sábado, 11 de junho de 2011

fingir que está tudo bem

fingir que está tudo bem:
o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro
rastos de chamas dentro do corpo
 gritos desesperados sob as conversas:
 fingir que está tudo bem:
olhas-me e só tu sabes:
na rua, onde os nossos olhares
 se encontram é noite:
as pessoas não imaginam:
 são tão ridículas as pessoas
 tão desprezíveis:
 as pessoas falam e não imaginam:
 nós olhamo-nos:
fingir que está tudo bem:
 o sangue a ferver sob a pele
 igual aos dias antes de tudo
 tempestades de medo nos lábios a sorrir:
 será que vou morrer? pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?
 olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa
 fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem:
 ter de sorrir: um oceano que nos queima
 um incêndio que nos afoga.

[José Luis Peixoto]

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Saudades de ti


    
Saudades de ti

    Partiste e eu fiquei só
    neste tempo que se perde
    na agonia de um sonho verde
    neste fado que lamento
    que canto e tenho na voz
    amarga do pensamento.

    [João Marques Jacinto]

  

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Vida é Tempo

Com alma, ideias, tempo, luta
Componho um homem, sou sujeito:
Penso-me livre numa gruta
Como pretérito imperfeito.

De era se faz o meu futuro
Será o meu passado
Como da era, se faz o muro
Mais que da pedra levantado.

Se horas a nada levam tudo
Nada nasceu, tudo é que é
Haja ou não haja Sartre e o mudo
Deus Tudo-nada havido em fé.

Que ele é Deus mesmo no absoluto
Ser contestado, tão assente
Que se faz Deus na voz que escuto,
Mesmo que o negue e me desmente.

[Vitorino Nemésio]

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Não te digo que te amo

Imagem: Paul Koh, Equilibrium

Ponho entre lábios essa vontade
serpenteio aromas de hortelã
 a curva das nossas bocas.
Chovo em bagos rubros no nimbo
onde cabe o pensamento
que tal como um olhar
desagua
ansioso
pelo desejo.

Mostro-te como nos respiramos
afastando os dias mornos
enquanto percorro as ruas
que desembocam na clareira da nossa pele.
Biso em nós toda a chuva
tomo forma de ventos
voando pela malha das ruas que teci
sobre lençóis que amanhecem em vagas de espuma alva.

Vou dar voz às mãos
ouvir cada gesto
sob véus que dançam
formando nuvens róseas
onde o sol se deleita num céu
leito de deuses.

Quando voltarmos a amanhecer
nos nossos corpos adormecidos
sem nos darmos conta que o tempo acordou
conta-me o segredo de um beijo
desvenda-te num abraço
e repetir-te-ei
eternamente
num sussurro
que não vou dizer que te amo.

[Cristina Miranda]

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio
porque queima os dedos
porque fere os lábios
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem
crianças a brincarem nos passeios
amantes ocultando-se nas sebes
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta  e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

[José Jorge Letria]

terça-feira, 7 de junho de 2011

MÃOS ABERTAS (Ao Manuel Andrade)

Mãos abertas... li um dia
um poema que as cantava
mãos que nasceram para dar
Tão livres, que me encantava
aquela estranha magia
Mãos errantes, feitas de ar

Mãos abertas... como as mãos
do poeta que as cantou
tão esquivas como um adeus
Mãos que a poeira sujou
mãos moldadas em mil mãos
mãos de um homem que morreu

Mãos que só deram
e não tiveram nada de seu
Mãos que se ergueram
e acenderam estrelas no céu
Mãos que tocaram
mas não guardaram
sonhos perdidos
A sós ficaram
e se tornaram…
anjos caídos

[Ana Vidal]

do livro "Seda e aço"
http://flabbergasted2.wordpress.com/2007/12/26/ana-vidal-poesia-presente/

 
Mãos abertas, mãos de dar
As minhas mãos são assim
Viste-as abertas chegar
Abertas hão-de ficar
Quando tu, partires em mim

Ao partir, não levarei
Nada mais do que ao chegar
Minhas mãos, quando tas dei
Iam abertas e sei
Que abertas hão-de ficar

Nunca as juntei, p’ra rezar
Nem nunca as ergui aos céus
Minhas mãos, são mãos de dar
Não sabem querer nem esperar
Nem sequer dizer adeus

Ao partir, não sentirei
Nada teu, partindo em mim
De mãos abertas irei
Passado, nunca o terei
As minhas mãos são assim

[Manuel de Andrade]