terça-feira, 5 de abril de 2011

Lucidez

Lucidez

Em cada instante, a poesia
Morre em mim.
E a mão certeira que a escrevia
Escreve assim:

Qualquer poesia alheia
Não pode ser comparada
Com esta minha, tão cheia
De nada.

Quem a lê logo conhece
Que é
Aquela que não merece
Nem nota de rodapé.

E se a estudou, sabe agora
Que perdeu a inspiração.
E cora
De lhe haver dado atenção.

Quem sou de mim foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
– Ainda não!)

domingo, 3 de abril de 2011

Adeus Pai!


O Pai

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

[Pablo Neruda]


Deus fez-te a vontade e levou-te a ver a minha Mãe.
Não te levo a mal por isso, os últimos meses foram
bem difíceis, de muito sofrimento teu e meu, a ver-te
sofrer, sem poder fazer nada contra essa
famigerada doença.
Acabou aqui Pai, foi horrível para nós dois.
Partiste durante o sono e foste em paz, estavas sereno
ainda há pouco quando te vi.
 Deus vai iluminar o teu caminho e de agora em diante
O teu caminho irá ser uma estrada de luz.
Até um dia Querido Pai!!!


Joaquim Henrique da Silva
(25 de Abril de 1924 – 3 de Abril de 2011)

A força do hálito

A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.

Vai (ou vem) um sujeito, abre a boca e eis que a gente
que no fundo é sempre a mesma
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado
que no fundo é sempre o mesmo.

Sovacos pompeando vinagres e bafios
não são nada…bah!..em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.

"Ai onde transpira agora
o bom sovaco de outrora!"

Virilhas colaborando com parentesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito) maravi(ri)lhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.

Mas o mau hálito é pior que a palavra
sobretudo se não for da tua lavra.

Da malvada, da cárie ou, meudeus, do infinito
o mau hálito é sempre, na narina
como o baudelaireano, desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria.


[Alexandre O'Neill]

sábado, 2 de abril de 2011

Prospecção


Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado de nenhuma certeza
Soterrado por mil certezas de aluvião.
Cavo, lavo, peneiro
Mas só quero a fortuna de me encontrar.
Poeta antes dos versos e sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.

[Miguel Torga]

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Num Monumento à Aspirina

Claramente: o mais prático dos sóis
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial
que nada limita a funcionar de dia
que a noite não expulsa, cada noite
sol imune às leis de meteorologia
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma
quará-la, em linhos de um meio-dia.
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal
polido a esmeril e repolido a lima
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna
de uso interno, por detrás da retina
não serve exclusivamente para o olho
a lente ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro
o borroso de ao redor e o reafina.

[João Cabral de Melo Neto]

quinta-feira, 31 de março de 2011

Projecto de Sucessão

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.


[António Maria Lisboa]

quarta-feira, 30 de março de 2011

Rua dos rostos perdidos

Este vento não leva apenas os chapéus
estas plumas, estas sedas:
este vento leva todos os rostos
muito mais depressa.

Nossas vozes já estao longe
e como se pode conversar
como podem conversar estes passantes
decapitados pelo vento?

Não, não podemos segurar o nosso rosto:
as mãos encontram o ar
a sucessão das datas
a sombra das fugas, impalpável.

Quando voltares por aqui
saberás que teus olhos
não se fundiram em lagrimas, não
mas em tempo.

De muito longe avisto a nossa passagem
nesta rua, nesta tarde, neste outono
nesta cidade, neste mundo, neste dia.
(Não leias o nome da rua, - não leias!)

Conta as tuas historias de amor
como quem estivesse gravando
vagaroso, um fiel diamante.
E tudo fosse eterno e imóvel.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 29 de março de 2011

DIGNIDADE

Fui falar-te como se fosse a uma casa de penhores
Empenhar o meu último casaco
Sem flores
Sem anéis
Sem colares
E os saltos tortos dos sapatos
Palavras não houve
Sorriso apenas meu
De pessoa serena sem passado e sem futuro
Entregaste-me a cautela dos dias inúteis
E eu assinei
Só eu sabia que vinha nua

[Matilde Rosa Araújo]

segunda-feira, 28 de março de 2011

De Amor Nada Mais Resta Que Um Outubro

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes, estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

[Natália Correia]

sábado, 26 de março de 2011

O Canto do Amor

Eis de que é feito o canto sinfónico do amor.
Há o canto do amor de outrora
O ruído dos beijos perdidos dos amantes ilustres
Os gritos de amor das mortais violadas pelos deuses
As virilidades dos heróis fabulosos erguidas como peças antiaéreas
O uivo precioso de Jasão, o canto mortal do cisne
O hino vitorioso que os primeiros raios de sol
fizeram cantar a Mémnon o imóvel
Há o grito das Sabinas ao serem raptadas
Há ainda os gritos de amor dos felinos nas selvas
O rumor surdo da seiva trepando pelas plantas tropicais
O troar das artilharias, que coroa o terrível amor dos povos
As ondas do mar onde nasce a vida e a beleza
O canto de todo o amor do mundo.

[Guillaume Apollinaire]





sexta-feira, 25 de março de 2011

Bebido o luar

Bebido o luar, ébrios de horizontes
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos
Não são nossos os frutos nem as flores
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos
Límpidos nas auroras a nascer
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

quinta-feira, 24 de março de 2011

Vivemos sobre a terra

Vivemos sobre a terra.
Apresento-te a nossa casa
os nomes que damos às coisas
as honras que nos são destinadas
este corpo de sangue e nervos.
Sobre ele que julgamos vivo
dizes a minha razão.
A da vida e a de outras coisas
que se percebem.
Os barcos retomam lentos o seu lugar
em volta de um coração marinho.
Como se morre aqui?

[João Miguel Fernandes Jorge]


quarta-feira, 23 de março de 2011

Poema Patético

Que barulho é esse na escada?
É o amor que está acabando
é o homem que fechou a porta
e se enforcou na cortina.

Que barulho é esse na escada?
É Guiomar que tapou os olhos
e se assoou com estrondo.
É a lua imóvel sobre os pratos
e os metais que brilham na copa.

Que barulho é esse na escada?
É a torneira pingando água
e o lamento imperceptível
de alguém que perdeu no jogo
enquanto a banda de música
vai baixando, baixando de tom.

Que barulho é esse na escada?
É a virgem com um trombone
a criança com um tambor
o bispo com uma campainha
e alguém abafando o rumor
que salta de meu coração.

[Carlos Drummond de Andrade]

Entre a cortina e a vidraça

Entre a cortina e a vidraça
Vem o tempo de varejeira
entre a cortina e a vidraça.
O tempo assim à minha beira!
Que é que se passa?

E eu,que estava tão enredado
nos baraços do eternamente
nos lacetes do já passado
sou esfregado contra o presente.

A varejeira é nacional.
Terei,assim,de preferi-la?
Ora!É a mosca-jornal
e já agora vou ouvi-la...

[Alexandre o' Neill]

terça-feira, 22 de março de 2011

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória.
Estou divorciada dos outros pelo tempo
destas entrelinhas longe de casa
tenho sonhos que não conto a ninguém
viro devagar a primeira página:
em fevereiro, eles ainda faziam amor à sexta-feira.
De manhã, ela torrava pão e espremia laranjas numa cozinha fria.
Havia mais toalhas para lavar ao domingo
cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal
dentro do carro antes de se despedirem.
Às vezes, repartiam sofregamente a infância, postais antigos, o silêncio
nada aconteceu entretanto.
Regresso, pois, à primeira linha, à verdade
que remexe entre as minhas mãos.
Talvez os olhos estivessem apenas desatentos sobre o livro
talvez as histórias se repitam mesmo
como as tardes passadas no terraço longe de casa.
Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.



[Maria do Rosário Pedreira]

segunda-feira, 21 de março de 2011

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

[Ruy Belo]

domingo, 20 de março de 2011

Comigo me desavim

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
...Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

[Francisco de Sá Miranda]


A morte absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne
A exangue máscara de cera
Cercada de flores
Que apodrecerão felizes num dia.
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: Quem foi?

Morrer mais completamente ainda
Sem deixar sequer esse nome.

[Manuel Bandeira]

sábado, 19 de março de 2011

Nocturno

Nocturno

O desenho
redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele...Imaginei-o
À beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse
Em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso
Era um convite lúcido às estrelas....

Imaginei-te assim á beira-mar
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
E sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito...

[David Mourão-Ferreira]