segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Hoje vi a saudade...

Saudades do Chibanga…

O Ricardo Chibanga que me desculpe, mas era o nome que eu dava àquele “Herby” companheiro, que só lhe faltava falar. Ainda por cima tinha a virtude de ser “anti-sogra"... só tinha 2 lugares.
 Hoje, qual não foi o meu espanto, olho e mesmo na minha frente, vejo o XV-47-55, o meu Chibanga de boa memória. Está igual, parece que não passaram 19 anos por ele, melhor que eu sem dúvida
 Cheguei à fala com o dono actual e passa na inspecção com toda a facilidade de menino bem comportado, sem dar problemas aos pais.
 Foi o melhor carro que tive, no melhor tempo da minha vida, embora tenha tido carros mais caros e com maior cilindrada, mas nada como o meu Chibanga de boa memória.
 Foi uma fase boa da minha vida, aventura, libertação, paixão, sim a maior paixão até hoje, curtida todos os fins de tarde, nas traseiras do cinema Roma, que tal como o Chibanga, também se foi.
 Fui buscá-lo no dia 11 de Fevereiro de 92 e despedi-me dele no dia 9 de Novembro de 94. A minha ex-mulher enquanto não me convenceu a trocá-lo por um carro de 5 lugares não descansou…troquei-o por um Twingo, um dos piores que só me trouxe desgraça e tristeza…claro que não são os objectos que mudam a nossa vida, embora teimemos em lhes dar vida, associando-os ao melhor e ao pior, mas deixem-me pensar, que o Chibanga só me deu felicidade…e se querem saber, acho que Ele me conheceu!

As Minhas Asas

Eu tinha umas asas brancas
Asas que um anjo me deu
Que, em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Eram brancas, brancas, brancas
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas
Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
Veio a ambição, co'as grandezas
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas
Asas que um anjo me deu
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas
E já suspenso da terra
Ia voar para elas
Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas
Asas que um anjo me deu
Para a terra me pesavam
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.

[Almeida Garrett]

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Nostalgia




Jerónimo Bragança / Joaquim Luiz Gomes

insinceridade

insinceridade

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero
sem saber bem o que busco.

[Vasco Graça Moura]

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Chico Buarque - Essa Moça Tá Diferente

Sampa



SAMPA

Alguma coisa acontece
No meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga
E a Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui
Eu nada entendi
Da dura poesia concreta
De tuas esquinas
Da deselegância discreta
De tuas meninas...

Ainda não havia
Para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece
No meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga
E a Avenida São João...

Quando eu te encarei
Frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
De mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio
O que não é espelho
E a mente apavora o que ainda
Não é mesmo velho
Nada do que não era antes
Quando não somos mutantes...

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho
Feliz de cidade
Aprende depressa
A chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso
Do avesso do avesso...

Do povo oprimido nas filas
Nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue
E destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe
Apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas
De campos e espaços
Tuas oficinas de florestas
Teus deuses da chuva...

Panaméricas
De Áfricas utópicas
Túmulo do samba
Mais possível novo
Quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam
Na tua garoa
E novos baianos te podem
Curtir numa boa...

[Caetano Veloso]

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Escrevo-te cartas longas em longas tardes de esplanada

Escrevo-te cartas longas em longas tardes de esplanada
E repito constantemente coisas datas e palavras
Nas tuas praias e nos teus livros respiro os poemas
Como se fosse possível eu compreender tudo

Escrevo-te cartas que não chego nunca a pôr no correio
Não sei a tua actual direcção nem saberei
Se mesmo tendo direcção gostarias de as receber
Ou se a leitura te poderia provocar alguma alegria

Escrevo-te cartas e demoro-me com medo na tarde
Quando o céu se transforma numa nuvem cinzenta
Que se abre como se fosse a boca de alguém
À procura das palavras soletradas pela morte


[Ruy Belo]

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Viajantes

Viajantes do tempo, um barco.
Um lago no oceano em vias
Solitários em múltiplas companhias
Acompanhados enquanto sós

Somente... viajantes
Enternecidos, envolvidos
Em vestes, em vasos.
Em vultos, talvez...

Viajantes, sem pressa.
Turistas, revistas em vez.
Às vezes com fome
Tão ávidos imersos.

Desertos na sede
Tão certos na fonte
Em remos caminhos
Em ondas, espinhos.

Em sonhos, viagens.
Distantes, incertos
Instantes eternos
Viajantes. peregrinos

Em busca de caminhos
Envoltos no destino
A procura da cura
Do medo da chegada.

[Sandra Fichera]

 Façam uma visita no seu blogue:

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Da arte de bem cavalgar



Da arte de bem cavalgar

Faz de conta que és tronco que a maré rejeita
deitado e imóvel no liso areal
com uma pernada altiva que espreita
o purpúreo mistério, a boca corporal.

De joelhos se ponha a mulher eleita
assente nas canelas, o tronco vertical
com as pernas abertas, simetria perfeita
sobre a ponta da verga dura como metal.

Que te monte depois como um jockey de classe
sugando dentro dela o ávido arção
num rápido crescendo, como se procurasse

vencer distanciada o derby da tesão.
E tu, dócil cavalo que os colhões tens por sela
partilha o seu triunfo, geme e vem-te com ela.

[Fernando Correia Pina]

Que bem sabe o Amor constante

Até no carro te canto,
Fala a fala, seio a seio
Espantado de um encanto
Que mais parece receio

De te perder à partida
Pra te ganhar à chegada
Pois tu és a minha vida
Na ida e volta arriscada.

Vai o Godinho ao volante
Com seu ar de conde antigo
Que bem sabe o amor constante
Que me aparelha contigo.

Poupado na gasolina
Discreto na confidência
Navegador à bolina
Dos rumos da nossa ausência.

Leva-me à Embaixada, ao almoço:
Travou, mas não sei que tenho:
Um resto de ardor de moço
Contigo no meu canhenho.

[Vitorino Nemésio]

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Eu minto

eu minto, confesso
me faço de boba, verdade
escondo a idade, me calo
me sinto tão mal, um inferno
represento um papel, principal
sou mesmo uma atriz, infeliz
quem diz que eu não quero, eu consigo
viver por um triz, enlouqueço
te esqueço e te mato, te amo
atrás de um muro, qualquer
outro dia amanheço, de novo
e falo bobagens, pudera
não sou tão sensata, avisei
sem nada de mais, me despeço

[Martha Medeiros]

Estou Cansado

Estou cansado, é claro
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto
Uma vontade de sono no corpo
Um desejo de não pensar na alma
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

[Álvaro de Campos]

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

São Valentim para mim...

Não quero ser desmancha-prazeres, sem menosprezo para o São Valentim, que até  é um Santo simpático, mas este dia nunca me soou bem.
 A primeira vez que ouvi falar no dia de São Valentim, foi em 1977.
 Uma amiga, que namorava um rapaz que estava fora, tinha acabado de receber  um ramo de flores nesse dia.
 Na minha ignorância acabada de sair da adolescência e do obscurantismo, fez-me confusão, como é que o fulano conseguiu fazer chegar cá tão rápido, um ramo de flores.
 Então, ela explicou-me que havia intercâmbio de floristas e que era mais fácil que aquilo que eu pensava…
 A moda pegou, não só nos casais de namorados, como nos casais de carteira passada.
 Há solteiros, que quase que vão inventar um par, para esse dia e casados que nessa noite vão jantar fora, ela não tem trabalho, ouve uma música romântica, se a coisa correu bem, pode ser que até “pinte um clima” e… e pronto.
 No dia seguinte no trabalho é o tema da conversa, elas elegem quem foi o melhor marido e eles desculpam-se “eu até nem acho piada a estas coisas, mas se não lhe fizesse a vontade, havia de ser o bom e o bonito, tinha que a aturar 15 dias”.
 Resumindo, no Natal temos que ser bonzinhos e espalhar o amor pelo próximo, no carnaval temos que vestir um traje idiota e temos que nos divertir, no São Valentim, temos que ser atentos, românticos e fieis.
 O que eu aqui, ponho em causa, é a vontade de fazer ou não, para mim a vontade, não tem data no calendário.
 Não tenho nada contra quem gosta, mas não sou refém de datas e se um dia tiver que ser, comemoro o Santo António que ao menos esse, é Nosso!

Meu Limão de Amargura

Meu Limão de Amargura

Meu Amor Meu Amor
Meu corpo em movimento
Minha voz à procura
Do seu próprio lamento
Meu limão de amargura
Meu punhal a crescer
Nós parámos o tempo
Não sabemos morrer
E nascemos nascemos
Do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
Meu pássaro cinzento
A chorar a lonjura
Do nosso afastamento.

Meu amor meu amor
Meu nó de sofrimento
Minha mó de ternura
Minha nau de tormento:
Este mar não tem cura
Este céu não tem ar
Nós parámos o vento
Não sabemos nadar
E morremos morremos
Devagar devagar

[Amália Rodrigues]

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Que música escutas tão atentamente

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo
dizer-te apenas que estou aqui
mas tenho medo
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim
ó cheia de doçura
sentada, olhando as rosas
e tão alheia
que nem dás por mim.

[Eugénio de Andrade]

Pequeno poema

Quando eu nasci
ficou tudo como estava
nem homens cortaram veias
nem o Sol escureceu
nem houve estrelas a mais...
Sómente
esquecida das dores
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

[Sebastião da Gama]

Eras sempre a primeira a dar-me os parabéns, esperavas religiosamente pela meia-noite e cinco, a hora que nasci.
 Lembro, quando fiz 8 anos, estavas internada no IPO, nessa altura travavas a primeira de muitas batalhas que se seguiram até ao fim (Esta era contra o cancro da mama, tinhas 35 anos).
 Vieste de fim-de-semana de propósito, fazer a minha festa de aniversário, não querias que eu me sentisse um menino diferente dos outros.
 Grande Guerreira, que foste Querida Mãe, a minha Mãe!
Hoje não quero aniversário, morri por dentro naquele dia em que te foste.Quem sabe um dia, ainda te vou voltar a encontrar Mãe!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

S O N E T O

Soneto

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo
Antes o olhar que peca, a mão que rouba
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora
Do monstro que inventámos e nos fita.

[José Carlos Ary dos Santos]

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ladainha horizontal

Como se fossem jangadas
desmanteladas
vogam no mar da memória
as camas da minha vida...
Tanta cama! Tanta história!
Tanta cama numa vida!

Grabatos, leitos, divãs
a tarimba do quartel
e no frio das manhãs
lívidas camas de hotel...
Ei-las vogando as jangadas
desmanteladas
todas cobertas de escamas
e do sal do mar da vida...
Tanta cama! Tantas camas!
Tanta cama numa vida!

Já os lençóis amarrados
tocam no centro da Terra
(que o reino dos desesperados
fica no centro da Terra!)
e os cobertores empilhados
são monte que não se alcança!
Só as tábuas das jangadas
Desmanteladas
bóiam no mar da lembrança
e no remorso da vida...
Homem sou. Já fui criança.
Tanta cama numa vida!

Nem vão ao fundo as de ferro
nem ao céu as de dossel...
Lembro-vos, camas de ferro
de internato e de bordel
gaiolas da adolescência
ginásios do amor venal!
Barras fixas. Imprudência.
Sem rede, o salto mortal
pra fora da adolescência...
E confundem-se as jangadas
desmanteladas
no mar da reminiscência...
Onde estás, ó minha vida?
Sono. Volúpia. Doença.
Tanta cama numa vida!

E recordo-vos, tão vagas
vós que viestes depois
ó camas transfiguradas
das furtivas ligações!

Camas dos fins-de-semana
beliches da beira-mar...
Oh! que arrojadas gincanas
sobre os altos espaldares!
E as camas das noites brancas
tão brancas!, tão tumulares!
Ciganos. Beijos. Uísque.
Ó fragílimas jangadas
desmanteladas...!
E nelas há quem se arrisque
sobre os pélagos da vida!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Tanta cama numa vida!

E o amor? Tálamo, templo
conjugação conjugal...
O amor: tálamo, templo
 ilha num mar tropical.
Mas ao redor, insistentes
bramam as ondas do mar
do mar da memória ardente
eternamente a bramar...
Já no frio dos lençóis
há prelúdios da mortalha
e, nas camas, sugestões
fúnebres, torvas, pesadas...
Sede, por fim, ó jangadas
desmanteladas
a ponte do esquecimento
prà outra margem da Vida!

Sede flecha, monumento
ponte aérea sobre o Tempo
redentora madrugada!
Se o não fordes, sereis nada
jangadas desmanteladas
todas roídas de escamas
da margem de cá da Vida...
Pobres camas! Tristes camas!
Tanta cama numa vida!


[David Mourão-Ferreira]