terça-feira, 12 de abril de 2011

Denúncia

Sonharei, no teu seio calmo

O sonho invisível do cego de nascença.

Dormirei, no teu cerrar de pálpebras

Como um peixe desliza entre os ramos de árvore

Reflectidos na água.

Dormirei, nas tuas mãos pousadas no meu corpo

O desejo de te acariciar sem perigo

não vá tirar-te escamas, borboleta presa.

Dormirei, no teu sexo, a solidão do meu

Ao existir para que eu pense em ti.

Dormirei, na tua vida, a teimosia humana

De um sentido universal para as coisas connosco.

E se depois, meu amor, formos estéreis

Se a demora do tempo tiver tido um gesto abandonado

E a morte, à nossa volta, um moleiro sem trigo

O mundo que vier inveja-nos

E o nosso espírito há-de perdoar-nos.


[Jorge de Sena]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tu e Eu Meu Amor

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

[Manuel da Fonseca]

domingo, 10 de abril de 2011

Oh as casas as casas as casas

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala para sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei , ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

[Ruy Belo]

sábado, 9 de abril de 2011

Encontro

Que vens contar-me se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo: chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre que dá para donde vim.

[Almada Negreiros]

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para além da curva da estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço e talvez um castelo
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva
e antes da curva há a estrada sem curva nenhuma.

[Alberto Caeiro]

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Minha Grande Ternura

Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.

[Manuel Bandeira]

terça-feira, 5 de abril de 2011

Lucidez

Lucidez

Em cada instante, a poesia
Morre em mim.
E a mão certeira que a escrevia
Escreve assim:

Qualquer poesia alheia
Não pode ser comparada
Com esta minha, tão cheia
De nada.

Quem a lê logo conhece
Que é
Aquela que não merece
Nem nota de rodapé.

E se a estudou, sabe agora
Que perdeu a inspiração.
E cora
De lhe haver dado atenção.

Quem sou de mim foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
– Ainda não!)

domingo, 3 de abril de 2011

Adeus Pai!


O Pai

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

[Pablo Neruda]


Deus fez-te a vontade e levou-te a ver a minha Mãe.
Não te levo a mal por isso, os últimos meses foram
bem difíceis, de muito sofrimento teu e meu, a ver-te
sofrer, sem poder fazer nada contra essa
famigerada doença.
Acabou aqui Pai, foi horrível para nós dois.
Partiste durante o sono e foste em paz, estavas sereno
ainda há pouco quando te vi.
 Deus vai iluminar o teu caminho e de agora em diante
O teu caminho irá ser uma estrada de luz.
Até um dia Querido Pai!!!


Joaquim Henrique da Silva
(25 de Abril de 1924 – 3 de Abril de 2011)

A força do hálito

A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.

Vai (ou vem) um sujeito, abre a boca e eis que a gente
que no fundo é sempre a mesma
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado
que no fundo é sempre o mesmo.

Sovacos pompeando vinagres e bafios
não são nada…bah!..em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.

"Ai onde transpira agora
o bom sovaco de outrora!"

Virilhas colaborando com parentesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito) maravi(ri)lhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.

Mas o mau hálito é pior que a palavra
sobretudo se não for da tua lavra.

Da malvada, da cárie ou, meudeus, do infinito
o mau hálito é sempre, na narina
como o baudelaireano, desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria.


[Alexandre O'Neill]

sábado, 2 de abril de 2011

Prospecção


Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado de nenhuma certeza
Soterrado por mil certezas de aluvião.
Cavo, lavo, peneiro
Mas só quero a fortuna de me encontrar.
Poeta antes dos versos e sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.

[Miguel Torga]

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Num Monumento à Aspirina

Claramente: o mais prático dos sóis
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial
que nada limita a funcionar de dia
que a noite não expulsa, cada noite
sol imune às leis de meteorologia
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma
quará-la, em linhos de um meio-dia.
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal
polido a esmeril e repolido a lima
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna
de uso interno, por detrás da retina
não serve exclusivamente para o olho
a lente ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro
o borroso de ao redor e o reafina.

[João Cabral de Melo Neto]

quinta-feira, 31 de março de 2011

Projecto de Sucessão

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.


[António Maria Lisboa]

quarta-feira, 30 de março de 2011

Rua dos rostos perdidos

Este vento não leva apenas os chapéus
estas plumas, estas sedas:
este vento leva todos os rostos
muito mais depressa.

Nossas vozes já estao longe
e como se pode conversar
como podem conversar estes passantes
decapitados pelo vento?

Não, não podemos segurar o nosso rosto:
as mãos encontram o ar
a sucessão das datas
a sombra das fugas, impalpável.

Quando voltares por aqui
saberás que teus olhos
não se fundiram em lagrimas, não
mas em tempo.

De muito longe avisto a nossa passagem
nesta rua, nesta tarde, neste outono
nesta cidade, neste mundo, neste dia.
(Não leias o nome da rua, - não leias!)

Conta as tuas historias de amor
como quem estivesse gravando
vagaroso, um fiel diamante.
E tudo fosse eterno e imóvel.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 29 de março de 2011

DIGNIDADE

Fui falar-te como se fosse a uma casa de penhores
Empenhar o meu último casaco
Sem flores
Sem anéis
Sem colares
E os saltos tortos dos sapatos
Palavras não houve
Sorriso apenas meu
De pessoa serena sem passado e sem futuro
Entregaste-me a cautela dos dias inúteis
E eu assinei
Só eu sabia que vinha nua

[Matilde Rosa Araújo]

segunda-feira, 28 de março de 2011

De Amor Nada Mais Resta Que Um Outubro

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes, estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

[Natália Correia]

sábado, 26 de março de 2011

O Canto do Amor

Eis de que é feito o canto sinfónico do amor.
Há o canto do amor de outrora
O ruído dos beijos perdidos dos amantes ilustres
Os gritos de amor das mortais violadas pelos deuses
As virilidades dos heróis fabulosos erguidas como peças antiaéreas
O uivo precioso de Jasão, o canto mortal do cisne
O hino vitorioso que os primeiros raios de sol
fizeram cantar a Mémnon o imóvel
Há o grito das Sabinas ao serem raptadas
Há ainda os gritos de amor dos felinos nas selvas
O rumor surdo da seiva trepando pelas plantas tropicais
O troar das artilharias, que coroa o terrível amor dos povos
As ondas do mar onde nasce a vida e a beleza
O canto de todo o amor do mundo.

[Guillaume Apollinaire]