sexta-feira, 18 de março de 2011

Gosto de ti calada

Gosto de ti calada porque estás como ausente
e me ouves de longe e esta voz não te toca.
Parece que os teus olhos foram de ti voando
e parece que um beijo fechou a tua boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
tu emerges das coisas, cheia da alma minha.
Borboleta de sonho, pareces-te com a minha alma
e pareces-te com a palavra melancolia.

Gosto de ti calada e estás como distante.
E estás como queixando-te, borboleta em arrulho.
E ouves-me de longe e esta voz não te alcança:
vais deixar que eu me cale com o silêncio teu.

Vais deixar que eu te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual à noite, calada e constelada.
O teu silêncio é de estrela, tão longínquo e tão simples.

Gosto de ti calada porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se houvesses morrido.
Uma palavra então, um teu sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre porque não é verdade.

[Pablo Neruda]

quinta-feira, 17 de março de 2011

Vivam, apenas.

Vivam, apenas.
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento
naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
Que dão flores e frutos
Sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
A transformar os espinhos
Em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
Que só são belos
Quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A morte é para os mortos.

[José Gomes Ferreira]

A Perfeição

A Perfeição

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exactidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exactidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos
…a perfeição.

[Clarice Lispector]

quarta-feira, 16 de março de 2011

Babilónia

Com pátios interiores e com palmeiras
Com muros de tijolo com pequenos tanques
Com fontes com estátuas com colunas
Com deuses desenhados nas paredes de barro

Com corredores e silêncio e penumbras
Com vestidos de linho tocando a pedra pura
Com cinamomo e nardo
Com jarras donde corria azeite e vinho

Com multidões com gritos com mercados
Com esteiras claras sob os pés pintados
Com escribas com magos e adivinhos
Com prisioneiros com servos com escravos
Com lucidez feroz com amargura
Com ciência e arte
Com desprezo
Babilónia nasceu de lodo e limo

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

Estragas-me a paz

Óleo sobre tela de Fernando Botero

Estragas-me a paz.
e eu preciso das minhas solidões
de bocados mentais sem ti.

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
por aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda estragada
quando te penso amor.

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.

[Ana Luísa Amaral]

terça-feira, 15 de março de 2011

Creio nos anjos que andam pelo mundo

Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio na Deusa com olhos de diamantes
Creio em amores lunares com piano ao fundo
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes
Creio que tudo eterno num segundo
Creio num céu futuro que houve dantes

Creio nos deuses de um astral mais puro
Na flor humilde que se encosta ao muro
Creio na carne que enfeitiça o além

Creio no incrível, nas coisas assombrosas
Na ocupação do mundo pelas rosas
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

[Natália Correia]

Sobre um Poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto
talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor
os rios, a grande paz exterior das coisas
as folhas dormindo o silêncio
as sementes à beira do vento
a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único
invade as órbitas, a face amorfa das paredes
a miséria dos minutos
a força sustida das coisas
a redonda e livre harmonia do mundo.

Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
E o poema faz-se contra o tempo e a carne.



[Herberto Hélder]

domingo, 13 de março de 2011

Vieste como um barco carregado de vento

Vieste como um barco carregado de vento
Abrindo feridas de espuma pelas ondas.
Chegaste tão depressa que nem pude aguardar-te
ou prevenir-me e só ficaste o tempo de iludires
a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar
como foi que partiste, se partiste
que dentro de mim se acanham as certezas
e tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado
ao mar o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar
exausto de me ver entre mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo
o vaivém dos barcos.

 Dizem-me os seus passos que vale a pena esperar
 porque as ondas acabam sempre por quebrar-se junto das margens.
 Mas eu sei que o meu mar está cercado de litorais
que é tarde para quase tudo.Por isso, vou para casa
 e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


[Maria do Rosário Pedreira]

sábado, 12 de março de 2011

Destruição

Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

[Carlos Drummond de Andrade]

Hoje de manhã saí muito cedo

Hoje de manhã saí muito cedo
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte
e segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida e assim quero que possa ser sempre .
Vou onde o vento me leva e não me deixo pensar.

[Alberto Caeiro]

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ancorada em mim

Mais forte que a ventania
Vieste com a maresia
Amor sem berço nem fim
Foste o mar e o veleiro
Muito mais que um mundo inteiro
Ficaste ancorado em mim

Nem tormentos nem naufrágios
Nem os mais negros presságios
Mudam as cores deste mar
Só eu conheço os segredos
Só eu navego sem medos
Nas águas do teu olhar

Gaivotas de voo rasante
Vão trazendo a cada instante
Noticias de outras marés
Que me importam outras ilhas
Se eu descobri maravilhas
No fundo do meu convés

[Ana Vidal]

E por vezes as noites duram meses

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos e por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos… encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes, ah! por vezes
num segundo, se envolam tantos anos.

[David Mourão-Ferreira]

quinta-feira, 10 de março de 2011

Soneto à maneira de Camões

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês , pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares
De ser tão breve e fundo o teu engano
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

quarta-feira, 9 de março de 2011

Transfiguração

Transfiguração

Tens agora
outro rosto, outra beleza:
Um rosto que é preciso imaginar,
E uma beleza mais furtiva ainda...
Assim te modelaram caprichosas
Mãos irreais que tornam irreal
O barro que nos foge da retina.
Barro que em ti passou de luz carnal
A bruma feminina...

Mas nesse novo encanto
Te conjuro
Que permaneças.
Distante e preservada na distância.
Olímpica recusa, disfarçada
De terrena promessa
Feita aos olhos tentados e descrentes.
Nenhum mito regressa....
Todas as deusas são mulheres ausentes...

[Miguel Torga]

Com lento amor

Com lento amor
olhava os dispersos tons da tarde.
A ela comprazia perder-se
na complexa melodia
Ou na curiosa vida dos versos.

Não o rubro elemental mas os cinzentos
Fiaram seu destino delicado
Feito a discriminar e exercitado
Na vacilação e nos matizes.

Sem se atrever a andar
neste perplexo labirinto
olhava lá de fora as formas
o tumulto e a carreira.

Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que habitam para lá do rogo
Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.

[Jorge Luis Borges]

terça-feira, 8 de março de 2011

Depus a Máscara

[Foto - Carina Mónico]

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há muitos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre criança
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

[Álvaro de Campos]