segunda-feira, 6 de junho de 2011

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto
contemplo os teus pés.

Os teus pés de osso arqueado
os teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que o teu doce peso
sobre eles se ergue.

A tua cintura e os teus seios
a duplicada púrpura
dos teus mamilos
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo
a larga boca de fruta
a tua rubra cabeleira
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água
até me encontrarem.

[Pablo Neruda]

domingo, 5 de junho de 2011

A Alma

Votada ao fogo obediente ao perigo
Feroz do amor ser muito e o tempo pouco
Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo
E eu não sei se por mim és anjo ou louco.


Num beijo infindo queres morrer comigo.
Nesse extremo és sagrado e eu não te toco.
Esquivo-me: o teu sonho mais instigo.
Fujo-te: a tua chama mais provoco


A incêndio do teu sangue me condenas
E com ciumentas ervas te envenenas
Dizendo às nuvens que só tu me viste.


Bebendo o vinho de amantes mortos queres
Que eu seja a mais prateada das mulheres.
E de ser tão amada eu fico triste.

[Natália Correia]

sábado, 4 de junho de 2011

O Meu Impossível

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora
Irmãos, não a sentia como a sinto!...

[Florbela Espanca]

Irrompe do teu corpo iluminado

Irrompe do teu corpo iluminado
toda a luz, de que o mundo sente a falta
Não a que mais reluz, só a mais alta
Só a que nos faz ver o outro lado

do bosque onde o Futuro e o Passado
defrontam o Presente que os assalta
num combate indeciso a que nem falta
o sabor de saber-se ilimitado

Irrompe assim a luz, entre os extremos
da mesma renovada madrugada
E vibra a cada instante um novo grito

Com essa luz do grito, é que nós vemos
que Passado e Futuro não são nada
apenas o Presente é infinito!

[David Mourão-Ferreira]


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Pedro, lembrando Inês

Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que me esvaziaste de coisas incertas
 e trouxeste a manhã da minha noite.
É verdade que te podia dizer:
Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem
sermos o que sempre fomos
mudarmos apenas dentro de nós próprios?
Mas ensinaste-me a sermos dois
e a ser contigo aquilo que sou
até sermos um apenas no amor que nos une
contra a solidão que nos divide.
Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo
ouvir a tua voz, que abre as fontes de todos os rios
mesmo esse, que mal corria quando por ele passámos
subindo a margem em que descobri o sentido
de  irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba.
Como gosto meu amor, de chegar antes de ti
 para te ver chegar com a surpresa dos teus cabelos
e o teu rosto de água fresca que eu bebo
com esta sede que não passa.
Tu, a primavera luminosa da minha expectativa
a mais certa certeza de que gosto de ti
como gostas de mim…
até ao fundo do mundo que me deste.

[Nuno Júdice]

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Preparação para a Morte

A vida é um milagre.
Cada flor com sua forma, sua cor, seu aroma
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres. 


[Manuel Bandeira]

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pensar em ti

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento
um proteger a chama contra o vento
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
[António Gedeão]

terça-feira, 31 de maio de 2011

E ao anoitecer

Foto : Nelson Cachola



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio e a difícil arte da melancolia

[Al  Berto]

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Tapas os caminhos

Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança, rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem 

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

Desejo

Desejo

Penso-te
Qual cascata de gotas
Lágrimas emocionadas que te envolvem.

Enquanto os gestos se ajeitam
Ternamente
Tal como quando se completavam
Ao desaguar naquela baía
Aquela frase que me deste:
“Adoro amar-te!”
Meus dedos levam-me
A correr
Célere
Por cada pedaço de ti.

[Cristina Miranda]