quinta-feira, 16 de junho de 2011

LUSITÂNIA

Os que avançam de frente para o mar
e nele enterram como uma aguda faca
a proa negra dos seus barcos
vivem de pouco pão e de luar




[Sophia de Mello Breyner Andresen]

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Balofas carnes de balofas tetas

Balofas carnes de
balofas tetas
caem aos montões
em duas mamas pretas
chocalhos velhos a
bater na pança
e a puta dança.

Flácidas bimbas sem
expressão nem graça
restos mortais de uma
cusada escassa
a quem do cu só lhe
ficou cagança
e a puta dança.

A ver se caça com
disfarce um chato
coça na cona e vai
rompendo o fato
até que o chato
de morder se cansa
e a puta dança.

[António Botto]

terça-feira, 14 de junho de 2011

Os gatos da tinturaria

Os gatos brancos, descoloridos

passeiam pela tinturaria

miram policromos vestidos.

Com soberana melancolia

brota nos seus olhos erguidos

o arco-íris, resumo do dia

ressuscitando dos seus olvidos

onde apagado cada um jazia

abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria

xadrez sem fim, por onde os ruídos

atropelam a geometria

os grandes gatos abrem compridos

bocejos, na dispersão vazia

da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia

da renúncia e tranquilos, vencidos

dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos

mas baixam a pálpebra fria


[Cecília Meireles]

Ah! Como te invejo

Ah! Como te invejo,
pássaro que cantas
o silêncio das plantas
alheio à tempestade.

Vives sem chão
ao sol a cantar
a grande ilusão
da liberdade...

(...com algemas de ar.)

[José Gomes Ferreira]

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CAPITAL

Casas, carros, casas, casos.
Capital
encarcerada.

Colos, calos, cuspo, caspa.
Cautos, castas. Calvos, cabras.
Casos, casos... Carros, casas...
Capital
acumulado.

E capuzes. E capotas.
E que pêsames! Que passos!
Em que pensas? Como passas?
Capitães. E capatazes.
E cartazes. Que patadas!
E que chaves! Cofres, caixas...
Capital
acautelado.

Cascos, coxas, queixos, cornos.
Os capazes. Os capados.
Corpos. Corvos. Copos, copos.
Capital
oh! capital
capital
decapitada!

[David Mourão-Ferreira]

domingo, 12 de junho de 2011

Encontro

Felicidade, agarrei-te
Como um cão, pelo cachaço!
E  contigo, em mar de azeite
Afoguei-me, passo a passo...
Dei à minha alma a preguiça
Que o meu corpo não tivera.
E foi assim, que submissa
Vi chegar a Primavera...
Quem a colher que a arrecade
(Há, nela, um segredo lento...)
Ó frágil felicidade!
Palavra que leva o vento
E  depois, como se a ideia
De  nos dedos, a ter tido
Bastasse por fim, larguei-a
Sem ficar arrependido...

[Pedro Homem de Mello]