terça-feira, 15 de março de 2011

Creio nos anjos que andam pelo mundo

Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio na Deusa com olhos de diamantes
Creio em amores lunares com piano ao fundo
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes
Creio que tudo eterno num segundo
Creio num céu futuro que houve dantes

Creio nos deuses de um astral mais puro
Na flor humilde que se encosta ao muro
Creio na carne que enfeitiça o além

Creio no incrível, nas coisas assombrosas
Na ocupação do mundo pelas rosas
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

[Natália Correia]

Sobre um Poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto
talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor
os rios, a grande paz exterior das coisas
as folhas dormindo o silêncio
as sementes à beira do vento
a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único
invade as órbitas, a face amorfa das paredes
a miséria dos minutos
a força sustida das coisas
a redonda e livre harmonia do mundo.

Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
E o poema faz-se contra o tempo e a carne.



[Herberto Hélder]

domingo, 13 de março de 2011

Vieste como um barco carregado de vento

Vieste como um barco carregado de vento
Abrindo feridas de espuma pelas ondas.
Chegaste tão depressa que nem pude aguardar-te
ou prevenir-me e só ficaste o tempo de iludires
a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar
como foi que partiste, se partiste
que dentro de mim se acanham as certezas
e tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado
ao mar o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar
exausto de me ver entre mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo
o vaivém dos barcos.

 Dizem-me os seus passos que vale a pena esperar
 porque as ondas acabam sempre por quebrar-se junto das margens.
 Mas eu sei que o meu mar está cercado de litorais
que é tarde para quase tudo.Por isso, vou para casa
 e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


[Maria do Rosário Pedreira]

sábado, 12 de março de 2011

Destruição

Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

[Carlos Drummond de Andrade]

Hoje de manhã saí muito cedo

Hoje de manhã saí muito cedo
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte
e segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida e assim quero que possa ser sempre .
Vou onde o vento me leva e não me deixo pensar.

[Alberto Caeiro]

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ancorada em mim

Mais forte que a ventania
Vieste com a maresia
Amor sem berço nem fim
Foste o mar e o veleiro
Muito mais que um mundo inteiro
Ficaste ancorado em mim

Nem tormentos nem naufrágios
Nem os mais negros presságios
Mudam as cores deste mar
Só eu conheço os segredos
Só eu navego sem medos
Nas águas do teu olhar

Gaivotas de voo rasante
Vão trazendo a cada instante
Noticias de outras marés
Que me importam outras ilhas
Se eu descobri maravilhas
No fundo do meu convés

[Ana Vidal]

E por vezes as noites duram meses

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos e por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos… encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes, ah! por vezes
num segundo, se envolam tantos anos.

[David Mourão-Ferreira]

quinta-feira, 10 de março de 2011

Soneto à maneira de Camões

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês , pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares
De ser tão breve e fundo o teu engano
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

quarta-feira, 9 de março de 2011

Transfiguração

Transfiguração

Tens agora
outro rosto, outra beleza:
Um rosto que é preciso imaginar,
E uma beleza mais furtiva ainda...
Assim te modelaram caprichosas
Mãos irreais que tornam irreal
O barro que nos foge da retina.
Barro que em ti passou de luz carnal
A bruma feminina...

Mas nesse novo encanto
Te conjuro
Que permaneças.
Distante e preservada na distância.
Olímpica recusa, disfarçada
De terrena promessa
Feita aos olhos tentados e descrentes.
Nenhum mito regressa....
Todas as deusas são mulheres ausentes...

[Miguel Torga]

Com lento amor

Com lento amor
olhava os dispersos tons da tarde.
A ela comprazia perder-se
na complexa melodia
Ou na curiosa vida dos versos.

Não o rubro elemental mas os cinzentos
Fiaram seu destino delicado
Feito a discriminar e exercitado
Na vacilação e nos matizes.

Sem se atrever a andar
neste perplexo labirinto
olhava lá de fora as formas
o tumulto e a carreira.

Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que habitam para lá do rogo
Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.

[Jorge Luis Borges]

terça-feira, 8 de março de 2011

Depus a Máscara

[Foto - Carina Mónico]

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há muitos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre criança
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

[Álvaro de Campos]


Dia Internacional da Mulher


PORQUÊ O DIA 8 DE MARÇO

Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma, tanto em Portugal como no resto do mundo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Momento

Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre linguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música

[David Mourão-Ferreira]

Novo epitáfio para uma velha donzela

Novo epitáfio para uma velha donzela

Não conheceu do amor as vãs complicações
Nem o prazer e as suas decepções.
Por isso é que os fiéis das sensações
Tiveram sua vida por frustrada.
Viveu de leve, humilde e afável, encerrada
No mistério sem mito em que morreu.
Da sua vida mais intensa, nada
Chegou ao mundo, que não era seu.

Sobre esta laje fria
Por memória
Dessa ignorada história
Inscreveu esta coisa fugidia
Aquele de quem foi secretamente amada.

[José Régio]

domingo, 6 de março de 2011

Se eu te pedisse a paz

Se eu te pedisse a paz
o que me darias
pequeno insecto da memória
de quem sou ninho e alimento?

 Se eu te pedisse a paz
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó
a voz limpa dos frutos
o que me darias respiração pausada
de outro corpo sob o meu corpo?

Perdoa-me ser tão só
e falar-te ainda do meu exílio.
Perdoa-me se não te peço a paz.
Apenas pergunto: O que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo
intranquila, ao centro do coração?

Nada te peço, nada.
Visito, simplesmente, o teu corpo de cima.
Falo de mim, entrego-te o meu destino.
 E a morte vivo só de perguntar-te:
 O que me darias se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?

[Casimiro de Brito]

sábado, 5 de março de 2011

Ah essa mulher!

Foto de Francisco Barreto

Há a mulher que me ama e eu não amo.
Há as mulheres que me acamam e eu acamo.
Há a mulher que eu amo e não me ama nem acama.

Ah essa mulher!

Tu eras mais feliz, Apollinaire.
montado num obus, voavas à mulher.
Tu foste mais feliz, meu artilheiro.
tiveste amor e guerra.

Eu andei pra marinheiro,
mas pus óculos e fiquei em terra.

Upa garupa na mulher que me acama
que a outra é contigo,coração que bem queres
sofrer pelas mulheres...

[Alexandre O'Neill]