terça-feira, 10 de maio de 2011

Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e torturadas
As árvores sangrentas, revoltadas
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder pelas estradas
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede
Pedindo a Deus a minha gota de água!

[Florbela Espanca]

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Portugal Futuro

Foto: Ana Miranda

o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

[Ruy Belo]

Origem dos sonhos esquecidos

Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo

[Mário Henrique Leiria]

domingo, 8 de maio de 2011

Metade




Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo
seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim
é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais
do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

[Oswaldo Montenegro]

sábado, 7 de maio de 2011

Receita para fazer um herói

Receita para fazer um herói

Tome-se um homem
Feito de nada, como nós
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne
Lentamente
Duma certeza aguda, irracional
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

[Reinaldo Ferreira]

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O Ramo roubado

        Pela noite entraremos para roubar
        Um ramo florido.
        Ainda não se foi o inverno
        E a macieira aparece
        Convertida, de súbito
        Em cascata de estrelas perfumadas.
        Pela noite entraremos
        Até chegar ao firmamento trémulo
        E tuas mãos pequenas como as minhas
        Roubarão as estrelas.
        E sigilosamente
        À nossa casa
        Pela noite e na sombra
        Entrará com teus passos
        O silencioso passo do perfume
        E com pés entrelaçados
        O corpo claro desta primavera.
         
        [Pablo Neruda]

O Inominável

Nunca dos nossos lábios aproximaste
o ouvido, nunca ao nosso ouvido
encostaste os lábios.
És o silêncio, o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos e nada nos une
nem sequer sabemos se tens nome.

[Eugénio de Andrade]

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Pincel

António Aleixo, retrato de autoria de Luís Furtado

 
O Pincel

Fui uma noite pintar
Com um caneco emprestado
Eu pintei sem reparar
Pintei e fiquei pintado.

Eu comecei com jeitinho
A compor o ramalhete
Primeiro foi com azeite
E depois foi com cuspinho.
No começo era estreitinho
Custava o pincel a entrar...
Começa a dona a gritar:
"Não me parta a tigelinha"
Mas que coisa engraçadinha
Fui uma noite pintar...

Comecei devagarinho...
Quando fui ao outro mundo
Meti o pincel ao fundo
E parti o canequinho.
Até mesmo o pincelinho
Veio de lá todo pintado
Eu já estava desmaiado
Perdendo as cores do rosto
Mas pintei com muito gosto
Com um caneco emprestado.

Vem a mãe toda zangada:
"Tem que pagar-me a vasilha...
No caneco da minha filha
Não pinta você mais nada...
...Lá isto, a moça deitada
Sem se poder levantar
Com tanta tinta a pingar
No lugar da rachadela!..."
"Diga lá, que desculpe ela
Eu pintei sem reparar!"...

Pra que vejam que sou pintor
E meu pincel nunca deixo
Pra que saibam que o Aleixo
Não é somente cantor...
Também pinto qualquer flor
E faço qualquer bordado
Mas aqui o ano passado
Perdi, de pintar, o tino...
Fui pintar, fiz um menino
Pintei e fiquei pintado.

[António Aleixo]

terça-feira, 3 de maio de 2011

Câmara Escura

    Devagar,
    Hora a hora
    Dia a dia
    Como se o tempo fosse um banho de acidez
    Vou vendo com mais funda nitidez
    O negativo da fotografia.

    E o que eu sou por detrás do que pareço!
    Que seguida traição desde o começo
    Em cada gesto
    Em cada grito
    Em cada verso!
    Sincero sempre, mas obstinado
    Numa sinceridade
    Que vende ao mesmo preço
    O direito e o avesso
    Da verdade.

    Dois homens num só rosto!
    Uma espécie de Jano sobreposto
    Inocente
    Impotente
    E condenado
    A este assombro de se ver forrado
    Dum pano de negrura que desmente
    A nua claridade do outro lado.



[Miguel Torga]

Outra manhã

Outra manhã
em que os assassinos voltam a limpar as mãos nas nuvens
e as lágrimas aumentam a sede
das mães escondidas nos olhos.

Outra manhã
em que, farto de insónias e de rugas
vou mais uma vez sofrer
o tédio submisso
que rói e suga
esta pátria de algemas
e silêncio mole
onde espero em vão pela outra Dor
vem, vem, dia das injustiças fundas!
que aperfeiçoa o sol.

[José Gomes Ferreira]


A Voz

Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.

[Maria Teresa Horta]

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Se houvesse degraus na terra

Degraus, aldeia de Monsanto [A. Cabral]

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse e chovesse e houvesse luz nas montanhas
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra
e a fímbria do mar e o meio do mar
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada
e as raparigas correram à procura da mantilha
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

[Herberto Hélder]


domingo, 1 de maio de 2011

Lição sobre a água

Lição sobre a água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor
sob tensão e a alta temperatura
move os êmbolos das máquinas que, por isso
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral
dissolve tudo bem, ácidos, base e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão
sob um luar gomoso e branco de camélia
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

[António Gedeão]

sábado, 30 de abril de 2011

Olá Mãe

A minha Doce e Querida Mãe



Olá Mãe
Que bom foi sentir ontem que me deste a mão, naquele exame tão chato e tão sofrido.
 Apareceste  e eu sei, no momento em que pensei…e agora? Já não tenho a minha Mãe, como vai ser?
 Mas tu estiveste ali, que eu sei, a "fibroscopia"  correu tão bem, foi tudo tão rápido.
 Os amigos da nossa vida continuam a apoiar-me e isso eu sei que é obra tua, só pode ser e foi tão bom sentir que tu estavas ali do meu lado.
 Desculpa, mas amanhã não vou ao cemitério pôr-te flores, ali é um lugar de fim de linha, tudo acaba ali e… e eu acho que não, nada acaba e tudo tem um recomeço e graças ao legado que me deixaste, recomeço todos os dias.
Um beijo do tamanho do mundo para Ti Querida Mãe!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Como de Súbito na Vida

Como de súbito na vida tudo cansa!
e cansa-nos a vida e cansamo-nos dela
ou ela é quem se cansa de nós mesmos
na teima de existir e desejar?
Porque, neste cansaço, não o que não tivemos
ou que perdemos, ou nos foi negado
o que de que se cansa, mas também
o quanto temos, nos ama, se nos dá
a até os simples gozos de estar vivo.
Um dia é como se uma corda se quebrara
ou como se acabara de gastar-se
que nos prendia a tudo e tudo a nós.
Não é que as coisas percam importância
as pessoas se afastem, se recusem
ou nós nos recusemos. Não é mais
ou menos que isto deseja-se igual
ao como até há pouco desejávamos.
É talvez mais. Mas sem valor algum.
O dia é noite, a noite é dia, a luz
Apaga-se ou derrama-se sobre as coisas
mas elas deixam de ter forma e cor
ou somem-se no espaço como forma oculta.
E o que sentimos é pior que quanto
dantes sentíamos nas horas ásperas
da fúria de não ter ou de ter tido.
Porque se sente o não sentir. Um tédio
Não como o tédio antigo. Nem vazio.
O não sentir. Que cansa como nada.
Até dizê-lo cansa. É inútil. Cansa.

[Jorge de Sena]

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Cuidados Intensivos

A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstracta vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa
ferido,no meu coração
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos,os seus sentidos
os seus dias visíveis e invisíveis
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim
os parentes,os amigos
a vaga enfermeira da noite
que enquanto o meu Único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu
proválvemente eu.
Os livros,as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?

[Manuel António Pina]

Balada do caixão

O meu vizinho é carpinteiro
Algibebe de Dona Morte
Ponteia e cose, o dia inteiro
Fatos de pau de toda a sorte:
Mognos, debruados de veludo
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer
Fui-me lá, ontem: (Era Entrudo
Havia imenso que fazer...)
Olá, bom homem! quero um fato
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscá-lo?
- Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo a ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)

Ó meus Amigos! salvo erro
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro
Irá mais "Dandy", olhai! do que eu!

[António Nobre]