sábado, 28 de maio de 2011

Sentimental

Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra

uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!


Eu estava sonhando...

E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar." 


[Drummond de Andrade]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Quase nada

Quase nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz. 

[Eugénio de Andrade]

domingo, 22 de maio de 2011

Sala de Espera

Quem foi
antes de mim não demorou
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..

Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
Mas enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....

Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, na sala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)

Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
E  arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.

[David Mourão-Ferreira]

sábado, 21 de maio de 2011

Agonia

Agonia

Encho de nada
A concha
Das mãos vazias...
Que me pedias
Que não posso dar-te
Desespero?
Água de que nascente?
Pão de que sementeira?
Queira ou não queira
A esperança
A hora é de secura
E de miséria
Por toda a parte...
Enganar-te?
Inventar
Miragens de frescura
E de fartura
No deserto da vida?
De que valia
Mais essa ilusão?
O cálice de amargura
Tem amargura
Seja bebida
Ou não...

[Miguel Torga]

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Os Desaparecidos

De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.

Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os actores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
desapareciam.

[Affonso Romano de Sant'Anna]

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A Vulgar Que Passou

Não eras para os meus sonhos, não eras para a minha vida
nem para os meus cansaços perfumados de rosas
nem para a impotência da minha raiva suicída
não eras a bela e doce, a bela e dolorosa.

Não eras para os meus sonhos, não eras para os meus cantos
não eras para o prestígio dos meus amargos prantos
não eras para a minha vida nem para a minha dor
não eras a fugitiva de todos os meus encantos.
Não merecias nada. Nem o meu áspero desencanto
nem sequer o lume que pressentiu o Amor.

Bem feito, é muito bem feito que tenhas passado em vão
que a minha vida não se tenha submetido ao teu olhar
que aos antigos prantos se não tenha juntado
a amargura dolente de um estéril chorar.

Tu eras para o imbecil que te quisesse um pouco.
(Oh! meus sonhos doces, oh meus sonhos loucos!)
Tu eras para um imbecil, para um qualquer
que não tivesse nada dos meus sonhos, nada
mas que te daria o prazer animal
o curto e bruto gozo do espasmo final.

Não eras para os meus sonhos, não eras para a minha vida
nem para os meus quebrantos, nem para a minha dor
não eras para os prantos das minhas duras feridas
não eras para os meus braços, nem para a minha canção.

[Pablo Neruda]

quarta-feira, 18 de maio de 2011

N A S C E R

Nascer

Não me sei...
Esqueço-me
por não saber
onde nasce o azul.
Talvez nasça ali
na berma de um beijo
que fosse capaz de dar
se já fosse corpo
se de mim me soubesse...
Mas não me sei
de mim me esqueço
enquanto vagueio
pelo campo da nascente
me moldo
me ressurjo
por dentro de um arco-íris
pleno de cor.

[Cristina Miranda]



terça-feira, 17 de maio de 2011

ESTA TARDE A TROVOADA CAIU

Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme.

Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa
E as migalhas, por caírem todas juntas
Fazem algum barulho ao cair
A chuva chiou do céu
E enegreceu os caminhos.

Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não
Não sei porquê, eu não tinha medo
Pus-me a querer rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém.

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou.
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor.

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
Alumia e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós...
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...

[Alberto Caeiro]

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Mãe Ilha

Foto:Fernando Coelho


Mãe Ilha

Foi isto outrora na ilha das fadas
Embrumada em hortênsias. Não sonhei.
Sobre as lagoas de águas encantadas
Dormiam os feios e não havia lei.


As vacas, nas colinas esfumadas
Ruminavam o eterno. Ali folguei
Na festa das crianças coroadas.
Reinava o Amor e não havia lei.


Dentro da música a casa repousava.
Minha mãe docemente penteava
Os meus cabelos e caíam pérolas.


Rumores longínquos da infância oclusa,
Que num desvão da alma ainda debruça
Uma varanda sobre um mar de auréolas

[Natália Correia]


domingo, 15 de maio de 2011

Partir é morrer um pouco




Adeus parceiros das farras
Dos copos e das noitadas
Adeus sombras da cidade
Adeus langor das guitarras
Canto de esperanças frustradas
Alvorada de saudade.

Meu coração como louco
Quer desgarrar-me do peito
Transforma em soluço a voz
Partir é morrer um pouco
A alma de certo jeito
A expirar dentro de nós.

Voam mágoas em pedaços
Como aves que se não cansam
Ilusões esparsas no ar.
Partir é estender os braços
Aos sonhos que não se alcançam
Cujo destino é ficar.

Deixo a minh’alma no cais
De longe canto sinais
Feitos de pranto a correr.
Quem morre não sofre mais
Mas quem parte é dor demais
É bem pior que morrer!

Quem morre não sofre mais
Mas quem parte é dor demais
É bem pior que morrer!

[Augusto Mascarenhas Barreto / António dos Santos]

APELO

Quem quer que sejas, vem a mim apenas
De noite, quando as rosas adormecem!

Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as árvores de voar se esquecem.

Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.

Vem quando o vento acorda os meus cabelos
Como em folhagem que, ávida, respira…

Vem como a sombra, quando a estrada é nua
Nem risco de asa, vem, serenamente!

Como as estrelas, quando não há Lua
Ou como os peixes, quando não há gente…

[Pedro Homem de Mello]

sábado, 14 de maio de 2011

Barcarola


Barcarola

Deseja a noite, primeiro
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.

Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana
Traz ondas que nunca vão.

Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.

Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar...
A escuna é espuma, é luar...
Madrugada! Madrugada!

[António Manuel Couto Viana]

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Triângulo kabalístico

Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos

Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores

Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada

Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente

Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes

Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos

Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar

Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.



[Mário Henrique Leiria]