terça-feira, 19 de abril de 2011

Sim, sei bem

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora
Enquanto dura esta hora
Este luar, estes ramos
Esta paz em que estamos
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

[Fernando Pessoa]

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Intimidade


acrílico sobre tela – Francisco Charneca

Intimidade

Que ninguém
hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.

Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

[Fernando Namora]

domingo, 17 de abril de 2011

As rosas


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites tranparentes
Todo o fulgor das tardes luminosas
O vento bailador das Primaveras
A doçura amarga dos poentes
E a exaltação de todas as esperas.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]
 

Eu, Sempre

Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto
Sou um romano da decadência total
Aquela do século IV depois de Cristo
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

[Mário Cesariny]

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sentado no Outono

Óleo sobre tela - Lenângela


Sentado no Outono
desta praia quase deserta
vou contando os grãos de areia
em volta e tudo são grãos
de areia onde se inscreve
uma lava cada vez mais fria.
As mãos na terra
o pensamento nas nuvens
que derivam ao sabor do vento.
Cada vez mais frio.
O mesmo que agita
os meus cabelos brancos.

[Casimiro de Brito]

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Escuto

A Planície em La Crau. Van Gogh, 1888.

Escuto

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Mar absoluto

Mar absoluto

Foi desde sempre o mar
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos
de linhos, de cordas, de ferros
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas
campos convertidos em velas
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta
uma solidão para todos os lados
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos
matando-se e recuperando-se
correndo como um touro azul por sua própria sombra
e arremetendo com bravura contra ninguém
e sendo depois a pura sombra de si mesmo
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra
ele que, ao mesmo tempo
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu dono apenas de si
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível
igual a ele, em constante solilóquio
sem exigências de princípio e fim
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei
que há outras ordens, que não foram ouvidas
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante
nódoa líquida e instável
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 12 de abril de 2011

Não repararam nunca?

Não repararam nunca? Pela aldeia
Nos fios telegráficos da estrada
Cantam as aves, desde que o Sol nada
E à noite, se faz Sol a Lua cheia.

No entanto, pelo arame que as tenteia
Quanta tortura vai, numa ânsia adiada!
O Ministro que joga uma cartada
Alma que, às vezes, d’ Além-Mar anseia:

Revolução! Inútil. Cem feridos.
Setenta mortos. Beijo-te! Perdidos!
Enfim, feliz!?! Desesperado. Vem.

E as boas aves, bem se importam elas!
Continuam cantando, tagarelas:
Assim, António! Deves ser também.


[António Nobre]

Denúncia

Sonharei, no teu seio calmo

O sonho invisível do cego de nascença.

Dormirei, no teu cerrar de pálpebras

Como um peixe desliza entre os ramos de árvore

Reflectidos na água.

Dormirei, nas tuas mãos pousadas no meu corpo

O desejo de te acariciar sem perigo

não vá tirar-te escamas, borboleta presa.

Dormirei, no teu sexo, a solidão do meu

Ao existir para que eu pense em ti.

Dormirei, na tua vida, a teimosia humana

De um sentido universal para as coisas connosco.

E se depois, meu amor, formos estéreis

Se a demora do tempo tiver tido um gesto abandonado

E a morte, à nossa volta, um moleiro sem trigo

O mundo que vier inveja-nos

E o nosso espírito há-de perdoar-nos.


[Jorge de Sena]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tu e Eu Meu Amor

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

[Manuel da Fonseca]

domingo, 10 de abril de 2011

Oh as casas as casas as casas

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala para sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei , ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

[Ruy Belo]

sábado, 9 de abril de 2011

Encontro

Que vens contar-me se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo: chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre que dá para donde vim.

[Almada Negreiros]

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para além da curva da estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço e talvez um castelo
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva
e antes da curva há a estrada sem curva nenhuma.

[Alberto Caeiro]

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Minha Grande Ternura

Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.

[Manuel Bandeira]

terça-feira, 5 de abril de 2011

Lucidez

Lucidez

Em cada instante, a poesia
Morre em mim.
E a mão certeira que a escrevia
Escreve assim:

Qualquer poesia alheia
Não pode ser comparada
Com esta minha, tão cheia
De nada.

Quem a lê logo conhece
Que é
Aquela que não merece
Nem nota de rodapé.

E se a estudou, sabe agora
Que perdeu a inspiração.
E cora
De lhe haver dado atenção.

Quem sou de mim foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
– Ainda não!)