quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pensar em ti

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento
um proteger a chama contra o vento
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
[António Gedeão]

terça-feira, 31 de maio de 2011

E ao anoitecer

Foto : Nelson Cachola



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio e a difícil arte da melancolia

[Al  Berto]

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Tapas os caminhos

Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança, rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem 

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

Desejo

Desejo

Penso-te
Qual cascata de gotas
Lágrimas emocionadas que te envolvem.

Enquanto os gestos se ajeitam
Ternamente
Tal como quando se completavam
Ao desaguar naquela baía
Aquela frase que me deste:
“Adoro amar-te!”
Meus dedos levam-me
A correr
Célere
Por cada pedaço de ti.

[Cristina Miranda]

domingo, 29 de maio de 2011

Cala-te

Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.

Cala-te, voz que assevera

e insinua
que a primavera
a pintar-se de lua
nos telhados
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.

Cala-te, sedução

desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.

Cala-te, voz maldita

que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido….

(E sem a minha sombra

o chão tem lá sentido!)

Mas canta tu, voz desesperada

que me excede.
E ilumina o Nada
Com a minha sede.

[José Gomes Ferreira]

sábado, 28 de maio de 2011

Sentimental

Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra

uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!


Eu estava sonhando...

E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar." 


[Drummond de Andrade]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Quase nada

Quase nada

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz. 

[Eugénio de Andrade]

domingo, 22 de maio de 2011

Sala de Espera

Quem foi
antes de mim não demorou
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..

Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
Mas enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....

Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, na sala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)

Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
E  arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.

[David Mourão-Ferreira]

sábado, 21 de maio de 2011

Agonia

Agonia

Encho de nada
A concha
Das mãos vazias...
Que me pedias
Que não posso dar-te
Desespero?
Água de que nascente?
Pão de que sementeira?
Queira ou não queira
A esperança
A hora é de secura
E de miséria
Por toda a parte...
Enganar-te?
Inventar
Miragens de frescura
E de fartura
No deserto da vida?
De que valia
Mais essa ilusão?
O cálice de amargura
Tem amargura
Seja bebida
Ou não...

[Miguel Torga]

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Os Desaparecidos

De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.

Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os actores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
desapareciam.

[Affonso Romano de Sant'Anna]