sexta-feira, 29 de abril de 2011

Como de Súbito na Vida

Como de súbito na vida tudo cansa!
e cansa-nos a vida e cansamo-nos dela
ou ela é quem se cansa de nós mesmos
na teima de existir e desejar?
Porque, neste cansaço, não o que não tivemos
ou que perdemos, ou nos foi negado
o que de que se cansa, mas também
o quanto temos, nos ama, se nos dá
a até os simples gozos de estar vivo.
Um dia é como se uma corda se quebrara
ou como se acabara de gastar-se
que nos prendia a tudo e tudo a nós.
Não é que as coisas percam importância
as pessoas se afastem, se recusem
ou nós nos recusemos. Não é mais
ou menos que isto deseja-se igual
ao como até há pouco desejávamos.
É talvez mais. Mas sem valor algum.
O dia é noite, a noite é dia, a luz
Apaga-se ou derrama-se sobre as coisas
mas elas deixam de ter forma e cor
ou somem-se no espaço como forma oculta.
E o que sentimos é pior que quanto
dantes sentíamos nas horas ásperas
da fúria de não ter ou de ter tido.
Porque se sente o não sentir. Um tédio
Não como o tédio antigo. Nem vazio.
O não sentir. Que cansa como nada.
Até dizê-lo cansa. É inútil. Cansa.

[Jorge de Sena]

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Cuidados Intensivos

A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstracta vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa
ferido,no meu coração
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos,os seus sentidos
os seus dias visíveis e invisíveis
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim
os parentes,os amigos
a vaga enfermeira da noite
que enquanto o meu Único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu
proválvemente eu.
Os livros,as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?

[Manuel António Pina]

Balada do caixão

O meu vizinho é carpinteiro
Algibebe de Dona Morte
Ponteia e cose, o dia inteiro
Fatos de pau de toda a sorte:
Mognos, debruados de veludo
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer
Fui-me lá, ontem: (Era Entrudo
Havia imenso que fazer...)
Olá, bom homem! quero um fato
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscá-lo?
- Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo a ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)

Ó meus Amigos! salvo erro
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro
Irá mais "Dandy", olhai! do que eu!

[António Nobre]

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Contrariedades


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa
Obtém dinheiro, arranja a sua "cotterie"
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulaçãao repugna aos sentimento finos
Eu raramente falo aos nossos literatos
E apuro-me em lançar originais e exactos
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas
Não foge do estendal que lhe humedece as casas
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas
Conseguirei reler essas antigas rimas
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague"
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto, ainda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

[Cesário Verde]

Amália " Nome De Rua "



Nome de Rua

Deste-me um nome de rua
de uma rua de Lisboa.
Muito mais nome de rua
do que nome de pessoa.
Um desses nomes de rua
que são nomes de canoa.

Nome de rua quieta
onde à noite ninguém passa.
Onde o ciúme é uma seta
onde o amor é uma taça.
Nome de rua secreta
onde à noite ninguém passa.
Onde a sombra de um poeta
de repente nos abraça.

Com um pouco de amargura
Com muito de Madragoa
e a ruga de quem procura
e o riso de quem perdoa
deste-me um nome de rua
de uma rua de Lisboa.

[David Mourão-Ferreira / Alain Oulman]

terça-feira, 26 de abril de 2011

ADEUS

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti
eu falei em neve e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse
eu era só fome o que sentia
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

[Eugénio de Andrade]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Campino do Ribatejo!

“O Guardador de Sonhos” - Aguarela de Jorge Alexandre

Campino do Ribatejo!

Figura que nasce e morre
Nos campos da beira-mar!
Tão portuguesa e tão bela
Na sua simplicidade
Que até na sua pobreza
 Nunca sabe mendigar!

Entre cavalos e toiros
Na lezíria assoalhada
A sua figura esbelta
Tem um encanto infinito:
Barrete verde; o colete
Encarnado sobre a neve

Da camisa de algodão
Jaleca bem recortada
Meia branca, os albardões
As esporas, o calção
Azul cobalto justinho
E a cinta escarlate quente
Da cor do sangue ou do vinho.

Além, naquele valado
As papoilas e o junquilho
Fazem troféu, há mais luz!

Um harmónio no fandango
Vibra e salta no compasso
Magoadamente agitado!

Anda no ar o farrapo
Dolente de uma cantiga
Mordida pelo ciúme!

E o fandango vai dançado!

Ninguém se mexe. Só ele
Bamboleado
Desempenado, perfeito
E as pernas? Como ele as dobra?

E aquela curva do peito?
Trás um cravo na orelha
E dança, dança, o harmónio
Vai-lhe graduando o alento
A luz perturba, mulheres
Ficaram mudas a olhá-lo!

A garotada assobia
Acentuando o motivo
Musical, mas, a preceito
E o Sol, apesar do dia
Nascer fosco e marralheiro
Parece lume! O fandango
Com a graça de um campino
É Portugal verdadeiro!


[António Botto]

Cinismos


Eu hei-de falar-lhe lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.
Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo
Como um velho filósofo lendário.
Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso
Os pegos abismais da minha vida
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso
Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida
Cheia de dor, tremente, alucinada
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada.

[Cesário Verde]

domingo, 24 de abril de 2011

Hora de amor

Vem.
Adormece encostada a este braço
Mais débil do que o teu.
Entrega-te despida
Nas mãos dum homem solitário
Que a maldição não deixa
Que possa nem sequer lutar por ti.
Vem.
Sem que eu te chame, ou te prometa a vida.
E sente que ninguém
No descampado deste mundo, tem
A alma mais guardada e protegida.

[Miguel Torga]

sábado, 23 de abril de 2011

A LIBERDADE SIM A LIBERDADE!

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!
A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente
A noção jurídica da alma dos outros como humana
A alegria de ter estas coisas e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fossem todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da mão do amigo sério…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!
Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade
Dêem-me no púcaro velho de ao pé do pote.
Da casa do campo da minha velha infância…
Eu bebia e ele chiava
Eu era fresco e ele era fresco
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?

[Álvaro de Campos]



sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Seu Santo Nome

O Seu Santo Nome

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

[Carlos Drummond de Andrade]

NÃO CHOREIS OS MORTOS

“Senhor da Pedra fim da tarde” Autor: António Amen

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando à tarde o Sol, entre brasidos
Agonizar… guardai longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos
Da multidão sem fim dos que são vivos
Dos tristes que não podem esquecer.

E ao meditar então, na paz da Morte
Vereis talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

[Pedro Homem de Mello]

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O teu olhar

Passam no teu olhar nobres cortejos
Frotas, pendões ao vento sobranceiros
Lindos versos de antigos romanceiros
Céus do Oriente, em brasa, como beijos

Mares onde não cabem teus desejos
Passam no teu olhar mundos inteiros
Todo um povo de heróis e marinheiros
Lanças nuas em rútilos lampejos

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

[Florbela Espanca]

Meus versos são meu sonho dado

Meus versos são meu sonho dado
Quero viver, não sei viver
Por isso, anónimo e encantado
Canto para me pertencer.

O que sabemos, o perdemos
O que pensamos, já o fomos
Ah e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.

[Fernando Pessoa]

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Comício


Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.
Livres como o vento
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos!

[José Gomes Ferreira]

Alvorada

E de súbito um corpo.
Alvorada sombria, alvorada nefasta
envolta nuns cabelos.....
eram negros e vivos.
Quem sofria, só de vê-los?
Eram negros e vivos como chamas.
Brilhavam azulados sob a chuva.
Brilhavam azulados como escamas
de sereia sombria sob a chuva...
Veio cedo de mais a trovoada.
O vento lembrou-me quem eu sou:
Alvorada suspensa, contemplada por alguém
que chegou a uma sacada
e à beira da varanda vacilou.

[David Mourão-Ferreira]