segunda-feira, 16 de maio de 2011

Mãe Ilha

Foto:Fernando Coelho


Mãe Ilha

Foi isto outrora na ilha das fadas
Embrumada em hortênsias. Não sonhei.
Sobre as lagoas de águas encantadas
Dormiam os feios e não havia lei.


As vacas, nas colinas esfumadas
Ruminavam o eterno. Ali folguei
Na festa das crianças coroadas.
Reinava o Amor e não havia lei.


Dentro da música a casa repousava.
Minha mãe docemente penteava
Os meus cabelos e caíam pérolas.


Rumores longínquos da infância oclusa,
Que num desvão da alma ainda debruça
Uma varanda sobre um mar de auréolas

[Natália Correia]


domingo, 15 de maio de 2011

Partir é morrer um pouco




Adeus parceiros das farras
Dos copos e das noitadas
Adeus sombras da cidade
Adeus langor das guitarras
Canto de esperanças frustradas
Alvorada de saudade.

Meu coração como louco
Quer desgarrar-me do peito
Transforma em soluço a voz
Partir é morrer um pouco
A alma de certo jeito
A expirar dentro de nós.

Voam mágoas em pedaços
Como aves que se não cansam
Ilusões esparsas no ar.
Partir é estender os braços
Aos sonhos que não se alcançam
Cujo destino é ficar.

Deixo a minh’alma no cais
De longe canto sinais
Feitos de pranto a correr.
Quem morre não sofre mais
Mas quem parte é dor demais
É bem pior que morrer!

Quem morre não sofre mais
Mas quem parte é dor demais
É bem pior que morrer!

[Augusto Mascarenhas Barreto / António dos Santos]

APELO

Quem quer que sejas, vem a mim apenas
De noite, quando as rosas adormecem!

Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as árvores de voar se esquecem.

Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.

Vem quando o vento acorda os meus cabelos
Como em folhagem que, ávida, respira…

Vem como a sombra, quando a estrada é nua
Nem risco de asa, vem, serenamente!

Como as estrelas, quando não há Lua
Ou como os peixes, quando não há gente…

[Pedro Homem de Mello]

sábado, 14 de maio de 2011

Barcarola


Barcarola

Deseja a noite, primeiro
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.

Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana
Traz ondas que nunca vão.

Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.

Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar...
A escuna é espuma, é luar...
Madrugada! Madrugada!

[António Manuel Couto Viana]

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Triângulo kabalístico

Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos

Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores

Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada

Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente

Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes

Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos

Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar

Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.



[Mário Henrique Leiria]

Vê se há mensagens

Vê se há mensagens

no gravador de chamadas
rega as roseiras
as chaves estão
na mesa do telefone
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém
o tempo,agora
é de poucas palavras
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permaneça
alguma palavra ou alguma lembrança
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira
não digo a morte, nem a vida
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos
o medo e a esperança
a urze e o salgueiro
os meus heróis e os meus livros?
Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o “Adalat ou o Nitromint.”

[Manuel António Pina]

Desacerto

Desacerto

Ternura em movimento
Vamos os dois, o sol e a sombra juntos
O futuro e o passado no presente.
O que te digo é urgente
O que tu me respondes não tem pressa.
A minha voz acaba na vertente
Onde a tua começa.

Apertamos as mãos enamoradas.
Uma quente, outra fria…
E sorrimos às flores que no caminho
Nos olham com seus olhos perfumados.
Tu, de pura alegria
Eu, de melancolia…
Um a cuidar e o outro sem cuidados.

Canta um ribeiro ao lado.
Ambos o ouvimos, mas diversamente.
O que em ti é promessa de frescura
À terra da semente semeada
Em mim é já certeza de secura
De raiz arrancada.

Almas amantes e desencontradas
Na breve conjunção
Que tiveram na vida
Levo de ti um halo de pureza
Deixo-te a inquietação duma lembrança…
E é inútil pedir mais à natureza
Surda ao meu desespero e à tua confiança

[Miguel Torga]

terça-feira, 10 de maio de 2011

Manhã Cinzenta


Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra de meus pais...
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais..


0 meu veleiro  era de espuma fria
levava-o o fervor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.


Cruzei o mar em direcções diferentes.
Por quantas terras fui, por quantas gentes
nesta longa viagem que não finda.


Só uma estrada resta, mais nenhuma:
na Ilha que o passado envolve em bruma,
um lenço branco que me acena ainda...

[Natália Correia]


À partida de S. Miguel


Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e torturadas
As árvores sangrentas, revoltadas
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder pelas estradas
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede
Pedindo a Deus a minha gota de água!

[Florbela Espanca]

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Portugal Futuro

Foto: Ana Miranda

o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

[Ruy Belo]

Origem dos sonhos esquecidos

Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo

[Mário Henrique Leiria]

domingo, 8 de maio de 2011

Metade




Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo
seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim
é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais
do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

[Oswaldo Montenegro]

sábado, 7 de maio de 2011

Receita para fazer um herói

Receita para fazer um herói

Tome-se um homem
Feito de nada, como nós
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne
Lentamente
Duma certeza aguda, irracional
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

[Reinaldo Ferreira]

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O Ramo roubado

        Pela noite entraremos para roubar
        Um ramo florido.
        Ainda não se foi o inverno
        E a macieira aparece
        Convertida, de súbito
        Em cascata de estrelas perfumadas.
        Pela noite entraremos
        Até chegar ao firmamento trémulo
        E tuas mãos pequenas como as minhas
        Roubarão as estrelas.
        E sigilosamente
        À nossa casa
        Pela noite e na sombra
        Entrará com teus passos
        O silencioso passo do perfume
        E com pés entrelaçados
        O corpo claro desta primavera.
         
        [Pablo Neruda]

O Inominável

Nunca dos nossos lábios aproximaste
o ouvido, nunca ao nosso ouvido
encostaste os lábios.
És o silêncio, o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos e nada nos une
nem sequer sabemos se tens nome.

[Eugénio de Andrade]

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Pincel

António Aleixo, retrato de autoria de Luís Furtado

 
O Pincel

Fui uma noite pintar
Com um caneco emprestado
Eu pintei sem reparar
Pintei e fiquei pintado.

Eu comecei com jeitinho
A compor o ramalhete
Primeiro foi com azeite
E depois foi com cuspinho.
No começo era estreitinho
Custava o pincel a entrar...
Começa a dona a gritar:
"Não me parta a tigelinha"
Mas que coisa engraçadinha
Fui uma noite pintar...

Comecei devagarinho...
Quando fui ao outro mundo
Meti o pincel ao fundo
E parti o canequinho.
Até mesmo o pincelinho
Veio de lá todo pintado
Eu já estava desmaiado
Perdendo as cores do rosto
Mas pintei com muito gosto
Com um caneco emprestado.

Vem a mãe toda zangada:
"Tem que pagar-me a vasilha...
No caneco da minha filha
Não pinta você mais nada...
...Lá isto, a moça deitada
Sem se poder levantar
Com tanta tinta a pingar
No lugar da rachadela!..."
"Diga lá, que desculpe ela
Eu pintei sem reparar!"...

Pra que vejam que sou pintor
E meu pincel nunca deixo
Pra que saibam que o Aleixo
Não é somente cantor...
Também pinto qualquer flor
E faço qualquer bordado
Mas aqui o ano passado
Perdi, de pintar, o tino...
Fui pintar, fiz um menino
Pintei e fiquei pintado.

[António Aleixo]

terça-feira, 3 de maio de 2011

Câmara Escura

    Devagar,
    Hora a hora
    Dia a dia
    Como se o tempo fosse um banho de acidez
    Vou vendo com mais funda nitidez
    O negativo da fotografia.

    E o que eu sou por detrás do que pareço!
    Que seguida traição desde o começo
    Em cada gesto
    Em cada grito
    Em cada verso!
    Sincero sempre, mas obstinado
    Numa sinceridade
    Que vende ao mesmo preço
    O direito e o avesso
    Da verdade.

    Dois homens num só rosto!
    Uma espécie de Jano sobreposto
    Inocente
    Impotente
    E condenado
    A este assombro de se ver forrado
    Dum pano de negrura que desmente
    A nua claridade do outro lado.



[Miguel Torga]