇA

"A dança do Amor" (escultura de vivi Vargas)


Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
amo-te secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores
e graças ao teu amor vive escuro no meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde
Amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo, porque não sei amar de outra maneira,

Se não assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham os teus olhos, com o meu sonho.

[Pablo Neruda]

Ser ou não ser


Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

                       [ Manuel Alegre]

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Bolero do Coronel sensível que fez amor em Monsanto

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

[António Lobo Antunes]