quarta-feira, 9 de março de 2011

Transfiguração

Transfiguração

Tens agora
outro rosto, outra beleza:
Um rosto que é preciso imaginar,
E uma beleza mais furtiva ainda...
Assim te modelaram caprichosas
Mãos irreais que tornam irreal
O barro que nos foge da retina.
Barro que em ti passou de luz carnal
A bruma feminina...

Mas nesse novo encanto
Te conjuro
Que permaneças.
Distante e preservada na distância.
Olímpica recusa, disfarçada
De terrena promessa
Feita aos olhos tentados e descrentes.
Nenhum mito regressa....
Todas as deusas são mulheres ausentes...

[Miguel Torga]

Com lento amor

Com lento amor
olhava os dispersos tons da tarde.
A ela comprazia perder-se
na complexa melodia
Ou na curiosa vida dos versos.

Não o rubro elemental mas os cinzentos
Fiaram seu destino delicado
Feito a discriminar e exercitado
Na vacilação e nos matizes.

Sem se atrever a andar
neste perplexo labirinto
olhava lá de fora as formas
o tumulto e a carreira.

Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que habitam para lá do rogo
Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.

[Jorge Luis Borges]

terça-feira, 8 de março de 2011

Depus a Máscara

[Foto - Carina Mónico]

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há muitos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre criança
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

[Álvaro de Campos]


Dia Internacional da Mulher


PORQUÊ O DIA 8 DE MARÇO

Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma, tanto em Portugal como no resto do mundo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Momento

Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre linguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música

[David Mourão-Ferreira]

Novo epitáfio para uma velha donzela

Novo epitáfio para uma velha donzela

Não conheceu do amor as vãs complicações
Nem o prazer e as suas decepções.
Por isso é que os fiéis das sensações
Tiveram sua vida por frustrada.
Viveu de leve, humilde e afável, encerrada
No mistério sem mito em que morreu.
Da sua vida mais intensa, nada
Chegou ao mundo, que não era seu.

Sobre esta laje fria
Por memória
Dessa ignorada história
Inscreveu esta coisa fugidia
Aquele de quem foi secretamente amada.

[José Régio]

domingo, 6 de março de 2011

Se eu te pedisse a paz

Se eu te pedisse a paz
o que me darias
pequeno insecto da memória
de quem sou ninho e alimento?

 Se eu te pedisse a paz
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó
a voz limpa dos frutos
o que me darias respiração pausada
de outro corpo sob o meu corpo?

Perdoa-me ser tão só
e falar-te ainda do meu exílio.
Perdoa-me se não te peço a paz.
Apenas pergunto: O que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo
intranquila, ao centro do coração?

Nada te peço, nada.
Visito, simplesmente, o teu corpo de cima.
Falo de mim, entrego-te o meu destino.
 E a morte vivo só de perguntar-te:
 O que me darias se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?

[Casimiro de Brito]

sábado, 5 de março de 2011

Ah essa mulher!

Foto de Francisco Barreto

Há a mulher que me ama e eu não amo.
Há as mulheres que me acamam e eu acamo.
Há a mulher que eu amo e não me ama nem acama.

Ah essa mulher!

Tu eras mais feliz, Apollinaire.
montado num obus, voavas à mulher.
Tu foste mais feliz, meu artilheiro.
tiveste amor e guerra.

Eu andei pra marinheiro,
mas pus óculos e fiquei em terra.

Upa garupa na mulher que me acama
que a outra é contigo,coração que bem queres
sofrer pelas mulheres...

[Alexandre O'Neill]


sexta-feira, 4 de março de 2011

Bilhete

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres, enfim
tem de ser bem devagarinho, Amada
que a vida é breve e o amor mais breve ainda...

[Mário Quintana]

Crespúsculo

Crespúsculo

É quando um espelho, no quarto se enfastia
Quando a noite se destaca da cortina
Quando a carne tem o travo da saliva
e a saliva sabe a carne dissolvida .
Quando a força de vontade ressuscita
Quando o pé sobre o sapato se equilibra...
E quando às sete da tarde morre o dia
que dentro de nossas almas se ilumina
com luz lívida… a palavra despedida.

[David Mourão-Ferreira]

quinta-feira, 3 de março de 2011

Adeus, Lisboa

óleo de Real Bordalo

Adeus, Lisboa

Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda
parece de brincadeira.
Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.

Chapas de sol, coruscantes
como lâminas de espadas
fendem as águas rolantes
esparrinhando flamejantes
lantejoulas nacaradas.
Sob o dourado chuveiro
o barquinho terno e mole
vai-se afastando, ronceiro
na peugada do Sol.

A cada volta das pás
moendo as águas vizinhas
nos remoinhos que faz
nos salpicos que me traz
e me enchem de camarinhas
há fagulhas rutilantes
esquírolas de marcassites
polimentos de pirites
clivagens de diamantes

Numa hipnose colectiva
como um friso de embruxados
ao longe os olhos cravados
em transe de expectativa
todos juntos, na amurada
numa sonolência de ópio
vemos, na tarde pasmada
Lisboa televisada
num vasto cinemascópio.
O sol e a água conspiram
num conluio de beleza
de elixires que se evadiram
de feiticeira represa.
Fulva, no céu incendido
em compostura de pose
a cidade é colorido
cenário de apoteose.
Há lencinhos agitados
nos olhos de todos nós
engulhos de namorados
embargamentos na voz.
Nesta quermesse do ar
neste festival de tons
quem se atreve a acreditar
que os homens não sejam bons?

Adeus, adeus, ribeirinha
cidade dos calafates
rosicler de água-marinha
pedra de muitos quilates.
Iça as velas, marinheiro
com destino a Calecu.
Oh que ventinho rasteiro!
Que mar tão cheio e tão nu!
Ó da gávea! Põe-te alerta!
Tem tento nos areais.
Cá vou eu à descoberta
das índias Orientais.
Não tenho medo de nada
receio de coisa nenhuma.

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!

[António Gedeão]

Começar de Novo

Esta gaivota que vai
seguindo o navio.
Este céu que despreza a morte.
Esta luz, este rio.

Tudo num sonho que apenas
foi desenhado
para eu aprender de novo
a viver a teu lado.

Vento no rosto
e tanto sol nos meus braços
tanto sol que depois te cerca
a travar os teus passos.

Tudo num sonho
que foi assim desenhado
para tu começares de novo
a viver a meu lado.

Dentro de nós, temos nós
de seguir a lição
desta luz que a manhã
nos oferece novamente.

Dentro de nós vai o mundo
tornar-se canção
é preciso que tudo
comece novamente.

Tudo num sonho
que apenas foi desenhado
para eu aprender de novo
a viver a teu lado.

Tudo num sonho
que foi assim desenhado
para tu começares de novo
a viver a meu lado.

[David Mourão-Ferreira]

CARTA AO JORNAL "A CAPITAL"


Lisboa, em 6 de Julho de 1915.

Ex.mo Senhor Director de A Capital.

A notícia inserta em A Capital de ontem regista uma informação imperfeita com respeito aos intuitos teatrais que tomaram alguns dos meus colegas de Orpheu, sob minha diligente orientação.
Não se trata nem de futurismo nem de representar um drama dinâmico da categoria litográfica que V. Ex.ia indica. Para esclarecer bem o assunto e visto que já se fala nele em público – direi que o drama que tencionamos apresentar se chama «Os Jornalistas», que é um estudo sintético do jornalismo português e que, como (em parte) V. Ex.ia diz, se vêem apenas os doze pés dos três jornalistas que estão em quase-cena.
Passo em branco  porque seria inútil protestar nesse lance,  sobre a atribuição de futurismo que nos pretendem lançar. Seria de mau gosto repudiar ligações com os futuristas numa hora tão deliciosamente dinâmica em que a própria Providência Divina se serve dos carros eléctricos para os seus altos ensinamentos.

De V. Ex.ia
Respeitador e criado

ÁLVARO DE CAMPOS
engenheiro e poeta sensacionalista

quarta-feira, 2 de março de 2011

A casada infiel

Eu que a levei ao rio
pensando que era donzela
porém tinha marido.

Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Apagaram-se os lampiões
e acenderam-se os grilos.
Nas últimas esquinas
toquei seu peito adormecido
e abriram-se prontamente
como ramos de jacintos.
A goma da sua anágua
soava ao meu ouvido
como uma peça de seda
rasgada por dez punhais.
Sem luz de prata nas suas copas
as árvores estão crescidas
e um horizonte de cães
ladra muito longe do rio.

Passadas as sarçamoras
os juncos e os espinhos
debaixo de seus cabelos
fiz uma cova sobre o limo.
Eu tirei a gravata.
Ela tirou o vestido.
Eu, o cinturão com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais com lua
reluzem com esse brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos
a metade cheias de lume
a metade cheias de frio.
Aquela noite corri
o melhor dos caminhos
montado em potra de nácar
sem bridões e sem estribos.
Não quero dizer, por homem
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser muito comedido.
Suja de beijos e areia
eu a levei do rio.
Com o ar se batiam
as espadas dos lírios.

Portei-me como quem sou.
Como um cigano legítimo.
Dei-lhe um estojo de costura
grande, de liso palhiço
e não quis enamorar-me
porque tendo marido
disse que era donzela
quando a levava ao rio.

[Federico García Lorca]

Navio naufragado

Navio naufragado

Vinha de um mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.

É um esqueleto branco o capitão
Branco como as areias
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.

Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.

E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias
As sereias leves dos cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos de videntes.

[Sophia de Mello Breyner]

terça-feira, 1 de março de 2011

O Poeta

O Poeta

Trabalha agora
na importação e exportação.
Importa metáforas, exporta alegorias.
Podia ser
um trabalhador por conta própria
um desses que preenche
cadernos de folha azul
com números de deve e haver.
De facto, o que deve são palavras
e o que tem é esse vazio de frases
que lhe acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno
e a chuva cai do outro lado.
Então, pensa
que poderia importar o sol
e exportar as nuvens.
Poderia ser um trabalhador do tempo.
Mas, de certo modo
a sua prática confunde-se
com a de um escultor do movimento.
Fere, com a pedra do instante
o que passa a caminho da eternidade
suspende o gesto que sonha o céu
e fixa, na dureza da noite
o bater de asas, o azul…
a sábia interrupção da morte.

[Nuno Júdice]

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O meu amor existe - Jorge Palma



O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Separou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura

O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe

[Jorge Palma]