sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Seu Santo Nome

O Seu Santo Nome

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

[Carlos Drummond de Andrade]

NÃO CHOREIS OS MORTOS

“Senhor da Pedra fim da tarde” Autor: António Amen

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando à tarde o Sol, entre brasidos
Agonizar… guardai longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos
Da multidão sem fim dos que são vivos
Dos tristes que não podem esquecer.

E ao meditar então, na paz da Morte
Vereis talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

[Pedro Homem de Mello]

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O teu olhar

Passam no teu olhar nobres cortejos
Frotas, pendões ao vento sobranceiros
Lindos versos de antigos romanceiros
Céus do Oriente, em brasa, como beijos

Mares onde não cabem teus desejos
Passam no teu olhar mundos inteiros
Todo um povo de heróis e marinheiros
Lanças nuas em rútilos lampejos

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

[Florbela Espanca]

Meus versos são meu sonho dado

Meus versos são meu sonho dado
Quero viver, não sei viver
Por isso, anónimo e encantado
Canto para me pertencer.

O que sabemos, o perdemos
O que pensamos, já o fomos
Ah e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.

[Fernando Pessoa]

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Comício


Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.
Livres como o vento
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos!

[José Gomes Ferreira]

Alvorada

E de súbito um corpo.
Alvorada sombria, alvorada nefasta
envolta nuns cabelos.....
eram negros e vivos.
Quem sofria, só de vê-los?
Eram negros e vivos como chamas.
Brilhavam azulados sob a chuva.
Brilhavam azulados como escamas
de sereia sombria sob a chuva...
Veio cedo de mais a trovoada.
O vento lembrou-me quem eu sou:
Alvorada suspensa, contemplada por alguém
que chegou a uma sacada
e à beira da varanda vacilou.

[David Mourão-Ferreira]

terça-feira, 19 de abril de 2011

Sim, sei bem

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora
Enquanto dura esta hora
Este luar, estes ramos
Esta paz em que estamos
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

[Fernando Pessoa]

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Intimidade


acrílico sobre tela – Francisco Charneca

Intimidade

Que ninguém
hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.

Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

[Fernando Namora]

domingo, 17 de abril de 2011

As rosas


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites tranparentes
Todo o fulgor das tardes luminosas
O vento bailador das Primaveras
A doçura amarga dos poentes
E a exaltação de todas as esperas.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]
 

Eu, Sempre

Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto
Sou um romano da decadência total
Aquela do século IV depois de Cristo
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

[Mário Cesariny]

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sentado no Outono

Óleo sobre tela - Lenângela


Sentado no Outono
desta praia quase deserta
vou contando os grãos de areia
em volta e tudo são grãos
de areia onde se inscreve
uma lava cada vez mais fria.
As mãos na terra
o pensamento nas nuvens
que derivam ao sabor do vento.
Cada vez mais frio.
O mesmo que agita
os meus cabelos brancos.

[Casimiro de Brito]

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Escuto

A Planície em La Crau. Van Gogh, 1888.

Escuto

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Mar absoluto

Mar absoluto

Foi desde sempre o mar
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos
de linhos, de cordas, de ferros
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas
campos convertidos em velas
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta
uma solidão para todos os lados
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos
matando-se e recuperando-se
correndo como um touro azul por sua própria sombra
e arremetendo com bravura contra ninguém
e sendo depois a pura sombra de si mesmo
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra
ele que, ao mesmo tempo
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu dono apenas de si
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível
igual a ele, em constante solilóquio
sem exigências de princípio e fim
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei
que há outras ordens, que não foram ouvidas
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante
nódoa líquida e instável
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 12 de abril de 2011

Não repararam nunca?

Não repararam nunca? Pela aldeia
Nos fios telegráficos da estrada
Cantam as aves, desde que o Sol nada
E à noite, se faz Sol a Lua cheia.

No entanto, pelo arame que as tenteia
Quanta tortura vai, numa ânsia adiada!
O Ministro que joga uma cartada
Alma que, às vezes, d’ Além-Mar anseia:

Revolução! Inútil. Cem feridos.
Setenta mortos. Beijo-te! Perdidos!
Enfim, feliz!?! Desesperado. Vem.

E as boas aves, bem se importam elas!
Continuam cantando, tagarelas:
Assim, António! Deves ser também.


[António Nobre]

Denúncia

Sonharei, no teu seio calmo

O sonho invisível do cego de nascença.

Dormirei, no teu cerrar de pálpebras

Como um peixe desliza entre os ramos de árvore

Reflectidos na água.

Dormirei, nas tuas mãos pousadas no meu corpo

O desejo de te acariciar sem perigo

não vá tirar-te escamas, borboleta presa.

Dormirei, no teu sexo, a solidão do meu

Ao existir para que eu pense em ti.

Dormirei, na tua vida, a teimosia humana

De um sentido universal para as coisas connosco.

E se depois, meu amor, formos estéreis

Se a demora do tempo tiver tido um gesto abandonado

E a morte, à nossa volta, um moleiro sem trigo

O mundo que vier inveja-nos

E o nosso espírito há-de perdoar-nos.


[Jorge de Sena]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tu e Eu Meu Amor

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

[Manuel da Fonseca]